Projeto de empreendedorismo sustentável. Crédito: RawPixel/Unsplash

Empreendedorismo sustentável é ótimo negócio para o bolso e o planeta

Pesquisas mostram que o mercado tem cada vez mais espaço para soluções e produtos sustentáveis; tanto grandes ideias quanto medidas simples geram economia de recursos e ajudam a vender mais

Grandes ideias, muitas vezes, nascem de observações cotidianas. Mariana Vasconcelos via seu pai dedicar, diariamente, preciosas horas de trabalho no campo juntando informações para escolher o momento ideal para irrigar suas plantações. Aos poucos, Mariana começou a imaginar uma maneira de automatizar este processo e, assim, dar mais tempo livre ao pai.

Desse insight simples, fruto de observação pura, nasceu a startup Agrosmart, considerada uma “agrotech”. O mercado para este tipo de empresa, que cruza tecnologia e ganhos em produtividade agrícola, quadruplicou entre 2015 e 2017 e hoje movimenta cerca de R$ 15 bilhões anuais só no Brasil. “E há muito espaço para expansão”, diz Maria Augusta Pimentel Miglino, consultora de cultura empreendedora no Sebrae-SP. “Vai ser um ramo de atuação importante no país”.

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Criar novas alternativas para o trabalho rural é uma necessidade econômica de primeira ordem. E, também, uma prioridade na agenda do desenvolvimento sustentável. De acordo com dados da ONU, o mundo precisa aumentar a produtividade de alimentos em 70% para garantir a segurança alimentar das 9,6 bilhões de pessoas que irão habitar o planeta em 2050.

Mas não basta só produzir mais.

É preciso produzir de forma mais eficiente e sustentável do ponto de vista da utilização dos recursos naturais. Hoje, 70% de toda água doce da Terra é usada pelo agronegócio. Desenvolver soluções para reduzir o consumo de água, energia e solo se tornam parte integrante do trabalho de qualquer empresa, mesmo aquelas que jamais sonharam em ser grandes ou sustentáveis.

A tecnologia desenvolvida pela Agrosmart, em especial, usa um sensor que, uma vez instalado no solo, passa a fazer medições de umidade a cada 15 minutos. Ao final de um ano, são 17 mil medições que ajudam o produtor a definir, por conta própria ou automaticamente, quanta água diferentes zonas de suas plantações precisam para vingar. A tecnologia reduz o consumo de água para irrigação em 60% e o uso de energia em 40%. E o melhor de tudo: aumentando a produtividade em 20%.

Startups e sustentabilidade. Crédito: RawPixel/Unsplash

Sustentabilidade faz startups crescerem

“A ideia de uma startup é ‘fazer acontecer’ com viés de ‘qual problema ela resolve’, apresentando ou melhorando uma solução de forma inovadora”, diz Luís Gustavo Lima, chief startup officer da aceleradora ACE. “O ecossistema de startups tem grande interesse em resolver problemas ambientais e, também sociais e econômicos, com geração de empregos, treinamento, educação e geração de recursos para a sociedade”, conclui.

A percepção do mercado é de que há, de fato, espaço para o empreendedorismo com viés sustentável. A Agrosmart é um exemplo: já recebeu aporte financeiro de R$ 2,5 milhões e prevê aumentar o faturamento em oito vezes até o fim de 2018. Outro caso é o investimento do TPG - um dos maiores fundos do mundo, com US$ 45 bilhões de ativos sob sua gestão e que investiu no Uber e no Airbnb antes de todo o mercado - na agrotech de gestão de recursos agrícolas Solinftec, de Araçatuba.

Além dos robustos investimentos de fundos internacionais, as startups dedicadas a promover desenvolvimento sustentável também encontram apoio em programas de grandes empresas ou de organizações sem fins lucrativos. Companhias identificadas com sustentabilidade, como Braskem e Natura, têm seus próprios projetos de incentivo: o Natura Startups procura desenvolver inovação e sustentabilidade focada em soluções de biotecnologia e o Braskem Labs tem o mesmo objetivo ligado ao uso da química e do plástico.

Já o Amazônia Up, do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, na região norte do país, tem o propósito de gerar “negócios inovadores na Amazônia com foco no setor rural e no uso sustentável dos recursos naturais”. Segundo a organização do programa, há espaço para soluções em pecuária e pesca sustentáveis, sistema de agroflorestas, agricultura orgânica, economia criativa, turismo e gastronomia.

Pequenas empresas e sustentabilidade. Crédito: RawPixel/Unsplash

Sustentabilidade e pequenas empresas

Um levantamento realizado pelo Sebrae-SP em abril de 2018 consultou 1,7 mil micro e pequenas empresas - categoria composta por CNPJs com faturamento bruto de até R$ 4,8 milhões - e constatou que, nos últimos 12 meses, 35,7% delas tomaram alguma medida para reduzir o impacto de suas ações no meio ambiente. Dentre as empresas com iniciativa sustentável, 48,7% tiveram redução em seus custos. Já entre as empresas que não realizaram nenhuma ação nesse sentido - ou 58% do total - a principal justificativa para não agir foi a percepção de que seus negócios não têm impactos ambientais.

Para Maria Augusta, do Sebrae, a sociedade brasileira e outras sociedades em desenvolvimento, bem como seus respectivos ambientes de negócios, compreendem a importância da ação ecológica, mas ainda prioriza resultados econômicos. Nesse sentido, as medidas sustentáveis mais populares são as que, antes de mais nada, reduzem custos. Assim, a busca por eficiência energética e hídrica e a destinação apropriada de resíduos, com objetivo de reduzir ou eliminar o risco de multas, são as mais populares.

“O que convence o cliente ou a empresa é o quanto vai economizar. A economia precisa ser maior que o investimento para ter mais apelo para muitos desses empreendedores”, explica Maria Augusta.

De acordo com a pesquisa, as principais práticas sustentáveis são uso da coleta seletiva de lixo (45,9%), a troca de lâmpadas por modelos mais econômicos (27,5%), o controle do consumo de papel (27,3%), a reciclagem de pilhas, baterias e pneus (21,2%), o uso de materiais reciclados (19,2%), o controle do uso da água (17,2%) e o controle do uso de energia elétrica (16,9%).

“Percebo um grupo heterogêneo de empresas. Entre as pequenas, há muitas realmente preocupadas, mas que não conseguem adotar as medidas necessárias porque isso implica em custos. É o caso das certificações [como a ISO 50.001, a LEED, a AQUA e outras], que são muito onerosas para empresas de pequeno porte”, afirma Maria Augusta.

Este panorama indica que o fator econômico é o maior obstáculo para que empreendedores invistam em ações sustentáveis. Mas já há evidências de que esse investimento dá retorno.

Na leitura da consultora do Sebrae-SP, há dois diferentes perfis de comportamento de empresas que buscam o desenvolvimento sustentável. Um deles é aquele que move startups como a Agrosmart: tem DNA sustentável no core de suas atividades. Ou seja, a empresa já nasce com a sustentabilidade como parte fundamental do negócio.

O segundo perfil identifica empresas que atuam em negócios tradicionais, e cujas medidas sustentáveis precisam são incorporadas no dia a dia de suas atividades. Para elas, a busca e a conquista de certificações que provam a preocupação com práticas como o “fair trade”, por exemplo, ou a compensação de carbono, são fundamentais. Essas mesmas empresas também costumam ser signatárias de acordos internacionais, como o Pacto Global pelo cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

A busca pela certificação de fornecedores é outro objetivo desse tipo de organização. Por fim, há um esforço coordenado de posicionamento de marca com objetivo de gerar mais valor a seus produtos e à própria marca. “A preocupação maior é de estar em dia com a lei. Depois, sim, algumas empresas constroem reputação em cima disso”, conta Maria Augusta.

Consumidor prefere produtos sustentáveis. Crédito: Tim Mossholder/Unsplash

Consumidor já valoriza produtos sustentáveis

Já é uma tendência irreversível a preocupação do consumidor com produtos ecologicamente corretos. O levantamento global Environment Research, publicado em 2017 pela empresa de embalagens Tetra Pak, ouviu 6.500 pessoas de 13 países. No mundo inteiro, 85% dos entrevistados acreditam que as questões ambientais devem ganhar mais relevância nos próximos cinco anos. No Brasil, o índice foi ainda maior, chegando a 95% dos 500 entrevistados.

“O movimento ainda é pequeno, mas vejo novos negócios surgindo e consumidores mais conscientes. Existe um espaço e o público vem crescendo”, observa Maria Augusta. Este movimento que a consultora do Sebrae-SP cita está além do consumo: é cultural.

O estudo Estilo de vida sustentável no contexto brasileiro, realizado pelo Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável em parceria com a agência Havas (2015), comprova que os brasileiros estão preocupados em relação ao risco do consumo excessivo. A pesquisa mostra que 84% dos entrevistados afirmam que o progresso não deve significar mais consumo, mas sim um consumo melhor. E mais: 75% deles entendem que o consumo em excesso coloca o planeta em risco e afirmam que gostariam de viver em uma sociedade em que as pessoas compartilhassem mais e possuíssem menos.

Essa preocupação tem reflexos no dia a dia das pessoas. Na pesquisa Environment Research, 48% dos brasileiros consultados garantem fazer coleta seletiva e 56% deles afirmam que a motivação para comprar produtos sustentáveis é preservar o meio ambiente para as próximas gerações. Mais: para 31% deles, isso já é parte de seu estilo de vida.

No Brasil, 47% dos consumidores procuram selos de certificação sustentável quando compram bebidas - acima da média mundial de 42% - e 81% deles consideram muito relevante a presença destes selos na embalagem como sinal de que o produto comercializado utiliza matéria-prima de fonte renovável.

Na percepção do mercado, os conceitos de alimentação orgânica, produção de bens gerados a partir do comércio justo e serviços ligados à economia criativa já dão ótimos resultados. E os consumidores avançam no rompimento da barreira que mais os afastava de mercadorias ambientalmente responsáveis: agora, apenas 41% deles consideram o custo um problema; quase 25% menos que os registrados em 2015.

“Empresas mais sustentáveis são melhores avaliadas pelo consumidor. É uma estratégia de negócio, é uma forma da empresa se manter em pé e dar lucro, ou seja, uma questão de sobrevivência”, sentencia Luís Gustavo, da ACE.

Tendências para mercado da sustentabilidade. Crédito: Gemma Evans/Unsplash

As tendências de crescimento para o mercado da sustentabilidade

Em 2017, o Sebrae publicou o Estudo de Tendências de Sustentabilidade para Pequenos Negócios, que aponta seis rumos para o empreendedorismo sustentável. Trata-se de um modelo para incentivar “micro e pequenas empresas a olhar para seus negócios e sua cadeia de valor para vislumbrar como poderiam contribuir com os 17 ODS”, afirma o documento.

O estudo identifica que o pilar social do tripé do desenvolvimento sustentável deve ser olhado com atenção, sobretudo em relação à diversidade. A análise cita que investir em negócios voltados para o público LGBT, população negra e pessoas com deficiência pode ser uma vantagem competitiva. O relatório ainda informa que, no mundo todo, o mercado LGBT movimenta R$ 150 bilhões, sendo R$ 418 milhões apenas no Brasil. E a soma da produção resultado do trabalho da população negra brasileira movimenta, anualmente, mais de R$ 1 trilhão na economia, sendo que, hoje, metade dos proprietários de negócios no Brasil são negros.

O futuro do desenvolvimento sustentável está na mão das pessoas. Seja em negócios social, econômica e ambientalmente corretos, seja com a participação mais engajada como consumidor, somos nós que podemos fazer a diferença para o planeta do futuro.

Confira, abaixo, outras três temáticas destacadas no estudo “Estudo de Tendências de Sustentabilidade para Pequenos Negócios”:

Economia colaborativa

Hospedagem, compartilhamento de veículos, transações financeiras peer-to-peer e plataformas de streaming de música e vídeo; devem movimentar US$ 335 bilhões por ano em 2025.

Economia circular

Extração de recursos, processamento do material, fabricação, uso e gestão de resíduos, que podem retornar a um novo ciclo produtivo via reutilização, remanufatura ou reciclagem.

Cidades sustentáveis

Bioeconomia, produção sustentável de alimentos, alternativas energéticas limpas e uso de engenharia genética para soluções em saúde.