MWC acontece em Barcelona. Foto: Divulgação

Como a telefonia móvel pode ajudar o desenvolvimento sustentável

Relatório da GSMA, entidade que reúne as maiores operadoras de telefonia móvel do mundo, mostra como a conectividade é importante para alcançar os 17 ODS da ONU.

Em fevereiro de 2016, durante a Mobile World Congress (MWC) - a maior feira de
tecnologia da atualidade que acontece, anualmente, em Barcelona, na Espanha -, ​​o setor de telefonia móvel se comprometeu, publicamente, a trabalhar pelo cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Desde então, os trabalhos da MWC no sentido de contribuir com a agenda dos ODS são reunidos em um documento, publicado pela primeira vez em 2017, chamado “Relatório de Impacto da Indústria”.

O que são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Lançados em setembro de 2015, os ODS são um plano de 17 pontos elaborado para acabar com a pobreza, frear as mudanças climáticas e combater a injustiça e a desigualdade até 2030. Cada meta tem alvos específicos a serem alcançados e foi aprovada por unanimidade pelos 193 países-membros das Nações Unidas.

Nesse relatório, 300 companhias de telefonia ao redor do mundo prestam contas do que elas têm feito para contribuir com as metas de 2030. As análises no documento se baseiam em atividades executadas ou suportadas pela indústria móvel como, por exemplo, o uso de serviços de comunicação para estimular negócios locais e a geração de oportunidades de emprego para pessoas que vivem na pobreza, entre outros. Para cada ODS, é analisada a importância do benefício em determinada região, com uma pontuação de 0 a 100. Se uma ODS pontua 37,5 significa que a indústria está fazendo 37,5% do que poderia contribuir potencialmente para o cumprimento deste ODS.

Confira os principais resultados por região e por ODS.

Os impactos por região

A conectividade viabilizada pela telefonia móvel trouxe benefícios importantes no combate à desigualdade na América Latina, na promoção da paz e justiça no Oriente Médio, no enfrentamento dos desafios da universalização do saneamento nos Estados Unidos na produtividade e eficiência das empresas europeias. Veja como.

América Latina

Entre 2016 e 2017, quando o relatório mais recente da iniciativa foi divulgado, houve aumento de 39% para 51% no acesso às redes sociais na América Latina, o que contribuiu para o desenvolvimento do ODS 10 de reduzir desigualdades através da inclusão social e política. Embora recentemente estejamos vendo muito do lado ruim das redes sociais, é inquestionável que, com a ampliação do acesso à elas, os cidadãos costumam encontrar causas com as quais se engajar e pessoas com quem se envolver para mudar suas realidades para melhor.

Oriente Médio

Já no Oriente Médio, houve aumento de 70% na velocidade de conexão no mesmo período, mudança fundamental para o cumprimento do ODS 16, de promoção da paz, justiça e igualdade social. Em países da região, como a Síria, os smartphones com conexão veloz à internet têm sido usados por refugiados para encontrar passagens de segurança para países vizinhos e para facilitar a difícil comunicação entre famílias e amigos em zonas de guerra. Além disso, aplicativos móveis também vem sendo usados para fornecer soluções de saúde e educação para os que fogem das regiões de conflitos.

Estados Unidos

Em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, houve mudanças importantes no sentido do cumprimento da ODS 6, de garantir água potável e saneamento a todos, e da ODS 14, de proteger a vida na água. Ambos os objetivos se beneficiam de maneira importante das redes de dados e telefonia móvel. Sensores sem fio nas redes de abastecimento podem melhorar a eficiência de oferta e demanda, identificando vazamentos e registrando melhor o comportamento de consumo, por exemplo. Estudos nessas regiões mostraram que os chamados “medidores inteligentes” - que monitoram o fluxo de consumo e se comunicam com a distribuidora - podem reduzir o uso de água em mais de 15%.

Europa

Na Europa, por sua vez, mais de 25 mil pequenas e médias empresas começaram a usar internet móvel desde 2016 - isso equivale a quase 65% das empresas. O smartphone vem sendo cada vez mais usado para impulsionar melhorias de produtividade e promover o crescimento mais inclusivo, contribuindo para o ODS 10, de redução das desigualdades.

Homem tira foto de obra de arte em homenagem aos ODS. Foto: Divulgação
Homem tira foto de obra de arte em homenagem aos ODS. Foto: Divulgação

Os impactos por ODS

Além de trazer recortes por região, o “Relatório de Impacto da Indústria” também destaca as contribuições da indústria da telefonia móvel para o cumprimento de ODS específicos. Segundo o levantamento, cinco ODS foram os que mais se beneficiaram da conectividade e fluxo de dados viabilizados pela indústria.

ODS 1: Erradicação da pobreza

A telefonia móvel cresceu de 58% para 61% nos países em desenvolvimento, enquanto a cobertura 3G saltou de 74% para 79% de 2016 para 2017, chegando a mais de 340 milhões de pessoas. Isso impacta de forma direta o acesso a serviços financeiros, segundo o relatório. O chamado “dinheiro móvel”, usado em 92 países, permite que as pessoas transfiram valores via SMS de forma simples, segura e instantânea. Elas podem, então, “sacar” esses valores por meio de um agente, enviar dinheiro para outros usuários, pagar contas e comprar mercadorias em lojas.

O M-Pesa, no Quênia, lançado em 2007, foi o primeiro serviço a demonstrar o potencial da tecnologia do "dinheiro móvel" em mercados emergentes. Essa inovação está agora presente em 10 países da África subsaariana e tem cerca de 30 milhões de usuários ativos.

ODS 3: Saúde e bem-estar

A cobertura da telefonia móvel pode ter impacto importante na saúde e bem-estar de uma região. Nesses últimos anos, houve um sem número de epidemias cujo monitoramento dependeu, fortemente, do tráfego de dados via redes de telefonia móvel. Trabalhados com técnicas do Big Data, esses dados foram usados, de forma inédita, para mapear o fluxo de pessoas em áreas afetadas pelas epidemias. Esses informações foram, então, usadas por organizações de saúde pública para responder com mais eficácia à dispersão das doenças.

Os impactos da melhoria na cobertura não se limitam às situações extremas, como a das epidemias. No Brasil, o tratamento de pacientes crônicos têm se beneficiado desse canal de comunicação, como mostra a AxisMed. Um dos serviços prestados pela empresa monitora, de forma remota e usando a cobertura da telefonia móvel, dados biométricos de dispositivos conectados aos pacientes. Esses dados são, então, transmitidos para profissionais médicos que supervisionam seus tratamentos.

Os equipamentos são capazes de monitorar a glicose no sangue, pressão arterial e outras métricas, dependendo da condição do paciente. Estima-se que hoje, os casos crônicos representam cerca de 40% dos custos de saúde no setor privado - e a perspectiva é de alta, com o envelhecimento da população.

ODS 5: Igualdade de gênero

Outro compromisso do setor de telefonia é assegurar que mais mulheres estarão conectadas à rede até 2030, particularmente nos mercados em desenvolvimento. Segundo o relatório, foram quase 100 milhões de novas assinantes de telefonia móvel e 160 milhões de novas assinantes de internet entre 2016 e 2017. As mulheres também estão usando o celular para acessar serviços que melhoram suas vidas, como o cuidado com a sua saúde e educação, sua ou a dos seus filhos. Além disso, um estudo de referência usado no relatório e realizado em 11 países de baixa renda apontou que 68% das mulheres se sentem mais seguras com um telefone celular.

E não apenas isso: como metade dos consumidores em potencial no mundo são mulheres, acabar com a lacuna de gênero no uso de dispositivos móveis poderia aumentar o setor em US$ 170 bilhões - cerca de R$ 584 bilhões - até 2020. Ainda em 2016, a GSMA lançou a Iniciativa de Compromisso das Mulheres Conectadas por meio da qual as operadoras móveis assumiram o compromisso formal de reduzir a diferença de gênero em suas bases de clientes de dinheiro móvel e internet móvel até 2020.

Atualmente, 36 operadoras móveis da África, Ásia e América Latina assumiram 51 compromissos, que até agora abrangem mais de 2,5 milhões de mulheres.

ODS 9: Indústria, inovação e infraestrutura

Entre 2016 e 2017, houve um aumento de 41,6 pontos para 44,8. Os principais impulsionadores da melhora foram a ampliação e o barateamento da cobertura de internet móvel. No período, a despesa com um plano médio de 500MB de internet, que representava 5% do PIB per capita nos países desenvolvidos, passou para 4%. Nos países em desenvolvimento, esse mesmo índice caiu de 17% para 11%. Mais: 45 milhões de novos usuários foram incluídos na base de pessoas conectadas à internet.

Na área rural da Tanzânia, três operadoras assinaram uma carta de acordo para implementar o 3G de forma piloto - usando a tecnologia de base movida a energia solar - e testar um acordo de roaming nacional tripartido, o primeiro desse tipo na África. A GSMA apoiou a elaboração do acordo e coordenou o esforço operacional para implementar os locais pilotos e assegurar uma divulgação das informações entre as partes. A implementação permitiu a cobertura de banda larga 3G pela primeira vez para 50 mil tanzanianos.

ODS 13: Ação contra a mudança global do clima

O aumento na cobertura de rede e a qualidade dos serviços foi o principal impulso no cumprimento do ODS 13, que trata das ações de combate às mudanças do clima. O desenvolvimento da telefonia móvel dá mais agilidade em questões relacionadas aos desastres naturais, por meio da comunicação de emergência e de aviso prévio. Como no caso das epidemias, o uso de Big Data também pode fornecer informações críticas para acompanhar os movimentos das populações antes e durante as emergências, melhorando assim o planejamento dos governos.

Inovações em logística inteligente que fazem uso da internet podem permitir fluxos mais eficientes, evitando o congestionamento ou prevendo a necessidade de novas infraestruturas de transporte. Em 2016, na Noruega, a Telia lançou um aplicativo para rastreamento e localização de estacionamentos. Segundo estimativas da Telia, todos os dias, um milhão de barris de petróleo são queimados mundialmente só por motoristas procurando um lugar para parar o carro. As soluções de estacionamento inteligentes reduzirão o tempo de condução desnecessário, diminuindo assim o tráfego e a quantidade de emissões diárias de veículos.