Na indústria 4.0, o emprego vai exigir um novo tipo de educação profissional que mescla conhecimento técnico e humano, além de um apetite constante por aprendizado

Quem tem medo da indústria 4.0?

Em muitos círculos, a chegada da quarta revolução industrial causa calafrios. Entre os mais preocupados, um medo assusta mais do que qualquer outro: o desemprego. Não são poucos os que temem que, com a chegada da automação ostensiva movida à inteligência artificial, as máquinas tomarão boa parte dos empregos.

O medo é compreensível.

Afinal, é verdade que alguns empregos vão desaparecer. Segundo levantamento da Universidade de Brasília (UnB), até 2026, as funções hoje exercidas por 54% dos brasileiros com carteira assinada têm probabilidade alta ou muito alta de ser assumidas por robôs. Mundialmente, de acordo com pesquisa do Fórum Econômico Mundial, 75 milhões de empregos vão desaparecer por conta de tecnologias como a automação até 2022. Se o período analisado for ampliado até 2030, um estudo da consultoria McKinsey mostra que entre 400 milhões e 800 milhões de trabalhadores poderão ser substituídos por máquinas.

O que é a indústria 4.0?

A indústria 4.0 é a quarta onda da revolução industrial. Segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), “as três primeiras revoluções trouxeram a produção em massa, as linhas de montagem, a eletricidade e a tecnologia da informação.” A quarta tem como característica a expansão na adoção da inteligência artificial, da robótica, da automação e do Big Data, entre outras tecnologias, como aliadas na busca por cada vez mais eficiência no processo produtivo. Essa nova realidade exigirá um novo tipo de formação do trabalhador.

Curiosamente, o mesmo levantamento do Fórum Econômico Mundial mostra que, no período estimado, 133 milhões de novos empregos serão criados. Ou seja, no final das contas, o saldo positivo será de 58 milhões de postos de trabalho. Mais: as novas vagas serão melhores que as que serão fechadas e exigirão, do funcionário, habilidades como pensamento crítico, criatividade e inteligência emocional. O estudo da McKinsey reforça a tese: do total de pessoas que devem ser deslocadas de suas funções, até 375 milhões precisarão mudar de categoria ocupacional. Ou seja, terão de aprender e desenvolver habilidades completamente novas, mas seguirão livres do desemprego.

É aí que entra a parte mais importante dessa discussão: o emprego na indústria 4.0 passa, invariavelmente, por um novo tipo de qualificação de mão de obra. Mais do que nunca, uma formação que combina excelência técnica com habilidades como pensamento crítico e amplo, inteligência emocional e desenvolvimento de habilidades globais fará a diferença.

Navegar esse novo território não será simples, mas está longe de ser impossível.

Cena conceitual de biblioteca. Crédito: PxHere

Capacitação para a indústria 4.0

No começo de 2019, o Senai, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, que funciona no Brasil desde 1942, criou um novo curso chamado “Desvendando a Indústria 4.0”. Com conteúdo introdutório sobre o tema e 20 horas de duração que podem ser cumpridas online, gratuitamente, a cadeira recebeu mais de 70 mil inscrições em menos de quatro meses. Gente de 63 países dos cinco continentes se inscreveu para entender melhor o que é a indústria 4.0 e quais os seus principais desafios e oportunidades.

“As profissões não acabam, elas se transformam”, diz Felipe Morgado, gerente-executivo de Educação Profissional e Tecnológica do Senai. “E o profissional precisa se transformar com elas para não ficar para trás”. Para Morgado, o número de inscrições para cursos como o que desvenda a indústria 4.0 mostra que há uma saudável inquietude de parte dos trabalhadores diante do que está por vir. “Sempre vai ter muito para ser feito pelos seres humanos”, diz Morgado.

Em hotsite dedicado à indústria 4.0, o Senai coloca a requalificação de trabalhadores e gestores como o segundo dos quatro passos fundamentais rumo à indústria 4.0 (o primeiro é o enxugamento dos processos produtivos). Para a instituição, essa requalificação inclui tanto o desenvolvimento de habilidades técnicas, conhecidas como hard skills, quanto de habilidades comportamentais, ou soft skills. Entre as hard skills destacam-se as técnicas de programação e de análise de dados, além do uso de sensores e da eletrônica. Já entre as soft skills estão a capacidade de resolver problemas complexos, a liderança e a capacidade de comunicação. “O profissional precisa mudar de mentalidade e estar disposto a aprender a aprender”, afirma Morgado.

“Mas não adianta falar que todo mundo precisa aprender inteligência artificial, por exemplo – não é assim”, diz o gerente-executivo do Senai. Ele explica que diferentes áreas de diferentes empresas têm conjuntos bastante particulares de características que podem, ou não, justificar treinamentos nas habilidades mais badaladas do momento. “Se a minha área ainda não foi digitalizada, por exemplo, ela dificilmente será uma das primeiras a sofrer influências diretas da inteligência artificial”, afirma Morgado. Nesse sentido, correr para se capacitar em inteligência artificial pode não ser a melhor decisão nessa realidade.

Livro sobre tecnologia. Crédito: PxHere

Para quem ainda não tem clareza sobre o destino da própria área, Morgado sugere o desenvolvimento do que ele chama de “competências técnicas transversais”. Coisas como programação e eletrônica. “Essas sempre serão usáveis”, afirma.

Governos e a indústria 4.0

Atentos às mudanças que a indústria 4.0 pode trazer para o trabalho, a economia e a sociedade como um todo, os governos de diferentes países também têm se movimentado no sentido de se preparar para o que está por vir. O site 4th Post, especializado no assunto, lista pelo menos oito nações (EUA, Cingapura, Reino Unido, França, Alemanha, Coreia do Sul, Japão e China), além da União Europeia, que já têm iniciativas consolidadas nesse sentido – algumas datam de 2011.

No Brasil, por exemplo, o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) criou o Grupo de Trabalho da Indústria 4.0 (GIT 4.0). Desde 2017, o grupo se debruça sobre o que chama de “agenda nacional” sobre o tema. Mais de 50 instituições, entre governos estaduais e municipais, empresas e representantes da sociedade civil organizada vêm se articulando para aumentar a competitividade das empresas brasileiras, compreender melhor as mudanças que estão por vir nas cadeias produtivas e no mercado de trabalho, antecipar o que serão as fábricas do futuro e destrinchar a massificação das tecnologias digitais que formam a base do que se entende por indústria 4.0.

Mapa global com conexões. Crédito: PxHere

Otimismo e trabalho

Há razão para o otimismo. São boas as perspectivas para o trabalhador que transformar em hábito a busca incessante por capacitação tanto técnica quanto humana. E se a história serve de exemplo, vale relembrar a época da chegada do computador pessoal ao mercado de trabalho, no começo dos anos 1980. Um estudo da McKinsey, uma consultoria, mostrou que, só nos Estados Unidos, entre 1980 e 2015, 3,5 milhões de empregos desapareceram por causa da novidade tecnológica. No mesmo período, porém, 19,2 milhões de novas vagas foram criadas por causa do computador pessoal. No fim, o balanço foi positivo para 15,7 milhões de trabalhadores norte-americanos, graças à nova tecnologia.

O que você pretende fazer para se preparar para a indústria 4.0?

Conteúdo publicado em 17 de junho de 2019

O que a Braskem está fazendo sobre isso?

Bom ambiente de trabalho, remunerações justas, condições para atuar com segurança e ética, respeito à diversidade e à individualidade e reconhecimento ao valor do sujeito são fundamentais para o bem-estar do cidadão e, consequentemente, para sua felicidade. Estes são alguns dos pilares da EVP (proposta de valor ao empregado) apresentada pela Braskem para estabelecer uma cultura positiva entre seus funcionários e suas relações com o público externo.

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