Os “biotijolos” são produzidos graças a um processo chamado de precipitação de carbonato microbiano, que emite muito menos dióxido de carbono do que a fabricação convencional de tijolos

Um grupo de pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, criou um tipo de tijolo cuja produção é 100% responsável do ponto de vista ambiental. A matéria-prima da invenção é a urina humana.

O professor Dyllon Randall e os estudantes de Engenharia Suzanne Lambert e Vukheta Mukhari primeiro utilizaram o insumo orgânico para desenvolver uma fórmula de fertilizante sólido. Mas houve sobra de líquido, que não deveria ser desperdiçado. A equipe então desenvolveu um novo processo biológico que envolve a urina mais areia e bactérias que resulta nos chamados “biotijolos”.

“É essencialmente a mesma forma como corais se formam no oceano”, explicou o professor Dyllon Randall, em entrevista à BBC World News. “Quimicamente falando, a urina é ouro líquido”, justifica. Isso porque o líquido é responsável por menos de 1% das águas residuais domésticas (em volume), mas contém 80% do nitrogênio, 56% do fósforo e 63% do potássio desta mesma água residual.

Além disso, cerca de 97% do fósforo presente na urina pode ser convertido em fosfato de cálcio, o principal ingrediente dos fertilizantes que sustentam a agricultura comercial em todo o mundo.

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Como são produzidos os tijolos de urina?

O processo biológico pelo qual urina, areia e bactérias são submetidas se chama precipitação de carbonato microbiano. Funciona da seguinte maneira. O conjunto de areia é colonizada por bactérias que produzem a enzima urease; esta enzima decompõe a uréia presente na urina formando a substância carbonato de cálcio. Esta complexa reação química solidifica a areia tornando o composto tão duro quanto as rochas.

“Quanto mais tempo você permitir que as pequenas bactérias produzam o cimento, mais forte será o produto. Podemos otimizar esse processo permitindo que as bactérias tornem o composto sólido mais forte crescendo por mais tempo”, explicou Randall. Em média, cada “fornada” exige de quatro a seis dias para ficar pronta.

Toda urina usada no experimento foi coletada em banheiros coletivos masculinos. E foi preciso um enorme volume do líquido para isso. Cada biotijolo exige de 25 litros a 30 litros para ser produzido – e, em média, a cada vez que alguém vai ao banheiro, produz entre 200 ml e 300 ml; ou seja, para cada tijolo é preciso, aproximadamente, 100 pessoas.

Ambientalmente correto e sem riscos à saúde

O que faz dos biotijolos tão sustentáveis do ponto de vista ambiental é mais do que seus insumos, é seu modo de fazer. A fabricação de tijolos convencionais exige a queima de materiais em fornos a temperaturas de aproximadamente 1.400°C, o que produz grande quantidade de dióxido de carbono, substância que colabora com o processo de aquecimento global. Produzidos a partir da precipitação de carbonato microbiano, os biotijolos precisam apenas de temperatura ambiente para “curar”.

O problema, indicam os pesquisadores, é o odor desagradável que o processo libera. “O cheiro forte da urina de seu animal de estimação é a amônia sendo liberada. O processo libera exatamente o mesmo tipo de substância”, explica o professor da Universidade da Cidade do Cabo.

No entanto, como o processo produz um pH muito alto que mata todos os tipos de patógenos e bactérias, após 48 horas o odor amoníaco é dissipado. Assim, os biotijolos não oferecem qualquer risco à saúde – nem às narinas.

 

 

Conteúdo publicado em 18 de dezembro de 2018

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