Banco de Tecido. Crédito: Camila Caringe/Bluevision

Banco de Tecido integra circuito Ecobairro na Virada Sustentável

Debate e coleta especial de resíduos e retalhos ajudam a conscientizar sobre o desperdício de materiais da cadeia têxtil. Atividades destacam pontos da região da Vila Leopoldina, em São Paulo

A China é, disparado, o maior produtor têxtil do mundo, responsável por 50% do total, muito à frente da Índia, segunda colocada, com 6% da produção. Dados do Instituto de Estudos e Marketing Industrial informam que o Brasil está em quinto lugar. Ainda assim, é o único país no ocidente a executar a cadeia completa, ou seja, sustenta desde a plantação de algodão e produção de fios e fibras, até confecções, varejos e desfiles de moda internacionais - informações da Associação Brasileira da Indústria Têxtil. Essa indústria é a segunda que mais emprega no país, perdendo apenas para alimentos e bebidas (juntos), com 1,479 milhão de trabalhadores diretos e 8 milhões indiretos, dos quais 75% são mão de obra feminina.

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) estima que o Brasil produza 170 mil toneladas de retalhos anualmente e o maior produtor é o estado de São Paulo, que responde por 30% da indústria têxtil brasileira. Do total de materiais produzidos pela indústria paulista, 80% é destinado aos lixões e aterros sanitários.

O Banco de Tecido, localizado na Vila Leopoldina, mostra um dos caminhos possíveis para minimizar o problema. “É essa a pergunta que nos acompanha: o que fazer com as sobras de tecido?”, conta Luciana Bueno, figurinista, cenógrafa, diretora de arte e fundadora do Banco. A origem do projeto data de 2014, quando ela se deu conta de que as sobras de sua matéria-prima já somavam na menos que meia tonelada. “O tecido é usado para produtos de cama, mesa, banho. Mas o maior problema está na cadeia da moda”, afirma.

A produção de tecidos e roupas impacta não só ambientalmente o planeta, mas também tem consequências severas do ponto de vista econômico e social. O diretor Andrew Morgan lançou em 2015 seu documentário The True Cost, que discute a cadeia de produção, distribuição, publicidade e desperdício, e também seu lado mais cruel desta indústria, seus casos de escravidão. Com salários baixos, carga horária pesada e condições precárias, 40 milhões de trabalhadores em todo o mundo comprometem suas vidas para sustentar a produção.

Plantações de algodão que recebem pesticidas afetam a saúde de agricultores e do meio ambiente. No entanto, a crescente produção de tecidos sintéticos, cuja produção é mais barata, fácil e rápida, impõe um novo problema na hora do descarte. 

Desafios e soluções

“70% de toda a fibra fabricada no mundo é sintética. Estamos falando de petróleo em forma de tecido. Se for 100% poliéster, você precisa tratar de um jeito. Se for 100% algodão, é outro trato. Com um tecido misto, não tem como separar os materiais no fim da cadeia”, analisa Luciana.

O Banco de Tecido não trabalha com resíduos nem retalhos, apenas com sobras: pedaços em boas condições e que tenham metragem para serem utilizados em outras produções. O Banco aceita trocas (permutas de um tecido por outro) e também a compra convencional. “Se você traz 10 quilos, por exemplo, vai gerar um crédito de 7 quilos para trocar por qualquer outro tecido da loja. 3 quilos é o que a gente cobra como taxa, que vendemos para monetizar o negócio. Hoje temos 900 correntistas”, explica.

A empreendedora avalia que, em três anos de atuação, o Banco já tenha recolocado na cadeia de produção 12 toneladas de tecido reaproveitável que estaria ocioso ou seria descartado. “Ainda é muito pouco, considerando que são 233 mil toneladas por ano de desperdício. A gente tem muito o que crescer”, analisa.

Lu Bueno. Crédito: Camila Caringe/Bluevision

Na Virada Sustentável, as atividades do Banco incluíram debate, horários alternativos e também a coleta de resíduos e retalhos em caráter educacional. Resíduos (roupas usadas, sujas, rasgadas, manchadas, tramas desfeitas) e retalhos (pedaços muito pequenos para serem incorporados a novas costuras) devem receber outro encaminhamento, como a reciclagem. A Retalhar, por exemplo, recebe roupas que caíram em desuso e trabalha com a trituração e desfibramento do tecido para outras aplicações. Já a Renovar recebe resíduos da indústria têxtil para transformar em outros produtos.

Depois de pesquisas a respeito da destinação correta e como transformar a questão em negócio, Luciana e os sócios encontraram um modelo misto (possibilita a permuta, além da compra), circular (recoloca na cadeia de produção tecidos saudáveis que estavam parados, aquecendo a economia e gerando empregos) e compartilhado (todo o estoque é feito pelas pessoas que usam e descartam tecidos na região atendida) que já atende também em Curitiba e Porto Alegre.

O que falta, então? “Dinheiro!”, responde imediatamente Luciana. “Ser empreendedora social no Brasil é difícil, não existem programas claros de apoio ao pequeno empresário. Para crescer é preciso investimento. O mercado pede iniciativas como esta. Como startup, precisamos aprender a dar o salto”, conclui.

Circuito Ecobairro

O Banco de Tecido está na programação da Virada Sustentável São Paulo pela atuação do Programa Permanente Ecobairro. Iniciado por Lara Freitas e Paullo Santos em 2005, o programa atende hoje três regiões da cidade: Vila Mariana, Pinheiros e Vila Leopoldina, mas também chegaram a Salvador, Manaus e Brasília. Em 2017, de olho na Agenda 2030 e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Organizações das Nações Unidas (ONU), o projeto se voltou profundamente para as iniciativas que poderiam se conectar e integrar populações locais a fim de promover o cotidiano individual e social mais saudável.

“Queremos despertar a força da comunidade e a clareza de que pode haver transformações para qualificar as relações entre pessoas, vizinhos e comércios”, destaca Lara. Após participar de um treinamento em ecovilas, Lara e Paullo sentiram a necessidade de trabalhar pela sustentabilidade urbana. Em fevereiro se consolidaram como Instituto Ecobairro Brasil e trabalham com recursos do Fundo Municipal de Meio Ambiente (FMMA), mas também com o edital internacional Municipalidades em Transição.

“Isso tudo é uma grande colaboração. A gente funciona como ponte para articular as pessoas e as iniciativas que, muitas vezes, estão isoladas”, explica Lara. Ela ressalta que, com a globalização, passamos a perceber o mundo em grande escala e perdemos a noção de como a localidade influencia nas experiências do dia a dia e nas escolhas corriqueiras, comprometendo a sustentabilidade de nossas ações. O circuito Ecobairro destaca 26 pontos importantes só na Vila Leopoldina. Entre as atividades estão a meditação do bairro, diálogos de praça, encontro de escolas, contação de histórias, plantio coletivo, brincadeiras de rua e, claro, as coletas do Banco de Tecido.