Estratégias de desenvolvimento de produto e peças melhoram a produção no setor enquanto certificações ambientais e controles de qualidade protegem a natureza

O carro talvez ainda seja o símbolo de status que melhor representa a modernidade. As ruas das cidades, as pontes e os túneis foram moldados para atender à circulação desse tipo de veículo, que se tornou mais acessível com o passar do tempo e os avanços da tecnologia, e que se consolidou como representação de liberdade e autonomia.

Os Estados Unidos despontaram como um importante mercado automotivo no início de 1900, quando a Ford introduziu a produção de carros de linha de montagem para fabricar em massa seu Modelo T. Ainda hoje, a Ford Motor Company está entre as principais fabricantes de automóveis de passageiros do mundo.

Em termos de vendas de veículos leves nos Estados Unidos, a General Motors foi a fabricante mais importante em 2017, seguida pela Toyota, Ford, Nissan, Honda e Chrysler, de propriedade da Fiat.

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Sustentabilidade no mundo automotivo

A Fiat foi uma das primeiras montadoras a adotar práticas de sustentabilidade de maneira estruturada. Hoje, todas as fábricas da empresa no mundo destinam 100% dos resíduos gerados para a reciclagem e a reutilização, eliminando o envio para aterros. A meta foi alcançada em 2011 como resultado do projeto Aterro Zero, que faz parte da política ambiental da empresa, focada na prevenção dos impactos e no uso racional dos recursos naturais.

Na Fiat, os estudos de design e outras especialidades procuram ampliar os índices de reaproveitamento por meio de soluções inovadoras. Uma delas é a implantação de um sistema para a reciclagem de isopor, que reduz em 50 vezes o volume do material. Na Ilha Ecológica, um espaço separado no pátio da empresa, o isopor é processado e transformado em matéria-prima para produção de materiais plásticos, como canetas e capas de CDs.

No Brasil, especificamente, alguns materiais, como fivelas, calotas e aparas de cinto de segurança são enviados para a Cooperárvore, cooperativa social que faz parte do programa Árvore da Vida – Jardim Teresópolis, que recondiciona o material para novos usos, desenvolvendo produtos a partir do material recebido da indústria automobilística, entre outras fontes.

Indústria automotiva. Crédito: PxHere

Uma das principais estratégias da Fiat é chamada de World Class Manufacturing (WCM), metodologia que visa a melhorar a eficiência da produção e eliminar perdas e desperdícios.

Na unidade de prensas, por exemplo, as sobras do corte das chapas de aço são reaproveitadas para produzir peças menores da carroceria, como a tampa externa do tanque de combustível. Desde 1998, mais de 38 mil toneladas de aço retornaram ao processo produtivo, quantidade equivalente a 151 mil carrocerias do Fiat Mobi, um modelo subcompacto da empresa.

Já na funilaria, a substituição de lâmpadas fluorescentes pelo sistema LED dimerizável, conjugado com sensores de presença e de luminosidade, reduziu em 47% o consumo de energia elétrica para iluminar os galpões das fábricas.

Raio X do setor

Para o ano de 2018, a indústria mundial de automóveis espera vender 81.5 milhões de unidades – 3% a mais do que em 2017 e mais que o dobro da soma de todos os carros vendidos entre 1990 e 1999, segundo dados da Statista, um portal de estatísticas. São poucos os anos em que as vendas de automóveis não crescem de maneira expressiva.

Mas, com esse crescimento, invariavelmente aumenta a poluição sonora e do ar. A queima de combustíveis fósseis, como gasolina e diesel, causou um aumento de 0,6 graus Celsius, ou 1 grau Fahrenheit, nas temperaturas globais desde a era pré-industrial e o aquecimento deve continuar nas próximas décadas.

Os escapamentos de carros emitem uma ampla gama de gases e matéria sólida, causando alterações climáticas, chuva ácida e prejudicando o meio ambiente e a saúde humana. O ruído do motor e os derramamentos de combustível também causam poluição.

Mas como é possível continuar gozando dos incríveis benefícios do carro particular e driblar os malefícios à saúde de seres humanos e à natureza que os motores desses mesmos carros podem causar?

“Nós queremos zero CO2 até 2050. Esse é o nosso grande desafio”, explica Saori Nishikawa, gerente de meio ambiente da Toyota do Brasil. “Trabalhamos com três pilares. O primeiro é o produto em si. O segundo é a emissão de CO2 no ciclo de vida do produto. E o terceiro no processo produtivo, nas fábricas.” A Toyota desenvolve, ainda, projetos para a otimização do uso da água em toda a cadeia, seja por meio da diminuição do consumo, do reuso ou da reciclagem.

Fusca em meio à natureza. Crédito: Tom Arrowsmith/Unsplash

O que mais a indústria pode fazer pela sustentabilidade?

Grandes empresas também desenvolvem projetos de educação socioambiental, como é o caso do Instituto Nissan, que aposta na educação infantil e profissionalizante. “Atuamos de forma focada nos pilares da sustentabilidade, meio ambiente e governança, entendendo que, para a Nissan, ao aprimorar a sua governança, contribuímos para o desenvolvimento econômico da sociedade onde atuamos”, afirma Rosane Santos, gerente de responsabilidade social.

Rosane esclarece que o Instituto Nissan também revisou seus pilares e estará, a partir de 2019, com uma atuação mais direta em mobilidade, meio ambiente e cursos profissionalizantes, tendo tecnologia, inovação e educação como pilares transversais. “Estamos comprometidos em contribuir com a sociedade, seja por meio de projetos patrocinados, seja por meio de projetos próprios, na transferência de conhecimento e no aprimoramento de iniciativas que promovam transformação e impacto social nessas frentes.”

A Fundação Toyota também investe na Área de Preservação Ambiental Costa dos Corais, em Pernambuco. Já no projeto Águas da Mantiqueira a empresa faz um diagnóstico dos remanescentes de Mata Atlântica, distribuídos em 10 bacias hidrográficas de Santo Antônio do Pinhal (SP), essenciais à manutenção de serviços ambientais – especialmente dos recursos hídricos – e sua influência na sustentabilidade das áreas rurais e urbanas por meio de estudos em biodiversidade, agricultura, educação, resíduos sólidos, turismo, entre outros.

Saori conta que o Desafio Ambiental Toyota – 2050, anunciado pela empresa em 2015, compreende seis desafios que abrangem as prioridades da empresa, como o desenvolvimento de novos produtos e tecnologias e o papel da montadora como facilitadora para pessoas e comunidades melhorarem o contexto econômico e o ambiente natural à sua volta. “A gente não quer o radicalismo. Sabemos que o desenvolvimento é importante e queremos que ele traga benefícios para o país e para o planeta – e que isso aconteça de forma sustentável, respeitando o meio ambiente.”

Jeep em meio à natureza. Crédito: Philippe Toupet/Unsplash

Certificações que protegem toda a cadeia

A Fiat foi uma das primeiras fábricas de automóveis do Brasil a obter a ISO 50001, de gestão de energia, em 2013. A energia que deixou de ser consumida na fábrica de Betim, em Minas Gerais, seria suficiente para abastecer 610 mil residências/mês. Com essa redução, nove mil toneladas de CO2 deixaram de ser emitidas. A geração de energia renovável com a instalação de placas solares nos galpões e de postes de iluminação com placas fotovoltaicas também fez a diferença. A energia gerada com essas tecnologias equivale ao consumo de 600 residências/mês.

Tanto a Fiat quanto a Nissan e a Toyota também atendem à certificação ISO 14001, que especifica os requisitos de um Sistema de Gestão Ambiental e ajuda a fortalecer qualidades para que a empresa desenvolva uma estrutura de proteção da natureza e rápida resposta em caso de mudanças nas condições ambientais.

“Hoje, todas as fábricas da Toyota são certificadas, não só as nossas. Nosso guia ambiental de compras exige dos fornecedores que também tenham certificação dentro dos critérios”, afirma Saori. “Temos a preocupação com a ISO 14001 não só pela operação direta, mas em toda a cadeia.”

Para Rosane, da Nissan, é possível garantir a prática rigorosa dos processos internos controlados pela empresa, tanto na produção quanto no administrativo, aplicando melhores práticas de descarte de resíduos. “Quando olhamos para a matéria-prima, embora façamos uma validação de compliance para o cumprimento de regras básicas de proteção ao meio-ambiente e de cumprimentos de regras e legislação como um todo, entendemos que ainda temos espaço para desenvolvimento.”

Tecnologia e inovação para autonomia

Em agosto de 2018 a Toyota anunciou que deve investir US$ 500 milhões em uma parceria com a Uber para desenvolvimento e produção de carros autônomos. As empresas querem lançar o produto juntas e esperam explorar o mercado potencial de veículos leves autônomos para uso compartilhado.

O modelo aplicado para a frota especial terá como base o modelo Sienna Minivan da montadora japonesa, com os testes previstos para 2021. Além do olhar para a sustentabilidade, a proposta é que os novos carros da Toyota possam atender com qualidade a população idosa e deficiente.

A Toyota também anunciou planos para a construção de um gigantesco complexo industrial de 60 acres no estado de Michigan (EUA), que servirá para testes de condução com cenários arriscados demais para serem conduzidos em vias públicas. A empresa japonesa também investirá US$ 2,8 bilhões em uma nova companhia de software, cuja incumbência é de prover sistemas de inteligência artificial para veículos autodirigíveis.

Conteúdo publicado em 21 de fevereiro de 2019

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