Números provam que a água doce está em extinção, mas que existem inúmeras soluções e exemplos nos quais podemos nos inspirar para cuidar melhor da água como um todo.

Um relatório de 2016 da Organização das Nações Unidas (ONU) para a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) afirma que vivemos uma crise global de água. Dentre as causas dessa crise estão o crescimento das populações, as mudanças climáticas, a poluição dos rios e o uso excessivo do recurso natural, seja no campo, com práticas agrícolas inadequadas, ou no dia a dia das cidades, onde proporções cada vez maiores da população vivem.

O relatório divulgado preocupa: a estimativa é de que as reservas hídricas do mundo devem encolher 40% até 2030, enquanto a demanda por água deve aumentar em cerca de 55% até 2050. E, para piorar o cenário, o consumo de água já cresceu duas vezes mais do que a população no último século. A verdade é que não existe água para todo mundo. E a gravidade da questão não está apenas na falta de água potável, mas na necessidade de se utilizar água na agricultura e na pecuária para alimentar o crescimento desta população.

Ainda que 70% da superfície da Terra seja coberta por água, cerca de 97,5% desse volume está no mar, ou seja, é impróprio para o consumo humano. Quase 70% da água potável no mundo é usada na agricultura, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês). Isso vai desde um consumo “moderado”, como os 790 litros necessários para a produção de um quilo de banana, a grandes quantidades, como 2.500 litros para um quilo de arroz e cerca de 15.400 litros para produzir apenas um quilo de carne de boi.

De acordo com análises de satélite da NASA, não há aquíferos suficientes, isto é, grandes reservatórios que concentram água no subterrâneo e abastecem nascentes e rios, para dar conta desse tipo de demanda. De acordo com as observações feitas durante a última década, 21 dos 37 maiores aquíferos do mundo, especialmente aqueles em regiões mais pobres, como o noroeste da Índia e norte da África, tiveram mais água removida do que devolvida, ou seja, não houve quase nenhum reabastecimento natural para compensar o uso. Vale lembrar que apenas seis países possuem 60% de todas as reservas naturais de água doce do mundo: Brasil, Rússia, Canadá, Indonésia, China e Colômbia.

brasil bacia do rio amazonas

Globalmente, existe ainda o ônus das severas mudanças climáticas, como apontado pela ONU no relatório de 2016. Recentemente, cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) descobriram que eventos de precipitação extrema devem se tornar mais frequentes à medida que o clima da Terra aquece. Os pesquisadores desenvolveram uma nova técnica para prever a frequência de eventos locais de precipitação extrema usando dados atmosféricos em larga escala a partir da identificação de padrões.

Isto pode criar alguns paradoxos. O estado da Califórnia, entre 2011 e 2016, sofreu com a pior seca em 1,2 mil anos. Seus principais aquíferos diminuíram drasticamente e cerca de 1,9 mil poços secaram. Porém, um ano depois, nos primeiros três meses de 2017, a quantidade de chuva foi 228% superior ao nível normal, fazendo com que algumas barragens fossem sobrecarregadas e 188 mil residentes locais evacuados. Assim como a seca, a abundância de água pode se tornar um problema, caso não existam soluções para retê-la e distribuí-la adequadamente.

No próximo ano, a Cidade do Cabo, na África do Sul, pode ficar praticamente sem água, isto é, com a distribuição do recurso limitada, apenas, a serviços básicos como hospitais e escolas – o que fará dela a primeira grande cidade do mundo a ficar sem água. Desde 2015, a região enfrenta uma seca sem precedentes, o que resultou em uma grave escassez hídrica. Apesar das medidas de racionamento tomadas, o volume acumulado nos reservatórios continua diminuindo para níveis criticamente baixos.

O racionamento faz parte do esforço de toda a população de postergar o que está sendo chamado de “Dia Zero”, quando acontecerá um corte em grande parte do abastecimento de água. A medida será tomada quando os reservatórios atingirem 13,5% da sua capacidade. Em janeiro de 2018, quando o nível estava em 27,1%, o governo chegou a dizer que o “Dia Zero aconteceria em abril, depois em maio, até que o prazo finalmente foi empurrado para 2019. Com ajuda da população, a Cidade do Cabo conseguiu atrasar o “Dia Zero” com seus habitantes reaproveitando água para lavar os banheiros e tomando banhos mais curtos.

O governo local está correndo contra o tempo, assim como seus cidadãos. De acordo com dados oficiais citados pela BBC, 70% do consumo de água na Cidade do Cabo é proveniente do uso doméstico, por isso o esforço de conscientizar a população. A crise levou o governo a, por exemplo, restringir o consumo diário de água a 87 litros por pessoa. Em fevereiro deste ano, caiu para 50 litros por pessoa, com multa para quem ultrapassar o limite. Com o racionamento, ficou proibido também lavar carros e encher piscinas. Além disso,o governo local está lutando para terminar as plantas de dessalinização e aumentar a produção de águas subterrâneas antes do “Dia Zero” chegar.

Cidade do Cabo África do Sul

Tratamento, reúso e água da chuva

Para a Cidade do Cabo, iniciativas para cuidar melhor da água utilizada em casa fazem muito sentido visto que o maior uso do recurso é doméstico. Entretanto, globalmente, 70% do uso que fazemos da água doce ainda está na agricultura, em especial na irrigação. De acordo com a ONU, outros 22% ficam na indústria e apenas 8% do uso da água doce é doméstico. Logo, soluções que envolvem tecnologia e que são macro precisam ser adotadas por empresas de todos os portes e governos em todas as suas instâncias.

Tratamento e reúso da água são necessidades imediatas e Israel tem alguns do melhores exemplos de possíveis soluções. Ao reusar a água efluente de processos industriais, a instalação de tratamento de águas de Shafdan, perto de Tel Aviv, fornece aproximadamente 140 milhões de metros cúbicos de água por ano para uso agrícola — o suficiente para irrigar 50 mil hectares de terra.

Ou seja, mais de 40% da necessidade de água para a agricultura de Israel é, hoje, atendida por efluentes industriais tratados, com um complemento e do esgoto doméstico tratado, que passa por essa mesma estação. Ainda melhor: mais de 86% da água que compõe o esgoto doméstico em Israel é recuperada através de tratamento. Até a lama de lixo do país é enviada para uma planta de digestão anaeróbica, que utiliza o metano gerado pelo rejeito como combustível para produzir energia renovável.

A água de chuva é outro caminho. Em Manchester, na Inglaterra, onde chove 12 dias por mês, em média, a Universidade Metropolitana está trabalhando para que a o campus atinja a autossuficiência hídrica por meio da captação da água de chuva. Hoje, o recurso já é coletado em um tanque de 20 mil litros embaixo do prédio e usado nos chuveiros e nas descargas de vasos sanitários. Sem precisar comprar água da rede com tanta frequência, a universidade já reduziu seus gastos com o recurso em 60%.

Já a Austrália, uma região bastante árida, e que sofreu uma enorme seca na década passada, também adotou soluções simples. Na capital Canberra, a população recebeu subsídios para instalar tanques de coleta de chuva. A água pode ser usada para molhar o jardim, por exemplo. Por lá, entretanto, é necessário pôr uma placa na calçada dizendo que a água foi obtida da chuva. Do contrário, o morador pode ser denunciado e multado. Segundo o jornal local, Canberra Times, a cidade atualmente usa a mesma quantidade de água que na década de 1970, quando a população da cidade era metade do que é hoje.

Canberra Austrália dia de chuva

Em entrevista ao jornal “O Globo”, o brasileiro Marlos de Souza, secretário da FAO para assuntos de água, que morou na Austrália durante anos, contou que cada estado faz uma projeção da quantidade de chuva durante o ano. Com isso, estabelece diversos estágios de restrição para a população e para a economia. Em um nível mais brando, é permitido lavar o carro com uma mangueira. Nas situações mais graves, a água só pode ser usada em estabelecimentos públicos e para o gado.

Para evitar novos períodos de seca e estimular o uso consciente da água, governantes australianos estão lançando mão do “nudging”, prática que consiste em pequenas intervenções para promover mudanças de comportamento usando conhecimentos da economia comportamental. Além da capital, há o exemplo de Melbourne, onde governo mandou uma ampulheta para todos os moradores medirem o tempo de banho: quatro minutos. Em Sydney há outdoors nas ruas indicando o percentual de preenchimento dos reservatórios, por exemplo.

E o Brasil?

O Brasil, aliás, não escapa desta escassez global, apesar de possuir a maior reserva natural do recurso do planeta — com cerca de 12% de toda água do mundo –, e a bacia hidrográfica mais extensa do mundo, do rio Amazonas. A falta de gestão adequada dos recursos hídricos no País é um problema, com 37% da água tratada e encanada sendo perdida em vazamentos. Também não ajuda que apenas 39% do esgoto brasileiro recebe algum tratamento, enquanto o resto vai direto para a natureza.

Maior cidade metropolitana do Brasil e uma das maiores do mundo, São Paulo, sofre com o racionamento de água desde a década de 1980, sendo a mais recente em 2015. Apesar de nascer de uma confluência de vários rios, boa parte deles está deteriorado devido a poluição, além, é claro, da estiagem que tomou conta da região. É onde a falta de planejamento administrativo encontra o aumento de mudanças climáticas.

O planeta Terra é também o planeta água, mas a escassez do recurso é uma realidade e, a crise, eminente. Os bons exemplos de como cuidar da água já existem pelo mundo. Vários deles vêm de instituições como universidades, mas também de políticas públicas adotadas por governos em todas as esferas. A água é questão global, mas ações para cuidar do recurso são locais.

O que eu posso fazer?

A mudança começa com cada um se conscientizando de que é preciso economizar. O G1 criou uma calculadora bem legal para você determinar o seu consumo individual de água por dia e ajustá-lo ao recomendado pela ONU.

Conteúdo publicado em 15 de março de 2018

O que a Braskem está fazendo sobre isso?

A Braskem lidera, ao lado da SANASA e com apoio da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, o movimento Menos Perdas Mais Água. Desde 2015, a iniciativa atua em prol da redução de perdas hídricas no sistema de distribuição.

O movimento já conseguiu mostrar que as perdas de água agravam a vulnerabilidade das bacias hidrográficas, uma vez que intensificam o desequilíbrio entre oferta e demanda pelo recurso. A situação das Bacias Hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí de São Paulo (PCJ-SP) é uma das mais preocupantes. Lá, as perdas totalizam 183 milhões de m³ ao ano, o que equivale a 60% de todo consumo anual do setor industrial regional, com suas cerca de 1.500 empresas.

A Braskem não se limita a melhorar apenas a sua pegada hídrica. A empresa também atua em parceria com seus clientes, fornecedores e parceiros estratégicos para desenvolver novos produtos, aplicações e soluções que aumentam a eficiência no uso da água em toda a cadeia de valor.

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