Empresária e advogada, Márcia Rocha foi a primeira mulher trans a conseguir o direito de ter seu nome social reconhecido pela OAB e é uma das fundadoras e diretoras do projeto Transempregos

Quando se formou em Direito pela PUC-SP e construiu uma sólida carreira empreendendo no mercado imobiliário, Márcia Rocha se apresentava ao mundo como um homem cisgênero e casado com uma mulher. Mas desde muito nova, ela sempre soube que, na realidade, sua identidade de gênero é muito mais ligada ao feminino. Somente com mais de 30 anos que Márcia se identificou como uma pessoa transgênero e por volta dos 40 anos que ela começou definitivamente sua transição.

Aos 54 anos, Márcia trabalha majoritariamente como empresária. Ela toca duas empresas do ramo imobiliário, setor de atuação tradicional na qual, afirma, “não teria conseguido o que consegui se tivesse saído do armário mais cedo”. Quando se apresentou como uma mulher trans, já em condições de poder, foi bem aceita – mas sabe que não é assim na maioria dos casos.

Como advogada, foi a primeira pessoa trans a conseguir o direito de ser reconhecida pelo nome social na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em 2017. Nesta mesma entidade, ela é também cadeira no Comitê de Diversidade.

Como militante dos direitos das pessoas trans, ela também se tornou representante da World Association for Sexual Health e é uma das fundadoras do projeto Transempregos, que conecta profissionais trans a vagas em empresas dispostas a recebê-los.

Leia mais em sua entrevista exclusiva para bluevision:

Bluevision: Márcia, por favor, explique como foi que você entendeu sua identidade de gênero como uma mulher. Como foi a aceitação e a transição?

Márcia Rocha: Desde os quatro anos de idade eu já era trans, mas não sabia o que era. Eu não sabia o que acontecia comigo, ninguém sabia ou falava sobre essa questão de ser transgênero. Eu me sentia mulher desde pequena, gostava de elementos identificados com o feminino e andava com meninas na escola, mas ocultava isso e vivia uma masculinidade para o mundo. Era uma vida dupla. Fiz isso até os 33 anos, quando começou a abertura do regime militar. Com a internet e mais acesso à informação, comecei a pesquisar mais e entender o que era ser trans. Com 39 anos, comecei a transição de decidi ir além: seguir com a hormonização até o fim – eu já tinha começado antes, mas parava. Aos 42 anos, resolvi assumir publicamente de vez.

Quando assumi, foi um choque para muita gente. Eu já era empresária, já tinha uma experiência muito grande no mercado de trabalho. Neste aspecto, consegui coisas que só pude fazer escondida no armário.

Como foi seu processo de transição para o gênero feminino? Que tipo de situações você teve que enfrentar?

MR: As pessoas mais próximas acharam que eu tinha enlouquecido. Todo mundo me achava um “homão”, bem sucedido e tudo isso. Mas algumas pessoas que sempre souberam, inclusive amigos de infância que me viam desde pequena vestida como mulher, me ouviam falar sobre este desejo. Foi sempre assim desde pequena, e não algo que decidi de hora para outra.

Ainda hoje, as pessoas têm preconceito, muita gente fica olhando esquisito. Antes, ou olhavam normal ou nem me notavam. Hoje, o olhar é diferente. Tem senhorinhas que ficam até com olhar de medo. Mas aprendi a lidar com isso. Mesmo assim, passo por muita coisa. Sou sócia do clube Paulistano desde que nasci. Quando eu assumi, tentaram comprar meu título, mas não quis vender. Tentaram evitar que eu frequentasse o clube, mas eu vou. E as pessoas ainda estranham muito.

E como foi a reação de sua família? Aceitaram bem sua transição?

MR: Minha filha, por exemplo, sempre soube. Ela sempre me viu montada em casa e foi tranquilo, mas o resto da família não sabia. Teve gente da família que achou ótimo e teve quem se afastou definitivamente. Minha mãe foi a última da família a quem contei e ela aceitou melhor do que eu imaginava. Ela ainda diz “não quero saber, tive um filho”, mas convivemos muito bem. Ela não gosta, mas ela aceita. Essa é a questão, mesmo que não goste, tem o direito de não gostar, mas não tem direito de ofender, agredir, limitar acesso etc. etc.

Antes da transição, você se identificava como um homem hétero, gay ou bissexual? Qual a relação de sua sexualidade com sua identidade de gênero?

MR: Eu sempre fui bissexual e, portanto, gostava de meninas. Fui casada com mulheres – minha ex-esposa, inclusive, me deu apoio na época que comecei a transição definitivamente. Isso me segurava para não me assumir. Como nunca fui exatamente gay, tentei levantar informações e entender o que eu era. Quando conheci a teoria acadêmica de que identidade de gênero é uma coisa e sexualidade é outra, entendi. Eu sou a prova viva de que isso é verdade.

Em algum momento se viu prejudicada em razão de sua identidade de gênero?

MR: Eu não teria conseguido nada se tivesse feito transição antes, nem sequer me formar seria possível. Só consegui o que consegui porque fiquei escondida no armário. O preconceito existe, sim. Sinto e vivo isso no dia a dia, mas como já tenho condição de poder, um carro bacana, ando bem vestida, falo bem… Isso impõe no ambiente um cuidado maior. Mesmo assim, ainda lido com olhares e gracinhas.

No ambiente profissional, em relação a oportunidades de carreira e de negócios, você sentiu que sua transição trouxe impactos negativos?

MR: Eu vivo mais das minhas empresas do que do direito. Nas empresas, é mais fácil. Eu não tenho patrão, isso é uma vantagem. E nas reuniões, depois do primeiro impacto é tranquilo, o pessoal aceita bem. Pessoalmente falando, não afetou tanto. Mas para muita gente é fator extremamente prejudicial – por isso criamos o Transempregos, para diminuir a injustiça e dar oportunidade às pessoas trans.

No direito, após a transição fui para o Comitê de Diversidade da OAB e peguei alguns casos. No primeiro momento, em cartórios ou fóruns tive problemas, as pessoas não sabiam lidar com isso. Depois que teve um curso sobre o tema, notei que comecei a ser mais bem tratada. Hoje, noto que às vezes o juiz fica até apreensivo com medo de errar a forma como me trata. Há uma lei estadual em São Paulo que pune que destratar pessoas trans. As pessoas se preocupam em não discriminar mais, é raro lidar com alguém que não se preocupe hoje em dia. Mas, no passado, já enfrentei situações na qual o funcionário público não aceitava meu nome social, só me tratava pelo nome de registro. Com a carteirinha da OAB, ficou mais fácil.

Como foi o processo para conseguir o reconhecimento de seu nome social na OAB? Fale sobre a importância deste ato.

MR: Foi importantíssimo! Eu não achei que ia conseguir, pois a OAB é conservadora, mas tive muito apoio dos dirigentes da época. Foram três anos para a comissão entender, avaliar e passar por vários trâmites o meu pedido. Só aí foram votar. Alguns conselheiros também apoiaram muito e foi aprovado com unanimidade. Jamais achei que seria assim. É o símbolo e o reconhecimento de que sou ser humano com direitos. Permitir o uso do nome condizente com minha imagem é reconhecimento de direito humano. Hoje, são 53 advogados/as trans com nome social no Brasil.

Um levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) afirma que 90% da população trans utiliza ou utilizou a prostituição como fonte de renda e o faz/fez por necessidade econômica. Como mudar este quadro?

MR: Este quadro não é verdade. Trata-se de um número da Antra, que é um movimento ativista que lida com travestis de rua; dentro deste grupo, de 90% estão na prostituição. Hoje, eu tenho 3 mil currículos cadastrados no Transempregos e 40% deles têm curso superior – essas pessoas não estão na prostituição. Homens trans, que são mais ou menos 40% da população trans no Brasil, também não vão para este quadro. Quando as famílias apoiam ou a transição ocorre mais tarde, não é comum seguir este caminho.

Quem está nessa situação é porque faz a transição cedo e a família joga para a rua. Essa pessoa não tem outra escolha, afinal não tem onde morar, o que comer, nada de dinheiro. Esse é um fato e é uma porcentagem grande, mas não sabemos o quanto. A solução é mudar a cabeça da sociedade a médio e longo prazo, precisamos contar o sucesso de pessoas trans que tiveram apoio e mostrar que com oportunidades e suporte familiar, todas as pessoas trans podem ter ótimas vidas também.

De onde veio a ideia do Transempregos? Como funciona? Que dificuldades específicas precisam resolver?

MR: No começo, criamos sem saber como fazer direito. Desenvolvemos o site para fazer a ponte de empregadores e pessoas trans. Nos primeiros meses, de agosto de 2013 até o começo de 2014, foram poucos currículos e nenhuma vaga. Depois de uma matéria publicada no Estadão, começou a crescer e fazer parceria com empresas grandes, como Carrefour, Atento e IBM. Hoje, temos uma a duas vagas diárias e recebemos, em média, quatro currículos por dia. Em março, entre os dias 1 e 19, conseguimos a contratação de 20 pessoas trans.

Ainda falta espalhar pelo Brasil, as vagas são mais concentradas em São Paulo. O preconceito está sendo rompido primeiro em São Paulo, mas o processo está se espalhando cada vez mais.

Você é otimista em relação à inclusão das pessoas LGBTQIA+? Que mensagem deixaria para outras pessoas trans que se preocupam com o preconceito na carreira?

MR: O que falo para essas pessoas é para ter paciência, se aprimorar, estudar e se tornar o melhor profissional que puder ser. Para seguir atrás das oportunidades e sempre melhorar o currículo. Nas escolas e universidades já vemos mais estudantes trans. As regras mudaram e a sociedade mudou. É difícil, sempre foi, mas está melhorando. Em 20 anos, a realidade será diferente e por isso precisamos seguir tentando e não desistir.

Conteúdo publicado em 17 de abril de 2019

O que a Braskem está fazendo sobre isso?

A Braskem acredita que a promoção da diversidade fortalece a nossa cultura e reforça a nossa crença na valorização do ser humano. Com isso, cria-se um ambiente criativo, inclusivo, livre de preconceito e discriminação, onde todas/os se sentem à vontade para ser quem são. A consequência direta desse compromisso é a melhora nas relações entre as pessoas, o que colabora com a inovação e a produtividade. A empresa mantém o “Programa de Diversidade e Inclusão”, que opera, sobretudo, nos eixos de gênero, etnia e raça, identificação LGBT, pessoas com deficiência e fatores socioeconômicos. Entre as ações desenvolvidas pela Braskem, estão a capacitação de novas lideranças, extensão da licença maternidade, ações contra a violência de gênero, além de parceria com a “Empregue Afro”. Desde 2017, 90 colaboradores também integram grupos de trabalho nos temas Gênero, Raça e Etnia e LGBT a fim construir novas ações para o programa.

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