Dois textos, um editorial e uma carta aberta, publicados na revista Science analisam as consequências do incêndio do Museu Nacional e denunciam a necessidade de investimento na ciência brasileira

A mais importante publicação científica do mundo abriu suas páginas para a veiculação de um editorial assinado pela cientista e professora brasileira Beatriz Barbuy, do Departamento de Astronomia da Universidade de São Paulo (IAG-USP). O texto foi inspirado pelo trágico incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e apresenta um olhar crítico à política brasileira em relação aos investimentos em ciência e tecnologia.

“Foi um lembrete trágico [o incêndio do Museu Nacional] para o Brasil e para o resto do mundo de como é importante para as sociedades apoiarem as instituições e empreendimentos que preservam e promovem a ciência e a cultura. Este evento devastador deve servir como um alerta para que o Brasil fortaleça, em vez de negligenciar, seu empreendimento científico”, afirmou Barbuy no editorial.

Barbuy é astrofísica com livre-docência pela USP e tem doutorado e pós-doutorado por instituições francesas e norte-americanas. Ela, que em 2009 foi premiada pela Unesco, a Organização das Nações Unidas para Educação, e eleita pela revista Época uma das 100 personalidades brasileiras mais influentes, afirmou que as eleições de 2018 são uma grande oportunidade para o Brasil priorizar a ciência.

Em seu artigo, a cientista afirma que a crise financeira no país tem sido a razão de uma queda constante no apoio à ciência. Ela cita como maior exemplo o fato de o Brasil ter seu ingresso no European Southern Observatory (ESO) suspenso. Trata-se do maior e mais completo observatório do mundo, que se localiza no deserto do Atacama, Chile. Em 2010, o ESO aprovou o plano oferecido pelo governo federal brasileiro de pagar € 270 milhões ao longo de dez anos para integrar as pesquisas, no entanto, nenhuma parcela deste valor foi efetuada.

“Não surpreende que os astrônomos brasileiros tenham ficado frustrados com a falta de comprometimento do Brasil com a ciência e a tecnologia. Agora, esta comunidade está vendo seu trabalho e o investimento do Brasil estrangulados”, afirmou no texto.

Extremely Large Telescope, maior telescópio do European Southern Observtory (ESO). Crédito: L. Calçada/ESO

Corte de investimentos

Barbuy criticou também o progressivo corte de investimento do governo federal ao orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC): o montante injetado na pasta em 2018 é de apenas 40% (corrigido pela inflação) ao orçamento para o mesmo ministério em 2010 – e com o agravante da desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar. Em 2018, uma carta-protesto contra os cortes orçamentários na ciência foi assinada por 56 sociedades científicas brasileiras e enviada ao governo federal.

“O problema é que a pesquisa e sua infraestrutura de apoio dependem em grande parte do apoio do governo. Os recursos para projetos de pesquisa são necessariamente do MCTIC e de órgãos estaduais, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)”, explica a cientista.

“Há também uma percepção errônea no Brasil de que a ciência e a tecnologia têm pouco impacto na economia”, critica. A professora da USP cita como exemplo de boas políticas para o desenvolvimento da ciência o programa das Universidades da Liga de Pesquisa na Europa, que produzem pesquisas intensivas e geraram cerca de 1,3 milhão de empregos e € 100 bilhões, em valor bruto.

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Science publica também carta de pesquisadores da UFRJ

Na mesma edição, a revista Science publicou a carta aberta assinada por 21 pesquisadores de diversas instituições: 12 deles da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mais nove de instituições norte-americanas. A manifestação tem como tema central o incêndio do Museu Nacional.

No texto, os cientistas justificam que as extensas coleções de história natural do museu, coletadas ao longo de mais de dois séculos, documentavam a mudança na identidade, cultura e idiomas desde os primeiros habitantes da América do Sul. “A magnitude desta perda é impressionante – não apenas para o Brasil, mas para o mundo”, afirmam.

“O avanço científico é baseado em blocos de construção do passado e, sem esses componentes, os cientistas ficam sem pontos de referência. As coleções de museus são a base sobre a qual reconhecemos a novidade cultural e científica à medida que nos esforçamos para entender e melhorar a condição humana, para avançar em nossa compreensão de como as peças da natureza surgiram – e como se encaixam – e até mesmo para prever o futuro ecológico e evolutivo da biodiversidade do planeta”, argumenta o texto.

A carta aponta que a tragédia do dia 2 de setembro é uma metáfora para o estado atual da ciência no Brasil e acompanha uma série histórica de acidentes com a cultura e a ciência do país, como os incêndios ocorridos no Instituto Butantan, em 2010, e no Museu da Língua Portuguesa, em 2015, ambos em São Paulo.

“Coleções de museus são tesouros nacionais atemporais que representam nossas histórias, culturas e conquistas científicas. Toda instituição e governo deve refletir e prestar atenção nesse momento triste. Precisamos investir e proteger nossos museus e coleções para o benefício da ciência e da sociedade em todo o mundo”, clama o documento.

Conteúdo publicado em 7 de novembro de 2018

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