Packaging. Credit: Shutter

A sobrevida das embalagens: soluções para o pós-consumo

Elas guardam, protegem e conservam. Onipresentes, as embalagens são projetadas para cada tipo de uso, mas precisamos começar a pensar também no desuso, reúso, descarte e reciclagem para manter a saúde da cadeia de materiais

De forma geral, criar embalagens é uma ideia simples que exige um procedimento complexo. O principal objetivo deve ser proteger o produto durante o armazenamento e transporte e atrasar o processo de degeneração, a fim de manter a substância apta para consumo pelo máximo de tempo possível. As embalagens protegem desde alimentos in natura até processados, além de roupas, sapatos, eletrônicos, brinquedos, fórmulas farmacêuticas, produtos de higiene, cosméticos, limpeza... a lista é extensa.

“A embalagem é um meio para as pessoas terem acesso a produtos que são demandados pela sociedade para a saúde, o bem-estar, para conveniência ou mesmo para a sua sobrevivência”, explica Luciana Pellegrino, diretora executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre). Para produzir invólucros tão específicos são necessários diversos estudos sobre as quantidades de luz, calor, pressão, acidez, transpiração, opacidade, gases e microrganismos suportados por cada elemento.

Os materiais utilizados para a produção são principalmente quatro: alumínio, papelão, vidro e plástico aparecem no topo da matéria-prima das embalagens em termos globais. Dados do relatório Ethical living: Plastic - lose it or re-use it? informam que são produzidas, por ano, mil bilhões de unidades de embalagens de plásticos flexíveis e 500 bilhões de unidades de garrafas PET. Latas de alumínio e garrafas de vidro vêm atrás, com 250 bilhões de unidades e, na sequência, caixas de papelão, com 200 bilhões de unidades.

Segundo a Fundação Ellen MacArthur, apenas 14% das embalagens do mundo são recicladas, 30% acaba em ecossistemas frágeis e 40% vai para lixões. No Brasil, a Abre informa que aproximadamente metade das embalagens são dedicadas a alimentos. “A preocupação da indústria das embalagens é de evitar as perdas.  Para isso, precisa entender cada fase da cadeia de produção. Para ser eficiente, muitos estudos são realizados, mas ainda há bastante a fazer”, analisa Luciana.

“Cada produto tem seu próprio equilíbrio de proteção, ou seja, suas naturezas físico-químicas são diferentes e estragam por motivos diferentes. Então, pensamos: como proteger aquele fator de deterioração da forma mais econômica possível?”, explica Eloisa Elena Corrêa Garcia, diretora geral substituta do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e pesquisadora do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea).

Soma-se a isso o elemento central da questão econômica da indústria: é preciso que a embalagem esteja adequada ao mercado e a seu consumidor. “Tem que se pensar a partir do produto e qual a sua entrega: se é conveniência, se é tempo de prateleira, se envolve condições externas como resfriamento ou congelamento”, conta a diretora do Abre. A análise de mercado se junta à conclusão do laboratório para definir qual embalagem será aplicada.

Descarte inadequado. Crédito: Sergio Souza/Unsplash

O revés do descarte inadequado

Segundo o relatório Plastics – the sustainable way to use Oil and Gas, do total de plástico utilizado em todo mundo, 37% se torna embalagem, e é a maior parcela de perda de plástico para aterros ou para descartes sem qualquer regulamentação. Dos 78 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente para embalagens, apenas 2% é reciclado e 95% é completamente perdido, do ponto de vista econômico, após o primeiro uso - e gera uma perda de US$ 80 bilhões a US$ 120 bilhões por ano.

“No pós-consumo, quanto mais se reaproveitar o material, melhor. Se ele foi usado e segue com valor de uso, tem que voltar para o ciclo produtivo. Um exemplo é a garrafa PET: pode ser transformada em bancos de carro”, opina Eloisa Garcia. “Em casos que não possa ser reciclado dessa forma, temos que pensar em alternativas econômica e ambientalmente viáveis”, conclui, citando a alternativa da reciclagem energética.

Na Europa, o relatório Plastics - the Facts 2017 afirma que o reaproveitamento de embalagens plásticas cresceu 75% entre 2006 e 2016, enquanto os resíduos destinados aos aterros caíram 53%. E o Parlamento Europeu definiu uma meta para 2030: até lá, 70% das embalagens terão que ser recicladas, o consumo de plásticos de utilização única deve ser reduzido e o uso intencional de microplásticos será restringido.

O plano The Plastics Strategy é uma resposta à demanda da população europeia. Pesquisas de opinião demonstra que os europeus estão preocupados com os impactos na saúde (74%) e no ambiente (87%) causados por produtos de uso diário feitos a partir de plásticos. A estratégia reconhece o crescente problema do lixo marinho (80% vem do plástico) e inclui ações sobre como minimizar resíduos na fonte. Até 13 milhões de toneladas de resíduos plásticos acabam nos oceanos do mundo todos os anos.

“Precisa haver fomento da logística reversa, mais participação do Estado e a indústria pode incentivar e valorizar, utilizando material reciclável” - Luciana Pellegrino, diretora executiva da Associação Brasileira de Embalagem

“O maior problema está no descarte ruim, mas se trata de um quadro geral da questão dos resíduos sólidos”, analisa Luciana Pellegrino. “Precisa haver fomento da logística reversa, mais participação do Estado e a indústria pode incentivar e valorizar, utilizando material reciclável”, conclui.

Embalagem natural. Crédito: Charles Deluvio/Unsplash

Embalagens para comida e embalagens como comida

São muitos e variados os benefícios de consumir a casca de alimentos como legumes, verduras e frutas. Além de evitar o desperdício, essas partes dos alimentos são tão ricas em nutrientes que até a Organização para Agricultura e Alimentação da Organização das Nações Unidas (FAO) recomendou seu consumo. Há alguns anos, a indústria e a academia vêm desenvolvendo soluções para embalagens que emulam, por meio da biomimética, as qualidades das embalagens da natureza para proteger o alimento, mantendo propriedades como cor, sabor e aroma, além de não gerar resíduos e apresentar valor nutritivo.

Entre os polissacarídeos comestíveis, por exemplo, os mais comuns são alginato, carragenina, éteres de celulose, pectina e derivados de amido. Eles agem para regular o transporte de oxigênio, dióxido de carbono e umidade e também reduzem perda de sabor e aroma, com objetivo de manter as propriedades nutritivas.

Na fabricação do material, o alimento passa pelo processo de liofilização, ou seja, é congelado e a água contida nele é transformada do estado sólido ao estado gasoso. Então, o alimento desidratado é misturado a um nanomaterial que dá liga a um tecido plástico que diminui a perda de alimentos. Testes mostram redução em 30% de desperdício em frutas e 20% em queijos.

Existem também as embalagens de leite. O uso da proteína caseína como matéria-prima pode ser incluída na produção de embalagens comestíveis e biodegradáveis, capazes de isolar o oxigênio da comida de forma 500 vezes mais eficiente que o plástico convencional. Mas nada pode dispensar o valor das embalagens naturais de frutas, legumes e verduras.

A casca de banana, por exemplo, contém aminoácido que aumentam os níveis de serotonina, um neurotransmissor que regula sono, humor e até a percepção da dor, além da vitamina B6, magnésio e potássio, que ajudam a regular o metabolismo e a proteger o bom funcionamento do intestino e do cérebro.

A casca da maçã guarda polifenóis, flavonóides e fenólicos. Essas substâncias reduzem a oxidação das artérias, o que contribui para a prevenção do câncer e de doenças cardiovasculares. A pectina contribui para a melhora na capacidade digestiva e o ácido ursólico tem ação anti-inflamatória, antidiabética e antibiótica. Casca de cebola é rica em antioxidantes e anti-inflamatórios que contribuem para a redução do colesterol ruim, o combate às alergias e a depressão.

Reciclagem. Crédito: Pawel Czerwinski/Unsplash

Alternativas empresariais e domésticas

Para grandes produtores de lixo específico, é possível contratar consultorias especializadas na implementação e manutenção da coleta seletiva. Escritórios que geram muitos papéis podem encontrar soluções na cadeia de reciclagem, reincorporando os próprios documentos descartados e disponibilizando-os em forma de novas folhas que podem ganhar outros usos. Já nos refeitórios, descartes orgânicos podem virar adubos por meio de compostagem local. Latas e vidros também podem ser destinados a recipientes definidos para recebê-los, com destinação correta para reuso ou reciclagem.

Para a rotina doméstica, alguns aplicativos podem ajudar a esclarecer dúvidas e conectar profissionais, cooperativas ou empresas que realizam a atividades de reciclagem, além de oferecer dados importantes sobre como economizar recursos naturais e adotar hábitos sustentáveis diante das escolhas de consumo e descarte. O Cataki, por exemplo, destaca que existem hoje, no Brasil, 800.000 trabalhadores na coleta, mas apenas 300 estão cadastrados. Para ampliar a rede, basta registrar o catador ou catadora que atua na sua rua, no seu bairro ou na sua região. Se quiser descartar algum material ou resíduo reciclável, basta usar o app para encontrar os trabalhadores mais próximos ao local da coleta.

O aplicativo desenvolvido pelo Movimento Plástico Transforma, apoiado pela Braskem, pode ser usado em tablets e celulares, tanto por catadores de materiais recicláveis quanto por cidadãos que precisem fazer descartes. A plataforma é capaz de apontar 1.936 pontos de entrega voluntária (PEVs) em 61 cidades, de 20 estados brasileiros. O endereço online ainda traz conteúdos sobre ações educativas e interativas, incentiva a inovação, a reciclagem e responsabilidade ambiental para o consumo consciente.

Para as embalagens longa vida, a Tetra Pak desenvolveu a Rota da Reciclagem. O aplicativo mostra de forma didática como qualquer pessoa interessada pode participar do processo de separação e entrega das embalagens longa vida. Ele informa ainda onde estão localizadas as cooperativas de catadores, as empresas comerciais que trabalham com compra de materiais recicláveis e os pontos de entrega voluntária que recebem embalagens da empresa.