Uma das mais eficientes soluções energéticas para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, a energia solar pode ter efeitos colaterais: ainda não se sabe o que fazer com o descarte de seus painéis usados

A adoção de energia solar fotovoltaica como uma matriz energética de grande alcance é recomendada por quase todos ambientalistas e cientistas que tratam dos riscos das mudanças climáticas para o planeta. No entanto, há também efeitos colaterais em sua cadeia de produção: com o passar dos anos e a popularização da tecnologia, o descarte dos painéis geradores pode se tornar um problema ambiental de larga escala.

Os benefícios da energia solar são conhecidos. Trata-se de uma processo de geração de energia renovável e limpo, que emite baixíssima quantidade de gases de efeito estufa. Na Califórnia, nos Estados Unidos, que adotou uma política de exigir que as casas sejam abastecidas de energia solar a partir de 2020, a expectativa é de reduzir a geração de gases de efeito estufa em 53% – o equivalente a 700 mil toneladas ou 115 mil menos carros movidos a combustível fóssil nas ruas.

No Japão, onde a implementação ampla dos campos de módulos fotovoltaicos já começou, os primeiros problemas já começaram a aparecer. Ainda no fim de 2016, o Ministério do Meio Ambiente japonês alertou que o país irá produzir 800 mil toneladas de resíduos solares até 2040. E não se trata de um problema localizado: de acordo com a Agência Internacional de Energia Renovável, até 2050, a quantidade de resíduos de painéis solares em todo o mundo subirá das atuais 250 mil toneladas para 78 milhões de toneladas.

Ainda de acordo com a agência, até 2050 a capacidade produtiva dos módulos desperdiçados chegará a 4.500 GW, o equivalente a cerca de 2 bilhões de novos painéis. E se todo esse material não for recuperado ou reciclado, o prejuízo econômico será de US$ 15 bilhões. “Essa é uma incrível quantidade de crescimento. Vai ser um grande problema”, afirmou Mary Hutzler, pesquisadora do Institute for Energy Research, para o site The Verge.

Lixo eletrônico, toxicidade e reciclagem cara: origens do problema

Os painéis de energia solar fotovoltaica são classificados na mesma categoria que o lixo eletrônico – como celulares, televisores, computadores e afins. Durante quase uma década, a China recebeu cerca de 70% de todo o lixo eletrônico do mundo, mas em 2018 uma lei promete endurecer as regras para receber este tipo de resíduo.

Agora, a maior parte da produção desses materiais está sendo despejada em países pobres do sudeste asiático, mas esta não é uma solução sustentável para o planeta. Além do descarte massivo de materiais escassos no planeta, os módulos de energia solar fotovoltaica danificados despejam materiais tóxicos que podem contaminar a região, sobretudo o solo e a água, comprometendo todo o ecossistema.

Uma tática que funcionou no primeiro momento foi o repasse de painéis menos eficientes para países com menor poder econômico – uma forma de reutilizar o equipamento ainda em condições de uso. No entanto, informa o The Verge, com a crescente produção de painéis chineses, mais baratos e de menor qualidade, a expectativa de vida do produto, na média, cai muito. Os módulos tradicionais duram pelo menos 25 anos, enquanto o modelo “genérico” não passa dos 5 anos.

A reciclagem em larga escala destes painéis também não se apresenta como a solução simples. O motivo é econômico: ainda não é vantajoso do ponto de vista financeiro fazer a reciclagem. Embora estes resíduos contenham materiais valiosos, como prata, ouro e cobre, seu volume não é suficiente para compensar os altos custos do processo mecânico de decomposição de suas partes. O Instituto de Pesquisa de Energia Elétrica, inclusive, recomenda que estes painéis velhos sejam armazenados com segurança e aguardem o avanço da tecnologia para otimizar seu processo de reciclagem.

“Se o volume subir, talvez valha a pena para as empresas de reciclagem”, disse Justin Baca, vice-presidente de mercados e pesquisa da empresa que promove um programa nacional de reciclagem nos Estados Unidos, ao The Verge. A solução, avalia junto de outros especialistas, é a implementação de ações públicas, como as medidas tomadas pelo estado norte-americano de Washington, que agora obriga os fabricantes de painéis solares a oferecerem um plano de reciclagem para seus produtos, e pela União Europeia, que inaugurou sua primeira usina de reciclagem de painéis solares.

 

Conteúdo publicado em 27 de novembro de 2018

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