Para refletir a responsabilidade social e ambiental, evento acontece em fábrica desativada, segue com compensação de emissões de carbono e discute sustentabilidade em toda cadeia produtiva

por Paulo Borges*

 

Como é a nova indústria que o ser humano quer e precisa?

Com as reflexões motivadas por essa pergunta, a edição de número 46 da São Paulo Fashion Week (21-26.10.2018) chega com questionamentos e sugestões, reafirmando sua vocação no âmbito da sustentabilidade para o desenvolvimento da moda no Brasil e no mundo.

A sociedade, em sua dinâmica caótica, muda cada vez mais rápido: a maneira como as pessoas se relacionam se acelera, as expectativas e exigências sobre aspectos produtivos e criativos aumenta, as novas formas de distribuição e as preocupações com a acessibilidade se acentuam. Os nossos atos e movimentos precisam ter uma causa maior que os justifiquem – um propósito mais abrangente.

A preocupação com a sustentabilidade vem sendo incorporada à alimentação, construção e saúde como reflexo de sua presença cada vez mais forte na cultura como um todo. Novas formas de fazer escolhas de consumo e de descarte estão na ordem do dia.

No âmbito da moda, não poderia ser diferente.

Nesse sentido, a 46ª edição do SPFW acontece, pela primeira vez, no ARCA, um galpão industrial de 9 mil metros quadrados e 16 metros de pé direito, na Vila Leopoldina. O evento sai do prédio da Bienal e vai para uma fábrica desativada, generosa com relação ao espaço e que permite ressignificar uma região da cidade que vem se transformando em polo de criatividade e economia colaborativa.

O SPFW é um dos que lidera essa mudança.

O local escolhido para o evento tem como objetivo remeter o visitante às antigas fábricas e espaços de produção. A ideia, com isso, é instigar novos questionamentos, despertar a atenção dos presentes para oportunidades até então não percebidas e reforçar a importância do processo produtivo e colaborativo.

Em paralelo, continuamos com os programas, iniciados em 2016, de compensação de emissão de carbono e adaptações em nome da eficiência no consumo de energia – presentes nas últimas edições. O objetivo é minimizar os impactos ambientais gerados pela grande movimentação nos locais de desfile. Somos a primeira e única semana de moda no mundo a praticar esse gesto e, neste período, já plantamos mais de 27 mil mudas de árvores em cinco estados. Dois dos principais biomas brasileiros, a Mata Atlântica e a Amazônia, foram contemplados pela iniciativa, o que rendeu a compensação de 4,3 mil toneladas de gás carbônico.

Sustentabilidade e estilo dentro e fora da passarela

Uma iniciativa sustentável e inovadora específica desta edição é a que uniu a estilista mineira Patricia Bonaldi, da grife PatBo, e a Braskem para levar à passarela um look feito integralmente com fio de polipropileno. Além de ser 100% reciclável, reciclável, resistente e leve, o material é tingido durante o processo de fiação a seco, o que economiza grande quantidade de água e contribui com a agenda sustentável. Mais: o autor do look é um estudante de moda escolhido em concurso que envolveu as principais universidades do país, fomentando inovação e revelando talentos.

Todas as peças produzidas na competição estarão expostas no estande da Braskem onde poderão ser vistas pelos visitantes da SPFW.

Ainda nesta edição, o Projeto Estufa, que surgiu em 2016 da união de outros projetos com causas e propósitos importantes para nós, amplia sua pauta e reforça o nosso entendimento da moda não só como roupa, mas como um complexo de comportamentos, emoções e visões. Como uma incubadora, o projeto mapeia tendências e coloca em debate a participação dos diversos profissionais mobilizados para atender novas necessidades do mercado.

Hoje, esse mercado exige, sobretudo, processos mais sustentáveis que incluem tanto a cadeia produtiva quanto a de pós-consumo. Ou seja, começa no artesão e no designer, passa pelo comprador e chega à empresa que processa, recicla ou reaproveita esse produto.

No “Projeto Estufa”, a gente cuida do novo enquanto linguagem, criatividade e processo envolvendo novas tecnologias, novas formas de vender, de pensar e de produzir. O projeto tem três pilares: desfiles com novos criadores; debates, “master classes”, palestras e workshops; e cultura, com exposições de arte contemporânea curadas por Daniela Thomas. A arte se transforma a partir do contato com seu apreciador e interage com as pessoas. Buscamos promover essa discussão sobre o processo orgânico de formação do novo indivíduo no mercado da moda.

Já as coleções ASAP (As Sustainable As Possible), nesta edição, começam a se multiplicar pelas marcas a partir das contribuições do “instituto-e”, que ajuda a pensar, desenvolver e fornecer conhecimento e matéria prima alinhadas às premissas da moda sustentável.

O caminho da transformação e o papel do consumidor

Mas, como todo o processo, a transformação leva tempo. E precisa, sobretudo, da conscientização e da participação de você, o consumidor. É você, que compra moda, e o seu poder de compra que determinam a velocidade com que a cadeia se modifica para atender às novas demandas por moda mais sustentável.

A nossa mensagem não é só um posicionamento. É uma visão de futuro. Compartilhe dessa visão com a gente.

Afinal, qual futuro queremos?

 

*Paulo Borges é o idealizador e diretor criativo do São Paulo Fashion Week

Conteúdo publicado em 25 de outubro de 2018

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