Fazendas urbanas espalhadas por cidades em todo o mundo surgem como alternativa para diminuir o desperdício de alimentos e reduzir as pegadas de carbono e de água

Localizado no bairro de Santa Efigênia, em Belo Horizonte (MG), no Sudeste brasileiro, o Boulevard Shopping abriga mais de 200 lojas e a primeira fazenda urbana da América Latina. A BeGreen ocupa 2.700 m² da área do shopping com uma estufa de 1.500 m² e capacidade para produzir, mensalmente, até 50 mil pés de minialfaces, temperos e ervas.

A história da BeGreen começou em 2014, quando Giuliano Bittencourt retornou de uma viagem para o estado do Massachusetts, nos Estados Unidos, e compartilhou com Pedro Grazielo o que tinha conhecido. Os dois trabalhavam juntos em um programa de aceleração para startups e viram no campo uma oportunidade para inovar. Foi assim que nasceu a primeira fazenda da BeGreen, em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte.

Durante dois anos, a dupla vendeu hortaliças sem agrotóxicos para mercados da região, mas não era exatamente isso que eles queriam para a BeGreen. Em 2016, a startup recebeu investimento da aceleradora Liga Ventures e em 2017 veio o acordo com o shopping.

Mais do que produzir hortaliças aquapônicas, sem agrotóxicos e, portanto, orgânicas, Bittencourt e Grazielo queriam plantar e colher dentro da cidade, encurtando a distância entre os alimentos e os consumidores e, por consequência, diminuindo o desperdício.

Estufa da BeGreen no Shopping Boulevard em Belo Horizonte (MG). Foto: Emily Canto Nunes

Segundo dados de 2011 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), um terço dos alimentos produzidos para consumo humano é perdido ou desperdiçado, o que equivale a cerca de 1,3 bilhão de toneladas por ano.

Nos países em desenvolvimento, perdas e desperdícios são menores, mas nada desprezíveis: na América Latina, cerca de 15% de todos alimentos são perdidos enquanto na África, a proporção chega a 22%. Segundo o World Resources Institute (WRI) só o Brasil perde cerca de 15 milhões de toneladas de alimentos por ano. O desperdício acontece em toda cadeia de suprimentos, desde a produção agrícola inicial até o consumo final pelas famílias. As perdas de alimentos representam um desperdício que vai além do produto em si — elas envolvem os recursos utilizados na produção, como terra, água, energia e insumos, além de aumentar as emissões de CO2.

Ao produzir alface no shopping e vendê-la apenas para restaurantes num raio de 10 km — e para os consumidores do próprio shopping –, a BeGreen está ajudando a evitar o desperdício de alimentos e a diminuir a emissão de CO2, uma vez que consumidor final adquire os produtos da fazenda in loco, sem serviços de logística e entrega.

Além disso, segundo Bittencourt, a alface da BeGreen precisa de 90% menos de água no seu cultivo do que no as hortaliças cultivadas no método tradicional. Só essa notícia já é bastante positiva, uma vez que a pegada hídrica para um quilo de alface é de 273 litros de água de acordo com dados da organização Water Footprint Network.

A BeGreen produz hortaliças em uma estufa que conta com ajuda de um sistema de cultivo em consórcio com a criação de peixes. Os excrementos das tilápias que vivem nos tanques da empresa garantem os nutrientes necessários à água que é utilizada para irrigar as hortaliças, especialmente a amônia. Segundo Bittencourt, para manter a sustentabilidade do negócio, os peixes são criados segundo um protocolo de proteção aos animais e nunca abatidos.

Apesar de terem desenvolvido um sistema baseado em Arduino — plataforma de prototipagem eletrônica de hardware que é livre e funciona com uma placa única — que mede oito variáveis de cultivo das hortaliças e de outras plantas, hoje a empresa ganha dinheiro vendendo sua produção, mas principalmente a experiência. Essa é principal inovação da BeGreen, especialmente se comparada a outras fazendas urbanas espalhadas pelo mundo. Ao aliar educação ao entretenimento, a empresa se torna mais do que uma produtora local de hortaliças orgânicas.

Ao chegar na BeGreen, o consumidor pode ir direto para a loja e comprar as hortaliças, temperos e outros produtos agroecológicos locais que são vendidos ali, ou fazer uma visita guiada pelo espaço, com direito a uma visita à estufa. É produção e consumo praticamente no mesmo local. A visita à estufa, que custa R$ 10, mostra como funciona o cultivo das hortaliças e, ao final do passeio, a empresa entrega um pé de mini alface ao visitante.

“Vimos muito, nos últimos meses, as pessoas vindo a BeGreen para conhecer, mas também para se conectar ao alimento. Um pai com filho que vai para mostrar como funciona para a criança, que a alface não é feita dentro da geladeira, como ela cresce de verdade”, conta Bittencourt. Por isso, a empresa também realiza ações de conscientização de crianças e jovens de escolas públicas e privadas de Belo Horizonte, e eventos e treinamentos de produção sustentável.

Bittencourt afirma ainda que a BeGreen espera ter mais fazendas urbanas para operar e que pretende aumentar sua produtividade, mas que essa experiência do consumidor final dentro da estufa, com o alimento, é parte fundamental para o negócio e para os sócios. Apoiada no conceito “farm-to-table” (da fazenda para a mesa), a BeGreen produz, mas também conscientiza e distribui seus produtos diretamente ao consumidor. Para Bittencourt, fazer um negócio que fosse sustentável desde o início era uma premissa para empreender.

Três outros exemplos bem sucedidos de fazendas urbanas

Comprar de produtores locais não apenas estimula a economia como ajuda no cuidado com o meio ambiente. Com origem na Alemanha e fundada por três cineastas israelenses que se tornaram empresários, a Infarm arrecadou US$ 25 milhões no início de 2018 para expandir seu sistema de cultivo interno. Assim como a brasileira BeGreen, a Infarm quer ajudar as cidades a se tornarem autossuficientes na produção de alimentos. A companhia estima que, até meados de 2019, terá 1.000 fazendas urbanas em miniatura operando em toda a Europa. Até o final deste ano, Paris, Londres, Copenhague e algumas cidades cidades alemãs já devem ter as suas.

Com um módulo único de dois metros quadrados — uma espécie de estufa de vidro — que pode ficar dentro de uma loja ou mesmo na sala da sua casa, é possível cultivar centenas de diferentes variedades de plantas, hortaliças, temperos, vegetais e legumes. Cada uma com seu próprio microclima graças à técnica da hidroponia, que não requer solo e que pode funcionar dentro de uma caixa de vidro com o clima controlado e iluminação de luz LED.

Outra empresa bem conhecida de fazendas urbanas é a Gotham Green’s. Criada nos Estados Unidos, a Gotham Green’s tem estufas hidropônicas nos telhados de edifícios em Nova York e Chicago. Grande parte da produção é enviada para lojas próximas e restaurantes logo que é colhida. Isso significa que os produtos chegam mais frescos e menos deteriorados ao cliente — e tendo emitido volume inferior de CO2 no transporte.

Fazenda urbana em Chicago, nos Estados Unidos. Foto: Flickr

A receita anual de oito dígitos da Gotham Green’s sugere um futuro saudável para a agricultura urbana. Por mais que não existam evidências científicas de que a agricultura urbana, por si só, é melhor para o meio ambiente do que a tradicional, os benefícios indiretos são inegáveis. Afora diminuir a pegada de carbono e a hídrica, essas empresas estão criando novos negócios ao mesmo tempo em que conscientizam a população.

De origem canadense, a Lufa Farms é considerado um dos maiores projetos de agricultura urbana do Canadá. Em 2011, Mohamed Hage e Lauren Rathmell, parceiros nos negócios e na vida, abriram a primeira estufa comercial de telhado do mundo, um espaço de 31 mil m2 em cima de um armazém antigo de Montreal. Eles agora supervisionam três estufas hidropônicas, cada uma instalada em um prédio resistente e de baixa estatura, que combinadas somam 12,8 mil m2 em estufas.

Enquanto muitas fazendas urbanas vendem a restaurantes e mercados, a Lufa também possui um ponto de diferenciação: a venda direta ao consumidor. No site da empresa, qualquer um pode personalizar cestas de alimentos frescos, que são entregues em mais de 300 pontos de distribuição pela cidade, ou ainda entregues nas casas do comprador por uma taxa adicional.

Você pode vê-la como uma iniciativa de Comunidade que Sustenta a Agricultura (Community Supported Agriculture ou CSA na sigla em inglês), mas também como uma fusão entre fazenda e serviços como o Uber Eats ou Amazon Prime — o primeiro entrega comida em casa via motoristas do Uber e o segundo entrega as compras de supermercado feitas na Amazon, entre outras vantagens. Ou seja, fazendas urbanas, além de serem iniciativas que privilegiam a produção local, oferecem comodidade e personalização ao cliente, promovendo a sustentabilidade enquanto parte essencial do negócio.

O que você pode fazer?

Valorizar a produção local é uma forma de ajudar no desenvolvimento social e econômico da região, além de evitar desperdício de recursos e, em certos casos, de alimentos. Se informe sobre conceitos como o de uma Comunidade que Sustenta a Agricultura, denominada CSA. Essa é uma prática de sucesso para um desenvolvimento agrário sustentável e para o escoamento de produtos orgânicos de maneira direta ao consumidor, criando uma relação próxima entre quem produz e quem consome os produtos. Procure por iniciativas de CSA na sua cidade.

Conteúdo publicado em 14 de março de 2018

O que a Braskem está fazendo sobre isso?

Projeto selecionado pelo Braskem Labs em 2016, o Noocity, da Noocity Ecologia Urbana, desenvolve módulos para hortas urbanas que economizam 80% de água ao dispensar a rega por até três semanas, graças a um sistema integrado de subirrigação. Os módulos podem ser instalados em qualquer tipo de superfície e sem a necessidade de ferramentas, instalações elétricas ou hidráulicas. Com isso, a Noocity traz o cultivo de alimentos orgânicos para residências urbanas de forma simples e ecológica.

A Braskem também apoia o desenvolvimento de novas aplicações que aumentam a produtividade do setor agrícola, promovem o uso eficiente da água e ajudam a diminuir o desperdício de alimentos. O filme plástico para cobertura de solo, ou mulching, contribui para melhorar a eficiência no uso de água doce pelo setor agrícola, responsável pelo consumo de 70% do recurso do planeta. Trata-se de uma solução consolidada na agricultura, principalmente no plantio de hortifrúti, por trazer benefícios no controle de plantas daninhas, na otimização do uso de água e na melhoria da produtividade.

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