Professor Marcelo Oliveira. Crédito: bluevision

“Pensar o produto com o seu descarte em mente é design”, diz professor

Para Marcelo Silva Oliveira, coordenador do curso de design da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o design sustentável começa na concepção de um novo produto e está presente em todo o seu desenvolvimento, até o momento do descarte

Salta aos olhos a diversidade de temas com os quais trabalhou o professor Marcelo Silva Oliveira, 49. Graduado em Desenho Industrial (1990), fez mestrado em Compósitos Avançados (1998) e doutorado (2010) em Arquitetura e Urbanismo. Atualmente, é professor do departamento de projetos Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e coordenador do curso de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

No final da década de 1980 trabalhou com o desenvolvimento de produtos militares, como tanques de guerra, jeeps e blindados. Mais tarde, se envolveu com projetos de veículos, engenharia de materiais, projetos para lojas de tecido e formou-se como piloto de avião.

Em 2006, virou sócia da mulher e abriu a Flytex, empresa brasileira de uniformes especiais. A pedido da Agência Espacial Brasileira, eles desenvolveram o modelo azul royal para o astronauta brasileiro Marcos Pontes. O tecido utilizado não apresenta desgaste por fricção, não derrete, não solta fumaça e protege contra os raios ultravioleta.

Hoje, Marcelo Oliveira se concentra nas atividades acadêmicas de protagonismo estudantil e faz parte dos movimentos pioneiros que repensam o design como disciplina, estratégia e trabalho. “O futuro do design é ajudar outras profissões a resolver problemas abertos e complexos. Perdemos a identidade inicial de quem faz produto, programação visual, internet, brinde ou embalagem. Passamos a desenvolver estratégias.”

Confira a entrevista.

bluevision - O que é design?

Marcelo Silva Oliveira - Quando o homem lascou a primeira pedra e colocou um cabo para usar essa pedra como ferramenta, nasceu o design. Design não é desenho. “Design” vem de “designar”, “desígnio”, ou seja, designamos uma forma, uma função e um uso.

E quando o design virou um disciplina específica?

O design foi entendido como área depois da revolução industrial, com o movimento arts and crafts na Inglaterra. Nesse momento, a ideia de reprodução ganhou importância - com foco na reprodução artística. Hoje, o design e a produção estão mais concentrados em objetos de uso pessoal, com atenção especial para celulares e eletroeletrônicos.

O design tem caráter artístico?

Tem, mas ele perde boa parte desse caráter no modernismo. Ele tinha uma função pictórica ou plástica, mas ela é sobrepujada por outras, como a funcionalidade, o uso e a ergonomia. A obra de arte não se propõe a resolver essas questões. Ela pode até incomodar as pessoas, tem um propósito de expressão. O design também é expressão, mas é expressão com objetivos claros. Ele tem que ser confortável, fácil de usar, anatômico, barato, viável etc.

O que você identifica, hoje, como tendência no estudo do design?

Com as novas ferramentas de computação e os novos meios de prototipagem rápida [como a impressão 3D], a produção é cada vez mais veloz e se faz menos design como antigamente. Agora, um dos principais elementos do design é a parte estratégica, que é fundamental para encarar o que chamamos de wicked problems, ou problemas que, até hoje, não tiveram solução.

O que seria um wicked problem do design?

As consequências diretas e indiretas do crescimento populacional, por exemplo, mas na perspectiva de um problema específico. Algo na linha do: “como vou garantir qualidade de vida para a professora Suzana em um restaurante?” Um designer pode conduzir uma pesquisa etnográfica que revele diferentes lados do problema, pode desenhar uma análise da população, usar técnicas para identificar as dores do cliente e do usuário, o que está sendo tentado, mas não está dando certo, porquê etc. A partir desse levantamento, o designer pode propor soluções em serviços e produtos. Ele pode melhorar a UX, ou user experience, por exemplo.

Quando que se começou a pensar o design para a sustentabilidade?

Nos anos 1990, com Ezio Manzini [professor de desenho industrial da Politécnica de Milão, referência mundial no assunto] e outros estudiosos da Itália. Esse pessoal começou a usar o termo, mas sustentabilidade é uma forma de pensar o design antes da produção.

Como assim?

A gente pensa muito em sustentabilidade em design via reciclagem, por exemplo. Ou seja, depois da produção, fazemos alguma coisa. Mas a reciclagem e a sustentabilidade, nesse momento, precisa ser muito bem entendida. Às vezes ela é mais cara, gasta mais energia, polui mais e gera mais desgastes que uma outra solução.

Quando, por exemplo?

Na hora de escolher papel normal ou reciclado, é muito melhor comprar papel normal. Papel reciclado tem custos ambientais que não vemos. Por exemplo, ele precisa ser transportado - de onde foi usado para a recicladora, da recicladora para a loja e da loja para a casa do cliente. Quase todo o trajeto é feito de caminhão, que polui. Esse papel também precisa ser tingido. No fim, ele polui mais e chega a ser 20% mais caro.

E o que dá pra fazer, em termos de design, para evitar isso?

Nos EUA, na década de 1960 e 1970, se criou o conceito de DFD, ou design for disassembly (design para desmontagem). Ou seja, você já pensa o produto com o seu descarte em mente - você faz o design para facilitar a desmontagem com vistas à reutilização e reciclagem. Pensar o produto com o seu descarte em mente é design.

Quais setores fazem design preocupados com o momento do descarte?

Empresas de eletroeletrônicos, em geral, têm rotinas de design voltado para o descarte. A gente chega nas lojas do setor e percebe que tem lugar para jogar um telefone celular antigo fora ou fazer o descarte de uma bateria. O grupo Whirlpool, da Brastemp e da Cônsul, também é um exemplo. Alguns produtos, como as geladeiras, usam uma cola que é escolhida por se desagregar da maneira mais simples possível. A Fiat, do setor automobilístico, também tem uma cadeia fechada de reciclagem onde o plástico usado num veículo, numa peça do motor, é reaproveitado e vira um para-choque, por exemplo, ou uma lanterna traseira e vai sendo reciclado até o final da cadeia, quando vira um tapete.

Existe regulamentação que exija esse tipo de design em algum lugar?

Não tem lei que garanta que o design seja pensado dessa maneira. É um requisito interno de cada empresa e projeto. Temos as leis de descarte, que legislam sobre esse momento, mas nada específico sobre a concepção do produto.

O que podemos esperar para o futuro do design?

O futuro do design é ajudar a resolver os wicked problems. Com isso, o design deve perder a identidade única que sempre teve, de ser a disciplina de quem faz um novo produto, cria uma programação visual, desenvolve para internet, elabora um brinde ou uma nova embalagem. A nova identidade do design passa a ser a de uma disciplina que colabora no processo de desenvolvimento de novas estratégias para a solução desses problemas complexos. O design e seu método de trabalho passa a ser uma referência para as outras áreas de conhecimento.

Existe alguma área inesperada onde o design pode vir a atuar no futuro?

Sim, na genética. Em breve, a gente vai conseguir recriar órgãos. Provavelmente daqui a 20 anos ou 30 anos vamos ter transplantes de órgãos feitos in vitro. É uma nova fase que vamos experimentar e, de repente, com a questão da informação, o designer até participa mais disso. Eu acho realmente maravilhosa essa questão da biomimética, poder observar a natureza e inovar no produto. Mas inovar na natureza a gente não vai conseguir. Nunca, eu acho.

E qual é o perfil desse novo designer?

O curso de design traz à tona um profissional crítico, ético, responsável, atual, que vai lidar com as questões ambientais e sociais do mundo de hoje com uma visão holística.