Incêndio em Portugal. Crédito: Micheal Held/Unsplash

Forte onda de calor atinge hemisfério norte e causa dezenas de mortes

Temperaturas recorde no Japão, Europa e América do Norte resultam em incêndios florestais e afetam a saúde de milhões de pessoas. Para a Nasa, 2018 já é um dos anos mais quentes da história

Nas últimas semanas, o verão do hemisfério norte - entre 21 de junho e 23 de setembro - registrou temperaturas altíssimas na Ásia, Europa e América do Norte. As fortes ondas de calor foram responsáveis por secas, falta de abastecimento de água, incêndios florestais, problemas de infraestrutura urbana e até por dezenas de mortes - Grécia e Japão foram os países mais afetados.

Medições da Nasa apontam que 2018 já é um dos anos mais quentes da história. Mesmo antes do verão do hemisfério norte, entre os meses de março e maio, a média foi de 0,87 graus Celsius mais alta que a média do planeta entre 1951 e 1980. E considerando somente os meses de junho e julho, apenas 2016 e 2015 apresentaram temperaturas mais altas que este ano.

Danos causados pela onda de calor

De ponta a ponta, a Europa registrou temperaturas altas e graves consequências às intensas ondas de calor. No extremo oeste europeu, Portugal sofreu com um grande incêndio florestal na região montanhosa de Monchique, ao sul do país - devido ao excesso de fumaça, mais de 20 pessoas foram levadas a hospitais e dois vilarejos inteiros tiveram que ser desocupados. Os termômetros bateram até 46°C por lá e também na vizinha Espanha, onde o calor resultou em três mortes.

Na França, reatores nucleares foram fechados para evitar excesso de consumo de água e eventuais falhas de funcionamento resultantes do superaquecimento. Ao lado, na Alemanha, a temperatura média do verão está 3,6 graus acima da média registrada entre 1961 e 1990. Até mais ao norte, a Holanda teve que fechar algumas estradas cujo calor derreteu o asfalto e a Suécia viu o verão mais quente dos últimos 250 anos.

No entanto, nenhum país europeu sofreu tanto quanto a Grécia. A falta de chuvas, a vegetação seca e a temperatura de até 47°C causaram incêndios que destruíram florestas e levaram 91 pessoas a óbito apenas até o fim de julho. Trata-se do verão mais devastador do continente desde 1900.

Na América do Norte, a província de Quebec, no Canadá, também enfrentou queimadas. Nos Estados Unidos o prejuízo foi ainda maior: o fogo consumiu um território do tamanho de Los Angeles de matas preservadas - em Palm Springs, a temperatura recorde do ano atingiu 50°C.

Incêndio na Califórnia. Crédito: Marcus Kauffman

E mesmo com uma avançada estrutura para enfrentar problemas naturais, o Japão vê sua população sofrer com as altas temperaturas. Com média de idade elevada e muitos idosos, o país está com seu sistema de saúde operando no limite: mais de 70 mil pessoas procuraram serviços de emergência e cerca de 140 japoneses morreram devido ao extremo calor.

Onda de calor extrema é resultado das mudanças climáticas globais

Os últimos quatro anos foram os mais quentes já registrados pelo homem e a perspectiva é de que a temperatura siga crescendo: de acordo com artigo publicado na revista científica Nature, os próximos cinco anos apresentarão temperaturas acima do normal - mais altas, inclusive, daquilo que havia sido previamente calculado com base nas consequências do aquecimento global. O estudo afirma também que os oceanos podem sofrer "um aumento dramático de até 400%” de probabilidade para eventos extremos de superaquecimento entre 2018 e 2022.

“O aquecimento global é um agravante deste fenômeno que são as ondas de calor, ou heatwaves”, explica Andrea Santos, secretária executiva e pesquisadora do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC). “Há uma variabilidade natural do clima, no qual ondas de frio ou de calor são normais. Mas, como consequência das mudanças climáticas, a tendência é que sejam mais frequentes, mais intensas e mais severas”, conclui.

O aumento das temperaturas ao redor do planeta se tornam proporcionalmente mais perigosas quanto mais intensas forem as ações humanas não sustentáveis, de acordo com a análise do PBMC: o consumo excessivo de água e o desmatamento, por exemplo, agravam suas consequências. “E os países mais pobres, caso da Grécia no hemisfério norte, são os mais vulneráveis”, explica Andrea Santos.

No hemisfério sul também há riscos. A cidade de São Paulo, por exemplo, passa por um longo período de clima seco, resultado da mudança dos padrões de chuva causados pelas mudanças climáticas.

De acordo com as conclusões do grupo de cientistas ingleses, franceses e holandeses que escreveram o artigo da Nature e dos pesquisadores brasileiros do PBMC, é fundamental cumprir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, de 2015, que propõe um aumento máximo de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais na temperatura global. Atualmente o planeta está 1,1°C mais quente e os índices de emissão de carbono voltaram a subir.