Consequências do aquecimento global já estão presentes na vida urbana. Opções agora são de mitigar esses efeitos ou de se adaptar a eles. Veja o que grandes cidades do mundo já fazem

O verão de 2003 foi um marco na avaliação dos riscos e consequências das mudanças climáticas. Durante julho e agosto daquele ano, muitas cidades europeias sofreram com a maior onda de calor no continente desde 1540. Paris foi a metrópole mais afetada e, em toda França, cerca de 15 mil pessoas morreram; Itália, Portugal, Holanda, Alemanha e Reino Unido também registraram milhares de óbitos decorrentes das temperaturas extremas.

As ondas de calor são fenômenos climáticos que sempre existiram. O problema é que o aquecimento global está fazendo com que elas sejam mais frequentes e mais intensas. E, pior, a urbanização potencializa seus impactos: as grandes cidades tendem a ser mais quentes e apresentam menor capacidade de escoamento de grande volume de água quando chove muito em pouco tempo.

Superfícies impermeabilizadas (muito asfalto e concreto), fator antropogênico (alto fluxo de carros e pessoas), deficiência hídrica (baixa presença de água natural e de plantas) e geometria urbana com edifícios muito próximos (fator visão de céu: quanto menos eu vejo o céu, mais calor faz) são os principais agentes da formação das ilhas de calor em aglomerações urbanas. 

Ou seja, para administrar ou até para reverter os impactos das mudanças climáticas, as grandes cidades precisam repensar sua organização. Hoje, os investimentos estão voltados para duas estratégias: a mitigação das consequências nocivas do aquecimento global e a adaptação da infraestrutura a essas mudanças.

Detroit no verão. Crédito: Jennifer Arlem Molina/Unsplash

Mitigação: reduzir emissões já não é mais suficiente

Em 2012, o professor de planejamento urbano da Georgia Institute of Technology (EUA) Brian Stone Jr. já afirmou, em seu livro “The City and the Coming Climate: Climate Change in the Places We Live”, que a redução na emissão dos gases de efeito estufa não seria suficiente para desacelerar o rápido avanço do aquecimento nas grandes cidades. 

A tese majoritária à época era de que as mudanças climáticas ainda poderiam ser mitigadas com sucesso antes que seus efeitos se tornassem irreversíveis. No entanto, o relatório especial Global Warming of 1.5 ºC, uma pesquisa do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), indica um caminho sem volta. O planeta já está 1,1 grau Celsius mais quente e, de acordo com o Acordo de Paris, devemos limitar esse aquecimento a 1,5ºC e não permitir que ele chegue a 2ºC de forma alguma. “Estamos longe desse ideal e devemos passar dos 3ºC até o fim do século”, diz Andrea Santos, secretária executiva do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC).

O que é o IPCC

IPCC é a sigla para Intergovernmental Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em português). Trata-se de uma organização científico-política criada em 1988 pela ONU. Seu objetivo é sintetizar e divulgar conhecimento sobre as mudanças climáticas e propor ações e soluções. É a maior autoridade mundial a respeito do aquecimento global e inspiração para a fundação do PBMC, que atua da mesma maneira, mas em âmbito nacional.

Andrea explica que as mudanças no clima que vemos hoje são resultado de emissões anteriores. O crescimento histórico de emissões desde a Revolução Industrial (no início do século 18) começou a lançar gases nocivos na atmosfera, local onde eles permanecem por mais de 100 anos. “Ou seja, [as consequências] dos gases de hoje serão [sentidas] até o fim do século. E nossa curva de emissão está aumentando, mesmo com a transição para uma economia de baixo carbono”, explica “Não será suficiente no  curto prazo”.

“A mitigação foca em reduzir a causa, que são os gases de efeito estufa. Politicamente, algumas ações já estão mais presentes em leis urbanas: valorização do transporte público, investimento em combustíveis limpos, troca de mobilidade a motor por ativa (bicicletas, por exemplo)”, afirma Denise Duarte, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (Fau/USP), especialista em mudanças climáticas. “Ainda assim, é preciso investir em adaptação e tornar as cidades mais resilientes para enfrentar os problemas que já estão aí”, afirma.

“A pauta da adaptação demorou para entrar na agenda porque a comunidade científica não queria aceitar que não chegaríamos ao objetivo”, diz Andrea Santos. “Foi o mesmo que admitir o fracasso do planeta”.

Termômetro. Crédito: Jaroslaw Kwoczala

Adaptação: ações para resolver o problema agora

Hoje, as nações que compõem a União Europeia estão entre as mais comprometidas em dar respostas eficientes ao aquecimento global. Ainda assim, a maioria delas falha em oferecer soluções do ponto de vista das adaptações urbanas: 66% das cidades da UE têm um plano de mitigação, mas apenas 26% têm planos de adaptação – menos ainda, 17%, apresenta ações conjuntas.

“Já está claro que a mitigação sozinha não dá conta e que precisamos de ações de adaptação. O IPCC 5 [Quinto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] mostra que mesmo 0,5°C já faz muita diferença nas cidades”, afirma Denise. As crises mais comuns que as metrópoles já enfrentam são, além do agravamento das ondas de calor, chuvas fortes com inundações ou deslizamentos e estresse hídrico com falta de água.

A incidência de tragédias relacionadas aos fenômenos climáticos já é alta – todo verão, o Rio de Janeiro sofre com deslizamentos e São Paulo com inundações, por exemplo. E a tendência é de que esses desastres ocorram com cada vez mais frequência. Não só porque o aquecimento global vem aumentando significativamente, mas também porque os sistemas de infraestrutura urbana estão defasados.

Planejadores urbanos apontam o risco de que mesmo as adaptações sejam insuficientes – um tipo de “projeto para o passado”. O que isso significa: novas construções, como sistema de escoamento mais rápido ou de aquecimento e refrigeração mais eficiente, são projetadas a partir dos dados climáticos do passado, mas a realidade atual é outra. A instabilidade climática dos próximos anos pode tornar até as construções mais modernas em tecnologias ultrapassadas, como uma nuvem que passa pelo céu.

A infraestrutura do futuro deve ser desenhada, portanto, com as projeções do futuro – e o IPCC recomenda que sejam levadas em conta as estimativas mais pessimistas. “Antes de qualquer coisa, precisamos ter uma boa elaboração de avaliação dos impactos”, orienta Andrea. 

“Aí, sim, pensamos em outras questões importantes, como as construções sustentáveis. No Brasil, por exemplo, usamos muito concreto e aço, tecnologias carbono intensivas, e não aproveitamos nossas oportunidades climáticas, como a aplicação de biomateriais na construção civil”, sugere.

Cooling place. Crédito: PxHere

Exemplos de ações anti-mudanças climáticas

Denise destaca que ações efetivas contra os impactos das mudanças climáticas devem ter como foco a priorização do transporte público de maior capacidade e movido a energia limpa, construções mais eficientes na oferta de conforto térmico, recuperação e aumento de áreas verdes, infraestrutura azul de alta qualidade, rede de informações de saúde pública para prevenir contra efeitos do calor excessivo (sobretudo para idosos e crianças) e instalações de “cooling places” (espécie de “oásis urbano”, que podem ser refrigerado com aparelhos potentes de ar-condicionado ou com sistemas passivos de climatização e, portanto, com menos gasto energético).

“Em São Paulo, por exemplo, a cidade deveria investir em mais vegetação urbana, em sistemas de drenagem com foco em escoamento micro [referente a edifícios] e macro [referente ao sistema urbano geral], em uma mudança nos códigos de edificações, em mais rigor nos mecanismos de compensação ambiental e em propostas para melhorar o adensamento urbano – pessoas devem morar perto do trabalho e os edifícios devem ser mais eficientes termicamente”, analisa.

A maior parte das cidades em risco com as mudanças climáticas está no litoral. Só no Brasil, Florianópolis, Rio de Janeiro, Salvador, João Pessoa e Natal deverão registrar temperaturas 4,5°C mais altas até o fim do século e picos de calor mais intensos que os atuais. Elas também sofrerão com marés altas, ressacas do mar e fortes precipitações de chuvas. Recife tem quadro ainda pior: é a 16ª cidade do mundo mais vulnerável às mudanças climáticas, principalmente pela elevação do nível do mar.

Orla de Santos. Crédito: Gabriel Ramos/Unsplash

Por isso, é urgente agir agora. No Brasil, Santos é a cidade exemplo do combate às consequência do aquecimento global. E outras metrópoles globais, sobretudo de países ricos, também estão se preparando. 

Veja como algumas cidades já estão se preparando

Confira um resumo do que Santos, Nova York, Miami, Melbourne, Paris e Barcelona estão fazendo para enfrentar as mudanças climáticas

Santos (Brasil)

Santos é o melhor exemplo brasileiro de adaptação às mudanças climáticas – e também uma das cidades que mais será afetada. Até o ano 2100, estima-se uma temperatura média 4,5°C mais elevada e a ocorrência de 80% mais noites quentes por ano. E mais: pelo menos 20 praias podem desaparecer. A elevação do nível do mar nas regiões sudeste e noroeste da cidade (que, somadas, abrigam 117 mil moradores) pode chegar até 45 cm até 2100, de acordo com o documento Mudanças Climáticas e Cidades: Relatório Especial do PBMC.

O município estruturou uma linha de descontos fiscais e investimentos em fontes de energia alternativas, eletrodomésticos energeticamente eficientes e infraestruturas à prova de impactos climáticos. Assim, estão sendo estimuladas intervenções urbanas ativas (como sistemas de nebulização e toldos operáveis) e sistemas passivos (coberturas vegetais, paredes e telhados verdes, árvores nas ruas e estruturas com massa de água).

Do ponto de vista da infraestrutura, foram propostas as seguintes ações: preservação e recuperação de manguezais; aumento na faixa de areia de algumas praias; construção e implantação de comportas de controle de marés em rios, canais de drenagem, estações de bombeamento e de um muro de proteção na orla (quebra-mar).

Nova York (Estados Unidos)

Em 2018, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, anunciou que será feito um investimento de US$ 10 bilhões para colocar de pé, até 2100, o The Big U, projeto de resiliência costeira para proteger a parte baixa de Manhattan das inundações. O sistema de proteção terá cerca de 16 quilômetros e, além de proteger a costa contra o aumento do nível do mar e de fortes tempestades e tornados, irá oferecer diversos equipamentos sociais, culturais e esportivos.

Nova York. Crédito: Carl Solder/Unsplash

Miami (Estados Unidos)

A cidade do estado norte-americana da Flórida está na rota dos tornados e tempestades tropicais, que já deixam rastros de destruição na região caribenha e cuja tendência é de se tornarem mais constantes e mais intensos. Por isso, Miami desenvolveu um plano de US$ 500 milhões para atualizar sua infraestrutura. Entre as ações, estão o levantamento de estradas à beira-mar e a instalação de um novo sistema de bombeamento hídrico.

Melbourne (Australia)

O primeiro projeto de contexto climático desenvolvido pela cidade australiana data de 2009 – foi uma das pioneiras no assunto. Hoje, Melbourne, assim como todas as grandes cidades australianas, atualizou seu planejamento com base nas novas projeções climáticas. Fazem parte do projeto medidas de adaptação de desenho urbano e de edifícios, criação de cooling places (refúgios bem refrigerados durante ondas de calor), estratégias de construção civil baseadas em produtos naturais (caso do bambu) e de gerenciamento de risco para inundações, tempestades e falta de água.

Paris (França)

Depois da onda de calor de 2003, a capital francesa aciona o alerta de emergência entre os meses de junho e agosto (período de verão no hemisfério norte). Durante o período, os parques e cooling places são abertos 24 horas por dia e são equipados com instalações temporárias com muita sombra e água. Entre as medidas perenes estão a exigência de vegetação em empreendimentos comerciais e um arranjo urbano para que nenhum parisiense viva a mais de 7 minutos a pé de pelo menos uma área de vegetação.

Barcelona (Espanha)

A cidade catalã também investe esforços na construção e instalação de parques e cooling places. Além disso, o sistema de saúde local realizou um trabalho de levantamento de dados de todos os idosos e crianças, as principais vítimas durante ondas de calor, com classificações de renda e condições habitacionais e priorizando aqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade. Quando chega o verão, agentes públicos direcionam ações para minimizar o impacto do calor e evitar problemas de saúde e até mortes.

Conteúdo publicado em 15 de julho de 2019

O que a Braskem está fazendo sobre isso?

Com o objetivo de tornar obras de infraestrutura e construção civil mais eficientes e sustentáveis, a Braskem vem desenvolvendo e aprimorando uma metodologia para calcular redes de drenagem. A ferramenta já foi fornecida a empresas desta cadeia de produção e integra a metodologia BIM (Building Information Modeling) de gestão de dados com o uso de tubos corrugados de polietileno de alta densidade (conhecidos como PEAD corrugado).

O BIM foi idealizado para ampliar a produtividade e baixar os riscos e as despesas nas obras. Ele opera com cálculos a partir de informações sobre o histórico de cada elemento do projeto no qual foi aplicado. Assim, a perda de materiais de instalações, que na média é de 30% do custo da obra, pode ser praticamente zerada.

O PEAD corrugado é um dos mais competitivos materiais para obras de saneamento e outras aplicações correlatas – sobretudo em comparação com as tubulações de concreto. Entre as vantagens do PEAD corrugado estão seu tempo de vida útil (75 anos ante 30 anos de outros materiais), seu tempo de instalação (quatro vezes menor que o concreto) e seu custo (até 54% mais reduzido que similares em concreto).

A colaboração da Braskem com a aplicação desta tecnologia já tem resultados na rede de esgoto de Fortaleza, na construção da ferrovia Transnordestina e na infraestrutura residencial popular de São José do Rio Preto.

Você pode acessar a ferramenta BIM neste link:  http://www.abpebrasil.com.br/default.asp?pg=1&cod=15

Veja Também