Resíduos para reciclagem. Crédito: Mali Maeder/Pexels

Mecânica, energética ou química? Como os tipos de reciclagem funcionam

Tudo começa na coleta e separação adequada do lixo, mas o caminho para reaproveitar os resíduos da melhor forma possível varia. Entenda a importância de cada passo na cadeia da reciclagem para garantir que materiais valiosos não acabem no aterro sanitário

 indústria mundial da reciclagem entra em uma nova fase em 2018. Diante da decisão da China de proibir a importação de certos tipos de resíduos sólidos, muitas nações que dependiam do país asiático para se desfazer do próprio lixo precisarão procurar alternativas. A nova lei chinesa proíbe a compra de 24 tipos de resíduos, que podem ser agrupados em quatro categorias: plásticos, papel não triado, escória de certos minérios e refugos têxteis. A medida faz parte do plano nacional chinês de combate à degradação ambiental. Com isso, várias usinas de reciclagem foram fechadas, especialmente nas províncias de Cantão, Zhejiang e Shandong, e em regiões costeiras com importantes portos de entrada de mercadorias - inclusive de lixo.

Essa mudança no mercado global de reciclagem representa um desafio e tanto para o plástico. Em 2016, segundo a base de dados Comtrade da Organização das Nações Unidas (ONU), a China importou 7,35 milhões de toneladas de plástico, quantidade que representa 55,3% do total mundial. Se forem contados os resíduos que entraram por Hong Kong, o número chega a 10,2 milhões de toneladas, quase 70% do total.

Todo o plástico tem potencial de ser reciclado, mas para a grande maioria dos países, a reciclagem ainda é um desafio. Nem todas as nações têm capacidade financeira para investir em tecnologias avançadas de reciclagem. No Brasil, por exemplo, a reciclagem está centralizada nos investimentos realizados pela iniciativa privada e segue a lógica do mercado: novos modelos de reciclagem são adotados quando as empresas enxergam potencial de retorno financeiro com a operação.

Em 2010, foi promulgado a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), mas seu resultado prático foi ínfimo. Um relatório produzido pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) reconheceu que apenas 12 estados brasileiros seguiram a política e fundaram seus planos para resíduos sólidos e que 60% dos municípios não dispõem de aterro sanitário adequado. Em 2015, o mesmo MMA afirmou que ainda existiam 3 mil lixões ativos no Brasil.

Hoje, o país recicla apenas 3% dos quase 80 milhões de toneladas de lixo produzidos - cuja perda econômica está estimada em R$ 120 bilhões por ano. O último grande investimento nacional para a reciclagem foi realizado em 2013, quando o governo federal destinou R$ 220 milhões para este fim. Pouco em comparação à ação das empresas. A Coca-Cola anunciou o aporte de R$ 1,6 bilhão para um programa de cinco anos com a finalidade de reaproveitar dois terços de todas as embalagens comercializadas no Brasil até 2020.

Coleta seletiva. Crédito: Christian Wiediger/Unsplash

Os três tipos de reciclagem

São três os principais tipos de reciclagem: mecânica, energética e química. Cada uma tem subdivisões com pequenas variações, mas entender essas categorias já dá uma ótima ideia de como acontece boa parte da reciclagem pelo mundo.

Também são três as etapas básicas de qualquer um desses principais tipos de reciclagem. São elas: a coleta e separação do resíduo, que é a segmentação dos resíduos por tipo de material e nível de limpeza; a revalorização do resíduo, a fase na qual o material já separado passa por um dos três processos listados acima e que o reverte para o estado de matéria-prima; e a transformação do resíduo, fase final em que essa matéria-prima volta a ser produto.

Reciclagem mecânica

A reciclagem mecânica é o método mais usado globalmente para dar novos usos aos resíduos, quaisquer que eles sejam. No caso dos plásticos, ela consiste em transformar, mecanicamente, esse material - seja ele oriundo de sobra industrial ou de descarte doméstico e comercial - sem alterar sua estrutura química, de forma que possa ser utilizado na produção de novos materiais. Hoje, o plástico reciclado dessa forma é usado para fazer novas embalagens, sacos de lixo, pisos, mangueiras, peças de automóveis, entre outros. Este é a tecnologia mais usada para as Poliolefinas (PE e PP).

reciclagem mecânica

Reciclagem energética

A reciclagem energética consiste em transformar o plástico em energia térmica e elétrica, aproveitando, por meio da incineração, o poder calorífico armazenado nesses materiais como combustível. A reciclagem energética é importante por diversificar a matriz energética e otimizar o espaço em cidades mais densamente povoadas e com poucas áreas livres para criação de aterros. É uma solução bem difundida na Europa e Japão, porém demanda investimento e participação do poder público por não ser economicamente sustentável.

Por outro lado, a reciclagem energética se estabeleceu como uma solução ambientalmente viável. Assim como os carros, as usinas de incineração de lixo para reciclagem energética usam catalisadores para reter as emissões poluentes. "A reciclagem energética era muito criticada por conta de suas emissões, mas isso é coisa do passado, ficou nos anos de 1970 e 1980. Hoje, já existem regras muito claras para que os equipamentos incineradores funcionem garantindo emissões mais amigáveis ao meio-ambiente", afirma Miguel Bahiense, presidente da Plastivida, o Instituto Socioambiental do Plástico.

reciclagem energética

Reciclagem química

A reciclagem química é o processo mais complexo dos três. Nela, os plásticos são reprocessados transformando sua estrutura química para utilização como matéria-prima de diferentes segmentos ou como insumo básico para a produção de novos produtos plásticos. No entanto, a reciclagem química é mais cara e requer grandes quantidades de plástico para ser economicamente viável.

De acordo com Miguel Bahiense, presidente da Plastivida, é cedo para falar no potencial da reciclagem química, até porque ela ainda está em desenvolvimento. "Ela talvez exista muito mais para propor soluções para algo que não é fácil de recuperar energeticamente ou mecanicamente do que para substituir as opções mecânica e energética”, diz Bahiense. “A reciclagem química ainda é incipiente, existe em laboratório, mas não chega a ser uma realidade plena. Ela é mais complexa e requer um desenvolvimento tecnológico maior", afirma.

reciclagem química

Para cada produto, um tipo de reciclagem diferente

Reciclagem. Crédito: Alfonso Navarro/Unsplash

Não existe um tipo de reciclagem melhor que o outro. A escolha ideal varia de caso a caso e depende, principalmente, do tipo de resíduo e das especificidades da economia local. A reciclagem energética, por exemplo, é muito usada nos países desenvolvidos, como os Estados Unidos. Já a reciclagem mecânica é mais praticada em países em desenvolvimento, como o Brasil.

Para Bahiense, um dos maiores desafios da reciclagem é vencer a desinformação sobre os diferentes tipos, benefícios e efeitos. Fala-se, por exemplo, que a reciclagem energética vai substituir integralmente a mecânica e que essa substituição acabará com as cooperativas de catadores e, portanto, com milhares de empregos. "As pessoas acham que [com a adoção da reciclagem energética] as prefeituras não vão mais precisar de coleta seletiva e que tudo será enviado para incineração. Mas isso não é sequer possível, dada a carga de orgânicos no lixo - seria inviável econômica e tecnicamente em boa parte dos países", explica.

As três técnicas são, na verdade, complementares. "Nenhuma delas recicla 100% do lixo. Mesmo quando se tem eficiência na triagem e na coleta, não dá para garantir que todos os plásticos estarão limpos e prontos para reciclagem mecânica”, diz Bahiense. “A fração que não é reciclada mecanicamente pode ser reciclada energeticamente. Por isso esses processos são complementares", afirma.

O exemplo alemão

Reciclagem. Crédito: Paul Baden/Unsplash

Coordenador do Business Unit for Systemic Risks no Fraunhofer ISI (sigla para “Institute for Systems and Innovation Research”), um instituto alemão de pesquisa independente, Luis Tercero Espinoza afirma que a Alemanha é um bom exemplo de como os tipos de reciclagem podem se complementar. Segundo o Fórum Econômico Mundial, o país europeu tem as melhores taxas de reciclagem municipal do mundo: cerca de 56,1%. "Diferentes tipos de reciclagem são praticados na Alemanha. Muitos produtos passam por tratamento mecânico para depois seguirem para o tratamento químico. Os produtos variam de papel e papelão a veículos em fim de vida útil", esclarece Espinoza.

Neste sentido, o procedimento mecânico é a primeira etapa de um processo que pode ser complementado por outros tipos de reciclagem. "Por exemplo, quando um veículo é reciclado, todos os fluidos são removidos e descartados como primeiro passo; a bateria de chumbo-ácido é removida para reciclagem separada e, só então, o veículo é triturado. O resíduo resulta em várias frações de aço, metal não ferroso, minerais, e uma pequena proporção contendo plásticos, têxteis e outros materiais. Um desafio técnico na reciclagem mecânica é reduzir as perdas das chamadas matérias-primas críticas, como metais preciosos", relata Espinoza. É nesta etapa que o método da reciclagem química é o mais adequado e complementa toda cadeia.

O desafio da coleta seletiva e da informalidade

Coleta de resíduos. Crédito: Jilbert Ebrahimi/Unsplash

Hoje, um dos principais desafios na Alemanha e no mundo todo é o de ampliar a coleta seletiva. “Os componentes eletrônicos e outros materiais específicos tendem a permanecer nas prateleiras das casas ou serem exportados como usados ou não declarados”, analisa Espinoza. Para ele, é fundamental que a reciclagem deixe de ser informal e tenha toda sua cadeia registrada em canais formais. Isso, acredita, torna o processo mais eficiente e verdadeiramente sustentável, também econômica e socialmente.

Para Miguel Bahiense, no Brasil a necessidade de vencer a informalidade é ainda maior. “Quando a reciclagem começou aqui, ela apareceu com caráter muito social. É o exemplo do catador de latinha de alumínio que, por uma questão social, viu nisso um complemento de renda. Mas não é um emprego com carteira assinada, não há estabilidade e muitas vezes são submetidos a condições insalubres”, explica.

Trabalhadores informais compõem a grande maioria da cadeia de reciclagem no país. Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, há 800 mil profissionais da categoria em atividade, que são responsáveis pela separação de cerca de 90% de todo o lixo reciclável no Brasil, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

A regulamentação e profissionalização dos trabalhadores e da cadeia de reciclagem pode, também, colaborar economicamente com o país. Estima-se que o Brasil produz anualmente 100 mil toneladas de lixo eletrônico, recheado de metais nobres. Recuperando elementos como ouro e cobre presentes nestes resíduos, o resultado econômico poderia chegar a R$ 2,5 bilhões. Em escala global, os números impressionam ainda mais: todo ano, a humanidade gera 45 milhões de toneladas de lixo eletrônico, mas recicla apenas 20% - ou seja, uma indústria trilionária pouco explorada.

Para isso, o movimento deve começar da base: o foco precisa estar na coleta seletiva. "O xis da questão é você garantir 100% de coleta seletiva. Um dos grandes gargalos, senão o maior, do processo de reciclagem é a coleta seletiva adequada”, afirma Bahiense. E o primeiro passo é separar o resíduo reciclável do resíduo orgânico dentro de casa.

O plástico e o lixo: reutilização ou reciclagem?

Reutilização de resíduos. Crédito: Roman Kraft/Unsplash

Plástico, vidro, alumínio e demais resíduos não biodegradáveis levam a fama de vilões do lixo, no entanto, a maior parte dos resíduos nos aterros brasileiro é orgânico. “É preciso o esforço também para evitar o desperdício de comida. Hoje, de todo o lixo domiciliar produzido, 70% é resto de comida [segundo os dados do MMA, os “resíduos orgânicos correspondem a mais de 50% do total de resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil”]. É um resíduo que, se evitado, colabora para não sobrecarregar a cadeia de tratamento do lixo, incluindo a logística, o transporte, o destino final e o próprio processo de reciclagem”, conclui o presidente da Plastivida.

A reciclagem, portanto, não pode estar deslocada de outras atitudes igualmente sustentáveis. Além de evitar o desperdício de comida, promover a reutilização de materiais é uma medida fundamental.

A reutilização não exige nenhuma transformação no estado físico, químico ou biológico do produto, apenas mudança de comportamento: por exemplo, usar um vidro de geleia como recipiente para um molho caseiro ou aproveitar o pote plástico de sorvete como um tupperware, e até mesmo tomar água ou café mais de uma só vez em copos descartáveis.

Quando o produto ou a embalagem não tem mais serventia é que a reciclagem entra em jogo - e a consciência diante da necessidade de promover coleta seletiva precisa prevalecer. O importante é estabelecer uma mentalidade verdadeiramente sustentável e um comportamento que dê conta de promover o não desperdício, a reutilização de materiais e, claro, a reciclagem de resíduos.