A Associação Indígena Kĩsêdjê retomou terras que estavam degradadas na região do Xingu e desenvolveu sistema de produção sustentável de óleo de pequi, com safra recorde em 2018

A Associação Indígena Kĩsêdjê (AIK), que representa os índios da etnia de mesmo nome, localizados em Querência, região do Xingu, no Mato Grosso, foi uma das vencedoras do Prêmio Equatorial 2019. Trata-se de uma premiação concedida a cada dois anos pela Organização das Nações Unidas (ONU) para soluções de desenvolvimento sustentável locais e indígenas. O Conselho Indígena de Roraima também foi premiado.

Na edição deste ano, a ONU recebeu 847 inscrições de 127 países; foram selecionados 22 vencedores – os demais eleitos são de Benim, Camarões, Equador, Índia, Indonésia, Quênia, Micronésia, Nigéria, Paquistão, Peru, Tanzânia e Vanuatu. A cerimônia de premiação será realizada em 24 de  setembro, em Nova York (EUA), quando os indígenas receberão o prêmio no valor de US$ 10 mil, resultado do trabalho que vêm desenvolvendo com produção de óleo de pequi na Terra Indígena Wawi.

Por que a ONU premiou Associação Indígena Kĩsêdjê?

A Terra Indígena Wawi foi homologada apenas em 1998, quando os Kĩsêdjê puderam retornar às suas terras tradicionais. De acordo com o Instituto Socioambiental (ISA), os Kĩsêdjê encontraram seu território degradado e até hoje sofrem com as pressões da agricultura ostensiva – o município onde as terras estão, Querência, teve 6,2 mil hectares desmatados apenas em 2018, segundo dados do Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite).

“Localizada em um dos estados mais desmatados do Brasil, esta associação transformou o status quo, recuperando suas terras tradicionais e desenvolvendo um modelo empresarial inovador que usa árvores de pequi nativo para restaurar paisagens, fomentar a segurança alimentar e desenvolver produtos para mercados locais e nacionais”, afirma o comunicado da ONU sobre a homenagem à etnia.

Plantação de pequi. Crédito: Fábio Nascimento/ISA

Produção de óleo de pequi é ferramenta para o desenvolvimento

Neste contexto, a comunidade indígena começou o plantio de pequizais como forma de recuperar as terras, produzir mais alimento para sua população e gerar renda sustentável.

“Quando a gente falava que ia plantar pequi, muitas pessoas disseram que ia demorar muito para dar resultado. E eu respondia: não estou plantando para mim, mas para o futuro”, disse Yaiku Suyá, coordenador de alternativas econômicas da AIK, para o ISA. “É uma honra receber um prêmio como esse, que anima o trabalho e anima a comunidade”.

Toda a produção é realizada pelos Kĩsêdjê, desde a coleta das frutas em mutirão, realizada entre outubro e dezembro, até a produção do óleo em si. Em 2018, a associação atingiu um desempenho recorde: a safra resultou em 315 litros da substância.

“Ainda tem muita coisa para fazermos com o pequi. Temos a castanha, o doce, o molho de pequi com pimenta e estamos começando a fazer sabonete. Vamos usar o recurso para buscar capacitação, que deve ajudar muito no nosso trabalho”, reforçou Suyá em entrevista à revista Globo Rural.

O óleo de pequi é comercializado com restaurantes, lojas e mercados de alto padrão. Ele pode ser comprado também na loja online do Instituto Socioambiental.

Crédito da imagem: Rogério Assis/ISA

Conteúdo publicado em 3 de julho de 2019

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