A tecnologia envolve nanopartículas de argila e pode transformar o solo em até sete horas, reduzindo em mais da metade a demanda local por água

Argila, água – e mais nada. A fórmula simples foi desenvolvida pelo cientista norueguês Kristian Morten Olesen e vem revolucionando a agricultura em regiões secas, com potencial para uso em escala global. A técnica, batizada de LNC, ou Liquid NanoClay (“nanoargila líquida”, em tradução livre), é capaz de transformar solos arenosos de baixa qualidade em terras agrícolas de alto rendimento.

Olesen vem aprimorando a tecnologia desde 2005 e mostra os resultados de seus esforços. A Desert Control, empresa que desenvolve e aplica a LNC comercialmente, afirma que, com a adoção da nanoargila, a demanda por água é reduzida em 65% quando comparada à demanda de métodos regulares de irrigação.

“O tratamento recobre as partículas de areia com argila e muda completamente suas propriedades físicas, permitindo que a areia retenha a água”, disse Olesen à rede britânica BBC. Ou seja, forma-se uma mistura de nanopartículas de argila com água que é despejada e distribuída sobre o solo, envolvendo todos os grãos arenosos da superfície.

15 anos em sete horas

A mistura entremeia o solo até uma profundidade de 60 centímetros e, com isso, forma uma espécie de esponja natural que retém a água e os nutrientes, tornando o solo mais propício para plantações. E o que mais impressiona é que tudo isso acontece em poucas horas.

“Podemos transformar os solos arenosos de baixa qualidade em terras agrícolas de alto rendimento em sete horas”, disse o cientista. Uma operação convencional leva até 15 anos para obter resultados parecidos.

Oriente Médio como cliente

A região desértica do interior dos Emirados Árabes Unidos é uma das áreas mais secas do planeta e as temperaturas por lá podem chegar a mais de 50°C. Não à toa, os custos de produção agrícola nessas e em outras regiões secas, como boa parte do Oriente Médio, são altos.

Com a escassez hídrica, os produtores chegam a contratar navios tanques para levar água às suas fazendas, que, por sua vez, chegam a exigir três vezes mais líquido do que seria necessário em uma área de cultivo de clima temperado. Devido a esses e outros fatores, os Emirados Árabes Unidos importam cerca de 80% de toda comida consumida no país.

Mas há um oásis no meio desse deserto: a fazenda Al Ail, do agricultor Faisal Mohammed Al Shimmari, a primeira a implementar a tecnologia LNC na região. “Estou surpreso com o sucesso da empreitada”, disse Shimmari à BBC. “A técnica reduziu o consumo de água em mais de 50%, o que significa que posso duplicar a área verde com a mesma quantidade de água”. Hoje, ele cultiva tomate, berinjela e quiabo.

Aumento da desertificação no mundo

Com as mudanças climáticas, o risco de desertificação está presente em 40% da superfície terrestre e seus resultados já são evidentes: todos os anos, uma área equivalente ao estado do Ceará se desertifica no mundo. No Brasil, 13% do território nacional corre este risco, sendo que, só na região Nordeste, 230 mil km² já foram desertificados.

A Desert Control crê que sua tecnologia pode ser útil em escala global. Hoje, o objetivo da empresa é vender seu método para governos já que os custos ainda dificultam sua adoção pelo pequeno produtor: cada novo hectare custa entre US$ 1,8 mil (R$ 6,7 mil) e US$ 9,5 mil (R$ 35,7). É possível, porém, que os custos caiam. Ou ainda que a necessidade por comida simplesmente se imponha. Em ambos os casos, a tecnologia e a inovação, felizmente, oferecem uma alternativa.

Conteúdo publicado em 10 de julho de 2018

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