Aldeia das Crianças foi projetada para atender alunos na zona rural do Tocantins. Complexo desenvolvido por arquitetos brasileiros valorizando a construção local foi considerado o melhor projeto do ano pelo Riba

Os brasileiros Gustavo Utrabo, 34, e Pedro Duschenes, 32, do escritório Aleph Zero, e o estúdio do designer Marcelo Rosenbaum, venceram o prêmio de “Excelência profissional” do Royal Institute of British Architects (RIBA) em 2018, um dos mais prestigiosos do mundo. O projeto agraciado foi o “Children’s Village”, ou Aldeia das Crianças, criado para uma escola rural no Tocantins, na região Norte do Brasil.

A Aldeia das Crianças foi desenvolvida para atender trabalhadores rurais, professores e 840 crianças, com salas escolares, dormitórios, um refeitório e um pequeno hospital. A edificação oferece acomodação para crianças em idade escolar na fazenda Canuanã, na área rural de Formoso do Araguaia, a 300 quilômetros de Palmas, em Tocantins.

A área de 23,344 metros quadrados foi construída em madeira de reflorestamento com estrutura pré-fabricada e tijolos feitos no local, para driblar a dificuldade de transporte dos materiais e reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Os ambientes são ventilados com alvenaria perfurada a mão, para manter o ambiente fresco e aconchegante no calor da região, que costuma chegar, facilmente, aos 40 graus.

O local conta, também, com escadas de madeira e passarelas com sacadas, dando vistas aos pátios e jardins paisagísticos alinhados aos dormitórios, que são separados em alas masculina e feminina. O edifício não recebeu vidros nem possui ar condicionado e é rodeado por uma espécie de tanque com peixes locais abastecido por água da chuva. Quando chove demais, a água em excesso é direcionada ao Rio Javaés, que cruza o complexo.

O ambiente no qual a escola está inserida abriga três biomas distintos: cerrado, floresta amazônica e pantanal. Financiado pela Fundação Bradesco, a Aldeia das Crianças é uma das 40 escolas dirigidas pela Fundação com o objetivo de proporcionar educação para crianças em comunidades rurais de todo o Brasil.

Esse não foi o primeiro prêmio vencido pelo projeto – em fevereiro de 2018, o concurso “Building of the Year 2018” reconheceu a Aldeia das Crianças como o “Melhor Edifício de Arquitetura Educacional”.

Concorrentes de peso

Para vencer o prêmio bianual do RIBA em 2018, o trabalho dos brasileiros enfrentou competidores importantes. A cada dois anos a organização escolhe um projeto que representa a excelência em arquitetura e que proporciona impacto social significativo na região onde ele foi desenvolvido.

Este ano, o júri recebeu 20 propostas, e, ao final, ficaram quatro. Um deles é o Toho Gakuen School of Music, uma escola de música no subúrbio de Tóquio. A estrutura de concreto tem painéis de absorção acústica que revestem os tetos. Já as paredes têm um engenhoso sistema de revestimento de madeira que retém o som dentro das salas de prática musical.

O Milan’s Il Bosco Verticale, na Itália, também estava entre os finalistas. O projeto consiste em duas torres de 112 metros de altura, com quase 17 mil arbustos e plantas. O prédio abriga uma vegetação equivalente a 20.000 metros quadrados de floresta e vegetação rasteira – sobre uma superfície urbana de 1.500 metros quadrados. As torres substituíram um antigo prédio industrial e estão sendo usadas como incubadora de arte.

O terceiro projeto que concorreu ao prêmio deste ano ao lado da proposta brasileira é o da Central European University, em Budapeste, na Hungria, assentada num edifício considerado patrimônio da humanidade, com vista para o rio Danúbio. O espaço retoma a herança de pátios de Budapeste e une vários edifícios em uma sequência interna de áreas distintas e rotas feitas com pedras e tijolos locais. O desenvolvimento incluiu materiais indígenas com qualidade artesanal e o projeto foi pensado com detalhismo, para ser construído dentro das capacidades dos empreiteiros locais.

Conteúdo publicado em 21 de dezembro de 2018

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