Fórum Mundial da Água recebeu o evento de lançamento do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018

Pela primeira vez, o Brasil foi palco do lançamento mundial do Relatório das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos. O evento, que contou com a presença da Diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, do Vice-presidente do UN-Water (ONU Água, em tradução livre), Joakim Harlin, e do Diretor-executivo do ONU Meio Ambiente, Erik Solheim, trouxe a público a importância das Soluções Baseadas na Natureza (SBN) para a qualidade da água. Para o Coordenador e Diretor do Programa Mundial de Avaliação dos Recursos Hídricos (WWAP, na sigla em inglês) da UNESCO, Stefan Uhlenbrook, reservatórios, canais de irrigação e estações de tratamento de água não podem ser os únicos instrumentos de gestão hídrica. “Não podemos ficar esperando que a natureza solucione todos os problemas, mas podemos nos inspirar e usá-la a favor do planeta”.

Como o próprio nome sugere, soluções baseadas na natureza (nature-based solutions) são aquelas que utilizam, ou simulam, processos naturais para abordar os desafios contemporâneos, inclusive aqueles associados à gestão da água. Seus objetivos são, por exemplo, aumentar a disponibilidade da água (a partir da retenção da umidade no solo e a recarga das águas subterrâneas são soluções baseadas na natureza), melhorar a qualidade da água (zonas úmidas naturais e artificiais, e faixas de mata ciliar) ou, ainda, reduzir os riscos associados aos desastres relacionados à água e à mudança climática (restauração e planícies de inundação e jardins suspensos).

Ou seja: soluções baseadas na natureza são processos ecológicos conduzidos pela vegetação e pelos solos em florestas, pastagens, zonas úmidas, assim como em paisagens agrícolas e urbanas, que desempenham um papel importante na movimentação, no armazenamento e na transformação da água.

Um bom exemplo aconteceu no estado do Rajastão, na Índia, que em 1986 passou por uma das piores secas de sua história. Durante os anos seguintes, Tarun Bharat Sangh, uma ONG, trabalhou junto com as comunidades locais para estabelecer estruturas de coleta de água e regenerar solos e florestas na região. A iniciativa, uma solução baseada na natureza, levou a um aumento de 30% na cobertura florestal, os níveis das águas subterrâneas subiram em alguns metros e a produtividade das terras de cultivo aumentou.

E o ponto principal é que o relatório reconhece a água não apenas como um elemento isolado, mas como parte integrante de um processo natural complexo que envolve evaporação, precipitação e absorção da água pelo solo. A presença e a extensão da cobertura vegetal – como pastagens, zonas úmidas e florestas – influencia o ciclo da água e pode ser o foco de ações para a melhoria da quantidade e da qualidade da água disponível.

“Por muito tempo, o mundo tem se transformado em um lugar onde as melhorias para a gestão hídrica são baseadas primariamente nas infraestruturas construídas pelo ser humano, conhecidas como ‘infraestruturas cinzas’. Com isso, conhecimentos tradicionais e indígenas, que abrangem soluções mais ‘verdes’, são constantemente deixados de lado. Três anos após a adoção da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, é hora de reexaminarmos as soluções baseadas na natureza para que nos auxiliem a alcançar os objetivos relacionados à gestão hídrica”, escreveu Gilbert Houngbo, diretor do UN Water e presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, no prefácio do Relatório.

Cinco exemplos de soluções baseadas na natureza

1) O Sistema de Intensificação do Arroz, originalmente desenvolvido em Madagascar, ajuda a restaurar o funcionamento hidrológico e ecológico dos solos, ao invés de usar novas variedades de plantio ou produtos químicos. Esse sistema propicia uma economia de 25% a 50% na necessidade hídrica e de 80% a 90% em sementes, enquanto aumenta a produção de arroz de 25% a 50%, dependendo da região na qual está implementado.

2) A cidade de Nova York tem protegido suas três maiores bacias hidrográficas desde o final dos anos 1990 com soluções verdes. Enquanto “paredes verdes” e “jardins suspensos” talvez sejam os exemplos mais facilmente identificáveis, outros incluem medidas para reciclar e coletar água, reservatórios para a recarga de águas subterrâneas e proteção de bacias hidrográficas que abastecem áreas urbanas. Dispondo do maior abastecimento de água não filtrada nos Estados Unidos, a cidade agora economiza mais de US$ 300 milhões anualmente em tratamento de água e custos de manutenção.

3) A China iniciou recentemente um projeto chamado Cidade Esponja, para melhorar a disponibilidade de água em aglomerados urbanos. Até 2020, serão construídas 16 Cidades-Esponja piloto pelo país. O objetivo é reciclar 70% da água da chuva por meio de uma maior permeação do solo, por retenção e armazenamento, e pela purificação da água e restauração de zonas úmidas adjacentes.

4) Durante os últimos anos, a Ucrânia tem realizado experimentos com zonas úmidas artificiais para filtrar produtos farmacêuticos de águas residuais. Há evidências de que as zonas úmidas sozinhas podem remover de 20% a 60% dos metais na água e reter de 80% a 90% dos sedimentos de escoamento. As zonas úmidas cobrem apenas cerca de 2,6% da superfície do planeta, mas têm um papel desproporcionalmente grande na hidrologia. Elas impactam de forma direta a qualidade da água, filtrando substâncias tóxicas, de pesticidas a descargas industriais e da mineração.

5) O Chile anunciou medidas para proteger suas zonas úmidas litorâneas após o tsunami de 2010. Isso porque as zonas úmidas também agem como barreiras naturais que absorvem e capturam água da chuva, reduzindo a erosão do solo e os impactos de certos desastres naturais, como inundações.

Conteúdo publicado em 20 de março de 2018

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