Secretário-executivo da Rede Brasil do Pacto Global defende que as empresas têm responsabilidades para com a sociedade, mas também oportunidades para fazer o bem

Kofi Annan, quando anunciou o Pacto Global, disse queria dar uma cara mais humana às empresas. E ele tinha razão, pois hoje, se você olhar para os 200 maiores PIBs, 153 deles são empresas. Então o que nós enxergamos é o potencial que essas empresas têm para fazer o mal e o potencial para fazer o bem. Mas eu tenho, por convicção, que as empresas não estão planejando fazer o mal, pelo contrário, elas querem fazer o bem. Até porque, cada vez mais – e isso é o que a sustentabilidade nos ensina – elas percebem que, se não tiverem uma agenda positiva e um modelo de negócio voltado a fazer o bem de fato, elas vão sucumbir. Eu acho que essa minha transição do movimento estudantil e dos movimentos sociais para as empresas se deu muito pela questão ambiental. Não tenho dúvidas disso. Se tem um lugar que a gente consegue causar um grande impacto positivo é junto às empresas.

A luta por um mundo melhor de Carlo Linkevieius Pereira, 39 anos, começou aos 14 anos no movimento estudantil. “Eu sempre fui muito atuante, fui tudo que você possa imaginar dentro do movimento estudantil. E foi ele quem me abriu os olhos para a sustentabilidade”, conta. Por isso mesmo, muitos se espantaram quando, ao invés de partir para algo ligado às ciências humanas, Carlo decidiu estudar química em Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (USP). Foi no estudo de biodiesel que Carlo se reencontrou com a questão da sustentabilidade e uniu à química às questões sociais e ambientais que sempre o preocuparam. “Tinha a questão da água, das mudanças climáticas e da sociedade. Tudo aquilo me satisfez na época”, afirma.

À frente da Rede Brasil do Pacto Global, o mesmo proposto por Kofi Annan e lançado oficialmente em 2000, Carlo Pereira sabe que a água é uma questão fundamental e precisa ser discutida em um Fórum Mundial, mas lembra que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, os ODS, são indivisíveis, e que é preciso olhar para o todo, pois tudo está integrado. “Tem uma questão que eu acho horrível, mas que exemplifica essa questão dos ODS. Quando paramos para pensar na água, temos que lembrar que há também a questão da energia e a questão de gênero”, explica. Segundo Carlo, milhões de pessoas ainda precisam caminhar para buscar água, e cerca de 90% dessas pessoas são mulheres, sendo que um quarto (25%) são meninas. Um dos principais problemas em algumas regiões é que muitos casos de estupro acontecem justamente quando elas estão indo buscar água ou lenha. “Está tudo intimamente interligado, então temos que trabalhar em todos os ODS”.

Para Carlo, as empresas precisam agir pelo papel social que as compete, cuidando da comunidade em que estão instaladas e dos seu colaboradores, mas também pensando no negócio. “Na dita crise hídrica de 2015 no Sudeste brasileiro, muitas empresas tiveram a operação paralisada. Quantas hidrelétricas tiveram que parar de gerar energia, elevando o custo da energia? De novo, vemos a interconexão. O governo teve que deixar de produzir energia hidrelétrica para produzir eletricidade via energia fóssil. Está tudo interligado e por isso que as empresas têm que se engajar. É algo em que acredito fortemente: as empresas brasileiras deveriam se engajar cada vez mais porque a questão da sustentabilidade pode ser transformada em uma vantagem competitiva para elas”, acredita Carlo. Ele lembra ainda que, desde 2012, quando o assunto água ganhou destaque no Fórum Econômico Mundial, sabe-se que a escassez do recurso é um dos cinco maiores riscos para a economia mundial, logo, uma mudança de atitude é urgente.

Nascido em Americana, interior de São Paulo, Carlo não esquece das crises hídricas históricas do Brasil e acha um erro as pessoas falarem que existiu uma crise, no passado. Para ele, a crise hídrica está instalada. “Se lembrarmos que o ODS 6 não fala só de água, mas de saneamento, nos deparamos com outro dado terrível de que 50% da população no Brasil não tem acesso a esgoto. E nós sabemos da correlação direta disso com a saúde. Hoje, muita criança morre porque não temos esgoto. O Brasil ainda está no século 19 quando o assunto é saneamento, e precisamos agir”.

Quando se fala do tema empresas dentro do Pacto Global, fala-se em responsabilidade e oportunidade, mas Carlo acredita que isso vale também para a população. “As pessoas não podem deixar as ações apenas para os governos e as empresas. É muito fácil cobrar as empresas e os governos, e é claro que temos que fazer isso, mas essa cobrança tem que ser mais sistemática e feita de uma forma mais estruturada. Muitas vezes, as pessoas nem cobram, só reclamam, e reclamar é até ruim. Você traz essa energia negativa para você. Tem que transformar esse incômodo em prática, ir para cima, se mobilizar, participar de alguma organização, e ser consciente do seu papel. É claro que tem os grandes consumidores de água, mas cada pessoa consome água também. Todo mundo tem que estar vigilante com os outros e com si próprio”, afirma.

Pensando naquele jovem que começou a luta ainda na adolescência, dentro do movimento estudantil, Carlo diz que a grande diferença é que ele decidiu dedicar a vida isso, não parou na adolescência e se engajou cada vez mais. “É algo que vemos muito nos movimentos sociais: no geral, as pessoas têm aquilo como uma questão paralela, que é fundamental, sem dúvida nenhuma, importante e necessária, mas eu quis dedicar a minha vida a isso, é o meu dia a dia”, conta.

Conteúdo publicado em 26 de março de 2018

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