Virada Sustentável. Crédito: Luca Upper/Unsplash

Painel sobre ODS abre Virada Sustentável em São Paulo

Jornada de quatro dias inicia em 23 de agosto e terá como foco atividades artísticas e lúdicas, debates e projetos sobre o tema. Painel de abertura debateu ações para cumprir os ODS definidos pela ONU

Tem início hoje a oitava edição da Virada Sustentável São Paulo. Maior evento sobre o tema no Brasil, o evento promove oportunidades para apresentar projetos e facilitar debates que levem a soluções sociais, ambientais e técnicas para problemas mundiais. Baseado nos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), o evento se reveza em diversas cidades e, só em 2018, já esteve presente também no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Manaus.

Na abertura oficial, convidados apontaram os principais desafios da Agenda 2030 sob a perspectiva das empresas, da gestão pública e das organizações da sociedade civil. Com a mediação de Ricardo Voltolini, empresário, professor e conselheiro da Virada Sustentável, os participantes puderam refletir sobre como se articulam os diferentes conjuntos em busca de acordos e pactos planetários.

Abertura Virada Sustentável. Crédito: Camila Caringe/bluevision
Ricardo Voltolini e Haroldo Machado Filho: caminhos para a sustentabilidade

“Esta agenda foi aprovada pelas Nações Unidas, mas não pertence a ela. É um compromisso de todas e todos. E é universal, não uniforme. Ela deve ser adaptada à realidade de cada localidade, cada população”, enfatiza Haroldo Machado Filho, assessor sênior do programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil. Para ele, o importante é valorizar intenções comuns, parcerias e união de esforços. "A gente tem que sentir contente por viver num ambiente democrático, plural, aberto e transparente, que são conquistas da sociedade brasileira."

Marcelo Arantes, VP de comunicação, marketing e desenvolvimento sustentável da Braskem, destaca que, quando se fala em engajamento coletivo, o risco é que as responsabilidades fiquem diluídas. “Nós refletimos muito claramente na Braskem sobre nossas vulnerabilidades, reelaboramos políticas de desenvolvimento sustentável e incluímos no nosso plano de negócios”. Ele informa que a empresa tem metas específicas e mede seus resultados, como redução em 21% na emissão de gases de efeito estufa e economia de energia de 11% nos seus processos. “Em parceria com a Akatu, conscientizamos 100 mil jovens sobre consumo consciente e como cumprir o ciclo do material até a reciclagem. Desenvolvemos a plataforma bluevision para divulgar conteúdos a respeito do tema e fomentar iniciativas.”

Conhecido como Agenda 2030, o plano de ação traçado internacionalmente pela ONU busca incentivar políticas sustentáveis atravessando todas as dimensões que constituem a vida humana, como acesso à saúde, educação, inclusão, segurança, proteção ambiental, mobilidade urbana, higiene pessoal, equidade de gênero e outras, considerando a erradicação da pobreza como o maior desafio e requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável.

Alexandre Schneider, secretário municipal de educação, reflete que o ideal seria termos planos de governo inteiramente baseados nas diretrizes dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). “A fragmentação e a burocracia são grandes desafios. Temos que ter humildade para entender que o diálogo deve ser permanente. Às vezes a gente ouve coisas que não gosta, mas temos que construir da forma mais coletiva possível.”

17 Objetivos, 169 Metas

O documento da ONU foi firmado em 2015 distinguindo prioridades e traçando orientações para que os países signatários atinjam conquistas ao longo de 15 anos. O eixo de ações ressalta os conceitos dos cinco Ps: Pessoas (enfoque social), Planeta (enfoque ambiental), Prosperidade (economia e renda), Paz (acordos entre nações) e Parceria. Haroldo nota que este último talvez seja o principal item, dado o grau de exigência das 169 metas traçadas pelo documento. Ações isoladas, pontuais ou individuais não terão a projeção necessária. Segundo ele, é importante buscar parceiros, construir em conjunto e ousar. “Se o mundo não for melhor para todas e todos em 2031, não vai ser melhor para ninguém. Esse é o principal chamado.”

“Se o mundo não for melhor para todas e todos em 2031, não vai ser melhor para ninguém. Esse é o principal chamado.” - Haroldo Machado Filho, assessor sênior do programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil

Para Marcelo, a competição, embora presente, já começa a ser permeada por ações de colaboração no setor químico e petroquímico, sobretudo no tema da sustentabilidade e conservação ambiental, principalmente por causa das parcerias. “O pacto global é fundamental para gerir a coalizão no sentido da colaboração.” A diretora executiva do Instituto Alana, Carolina Pasquali, concorda que será preciso conciliar divergências para avançar. Ela diz que apostar na criatividade é fundamental para encontrar maneiras de criar uma narrativa que fale sobre o mundo que queremos construir por meio de filmes, jornalismo e histórias. “A arte e a cultura nos sensibilizam e desarmam, ajudam a ver o que não se enxerga quando olhamos só para as planilhas. Precisamos olhar com o coração, o corpo e com leveza.”

Abertura Virada Sustentável. Crédito: Camila Caringe/bluevision
Marcelo Arantes e Carolina Pasquali: conciliação e parcerias

Mobilizando investidores

Os investimentos em ações de responsabilidade social e ambiental, sejam de iniciativas privadas ou que partam de organizações da sociedade civil, muitas vezes carecem de recursos financeiros para avançarem. Ricardo Voltolini comenta que os investidores eram atores pouco comentados na cadeia que fomenta a sustentabilidade, já que não necessariamente participam nos processos, embora viabilizem projetos importantes que, sem eles, dificilmente encontram possibilidade de realização. “Este ano, com a carta do Larry Fink, eu tenho notado um movimento grande de sensibilização para os temas de sustentabilidade.”

Presidente executivo da BlackRock, Larry Fink é um dos investidores mais influentes do mundo e tem mais de US$ 6 trilhões, ou quatro vezes o PIB brasileiro em 2017, sob sua responsabilidade. Fink também tem, por tradição, enviar cartas a líderes de outras empresas comentando tendências. Em janeiro deste ano, a tônica foi sobre a importância dos investimentos sociais e a atenção para a revisão de conceitos como “resultado”, “lucro” e “risco”.  

"A sociedade exige que as empresas públicas e privadas tenham uma missão social para prosperar. (...) As empresas não devem apenas obter um bom desempenho financeiro, mas fazer com que bons resultados contribuam positivamente para a sociedade", escreveu Fink. Denise Hills, presidente da Rede Brasileira do Pacto Global e superintendente de sustentabilidade do Itaú-Unibanco avalia que o posicionamento de Fink, neste momento, mudou o mundo. “A competição entre as empresas está chegando num momento de colaboração, de encontrar interesses comuns que se revertam em bens coletivos para a sociedade. Não participar desse movimento constitui uma nova noção de risco para os investidores.”