No santuário marinho de Raine Island, quase todas as tartarugas-verdes nascem fêmeas e a culpa é do aquecimento global, que afeta a proporcionalidade entre sexos na espécie

Ao norte da Austrália, entre os mares de Arafura e de Coral, fica Raine Island, um dos mais importantes santuários marinhos para a reprodução de tartarugas-verdes (Chelonia mydas) do planeta. Nada menos do que 200 mil fêmeas depositam anualmente seus ovos nas areias das praias insulares da região e centenas de milhares de bebês tartarugas nascem e crescem por lá. Agora, contudo, como resultado das mudanças climáticas, 99% dos recém-nascidos são fêmeas, o que pode afetar drasticamente o futuro dessa população, que já era considerada ameaçada de extinção.

Um trabalho produzido por pesquisadores americanos e australianos, a maioria deles da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos, revelou que, nos últimos anos, a esmagadora maioria das tartarugas-verdes nascidas na região é fêmea. E que isto é resultado direto das mudanças climáticas. O artigo foi publicado no periódico científico Current Biology.

ovos de tartaruga verde

Por que só nascem tartarugas fêmeas na ilha australiana?

No caso dos mamíferos, como nós, a definição do sexo biológico de cada indivíduo acontece durante a constituição genética do embrião e se desenvolve junto com o crescimento do feto, ainda na barriga da mãe. Algumas espécies de répteis, no entanto, desenvolvem o sexo de forma diferente, como é o caso das tartarugas-verdes.

O desenvolvimento dos órgãos sexuais das tartarugas é definido por um fator exógeno ao feto: a temperatura. Os ovos são depositados pelas mães e a temperatura do solo e da água é determinante. Caso esteja abaixo de 29.3° C, nascem mais machos; acima de 29.3° C, nascem mais fêmeas.

Aquecimento global põe em risco o futuro das tartarugas-verdes

Para os cientistas responsáveis pelo estudo, não há dúvidas sobre a relação direta entre o aquecimento global e o desequilíbrio entre tartarugas-verdes fêmeas e machos. Foram analisadas as temperaturas históricas da areia, do mar e do ar de Raine Island entre 1960 e 2016. O estudo constatou que, a partir da década de 1990, houve elevação consistente nos índices de medição de calor.

A região é especialmente afetada porque está localizada em uma área cujas águas são naturalmente mais quentes. Por isso, o aquecimento do planeta eleva ainda mais as temperaturas. Em 2016, foi registrado o pico de calor por lá, que afetou fortemente a grande barreira de corais da Austrália.

“Com a temperatura média global prevista para aumentar 2,6° C até 2100, muitas populações de tartarugas marinhas estão em perigo de alta mortalidade de óvulos e produção de prole apenas feminina”, afirma o artigo científico. “Nossos dados mostram que se tem produzido majoritariamente fêmeas há mais de duas décadas e que a feminização completa dessa população é possível em um futuro próximo”.

A desproporcionalidade entre os sexos das tartarugas-verdes não é um perigo no curto prazo, afirmam os pesquisadores, porque cada exemplar vive até 70 anos e ainda há machos suficientes para reprodução. No entanto, esse pode ser um problema irreversível futuramente.

O levantamento no ecossistema do santuário marinho de Raine Island constatou que 87% das tartarugas adultas já são do sexo feminino, e que a proporção geral é de 1 macho para cada 116 fêmeas.

“Nosso estudo destaca a necessidade de estratégias de manejo imediatas para reduzir as temperaturas de incubação em viveiros-chave. Isso aumentaria a capacidade das populações locais de tartarugas se adaptarem ao ambiente em mudança e evitar o colapso da população – ou mesmo a extinção”, concluem os cientistas.

Conteúdo publicado em 23 de maio de 2018

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