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Tecnologia acoplada ao poste de luz transforma os dejetos caninos em eletricidade - dez sacos de fezes geram energia suficiente para duas horas de iluminação. Canadá e Índia têm projetos semelhantes

Na pacata cidade de Malvern Hills, próximo à divisa da Inglaterra com o País de Gales, Brian Harper observou que, todos os dias, várias vezes por dia, seus vizinhos caminhavam com seus cães até a praça central, onde os animais faziam suas necessidades. Harper pensou, então, que aquele material orgânico despejado na grama poderia ter valor – e ele tinha razão.

Em 2015, Harper começou a trabalhar a ideia de transformar cocô de cachorro em energia. Usar estrume como combustível não é uma novidade. Há indícios de que nossos antepassados usavam o material orgânico para gerar energia desde o período neolítico, e, desde o século 17, está sistematizado o método que transforma esse material em gás inflamável.

A invenção do britânico de 66 anos segue os mesmos preceitos, mas com alto grau de eficiência e sem gerar gases nocivos ao meio-ambiente. Por enquanto, apenas uma lâmpada do parque em Malvern Hills é alimentada com energia gerada pelos resíduos animais, mas a expectativa é de que, em breve, a tecnologia seja adotada por mais áreas verdes urbanas em todo o Reino Unido.

“A luz produzida pelo gás instiga a imaginação das pessoas e mostra que o cocô de cachorro tem o seu valor”, disse Harper em entrevista ao jornal britânico The Guardian.  “Nós pegamos o material do chão, colocamos em um receptáculo e produzimos algo útil”, completou.

Como funciona o sistema de energia a estrume?

A ideia é simples: quando os cidadãos de Malvern Hills estiverem com seus cães na praça, devem coletar o cocô dos bichinhos e depositá-lo em um reservatório verde ao lado do poste que sustenta uma pequena usina de energia, além da própria lâmpada. O material é, então, decomposto por microrganismos de função anaeróbica e o processo produz metano, um gás inflamável, e fertilizante.

Como cocô de cachorro vira luz

  • O dono do cão deposita o cocô envolvido em uma sacola comum de plástico ou papel;
  • Ele gira uma manivela cinco vezes, então a máquina remove a sacola e envia o material para o biodigestor, onde ele é decomposto pelos micróbios;
  • Em um processo que dura alguns dias, forma-se o biogás, composto por 60% de metano e 40% de dióxido de carbono, que fica armazenado no local;
  • Um sensor próprio da lâmpada percebe o anoitecer e liga o suprimento de gás, que libera a quantidade precisa da substância para gerar energia e acender a luz.

 

A instalação do artefato na lâmpada foi feita pela prefeitura da cidade em novembro de 2017. De acordo com os cálculos de seu criador, o sistema precisa ser alimentado com dez sacos de fezes para manter a luz acesa por duas horas.

Cachorro. Crédito: Marcus Cramer/Unsplash

Canadá e Índia testam sistemas que usam matéria orgânica animal

A cidade de Waterloo, no Canadá, planeja uma estratégia semelhante para dar novo destino – e uso – ao cocô de cachorro. Em um de seus parques, a prefeitura instalou uma estrutura de concreto que armazena as fezes. Este depósito é, periodicamente, esvaziado por caminhões que levam o material para uma grande usina central. Lá, esse material é misturado com outros resíduos orgânicos e decomposto: o resultado é a produção de metano e, portanto, de energia. Deste processo, resulta, como subproduto, um material fertilizante, que é vendido a agricultores.

De acordo com os agentes públicos responsáveis pela instalação do sistema, o objetivo não é só produzir energia em larga escala, mas também melhorar o sistema de coleta de resíduos. “Recolher o lixo canino separadamente impede que ele contamine nossos fluxos de reciclagem”, disse Jeff Silcox-Childs, diretor de meio ambiente e parques de Waterloo, ao The Guardian. Nos primeiros cinco meses de um teste total de 18 meses, o sistema seria capaz de fornecer eletricidade para 13 casas e remover 630 quilos de CO2 na atmosfera.

Na Índia, o uso de biodigestores de uso doméstico acontece há algum tempo e, geralmente, funciona com esterco bovino. No país asiático, a tecnologia também é vista como uma possível solução em larga escala para contribuir com a redução da defecação a céu aberto.

 

Conteúdo publicado em 10 de agosto de 2018

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