Agronegócio. Crédito: Danilo Cestonato/Unsplash

Agronegócio tanto produz quanto consome energia; entenda

Veja quanta energia é consumida pelo setor e saiba como ele tem contribuído com a produção de energia no Brasil e no mundo

De acordo com o Relatório Energy, Agriculture and Climate Change, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), os alimentos gerados pela cadeia agrícola consomem em torno de 30% da demanda mundial por energia. Com o contínuo crescimento populacional, a demanda por alimentação também se mantém crescente.

Até 2050, quando, segundo a ONU, a população mundial será de 9,7 bilhões, precisaremos de 60% mais alimentos para sustentar a humanidade. Atualmente, os sistemas de cultivo, transporte e distribuição de produtos agrícolas dependem fortemente de combustíveis fósseis para operar. A agricultura é impactada pelas mudanças climáticas, mas também pode ter papel fundamental nas estratégias de combate ao aquecimento global, fornecendo fontes de energia renovável e soluções para diminuir o consumo de combustíveis fósseis.

Para a FAO, a mudança é possível pela melhoria no acesso à energia, uso mais eficiente e aumento das fontes renováveis na agricultura, incluindo bioenergia sustentável a partir de sistemas agroalimentares (fabricação de alimentos e bebidas). Isso pode ter o benefício duplo de fornecer energia para a agricultura, aumentando a produtividade, enquanto limita as contribuições para o impacto no clima do planeta.

Segundo o Balanço Energético Nacional, conduzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o setor agropecuário brasileiro respondeu por 4% do consumo de energia no país em 2017, apresentando demanda menor do que todos os outros grandes setores da economia - indústrias 33,3%, transportes 32,5%, setor energético 10%, residências 9,6% e serviços 4,8%.

De acordo com dados do Ministério de Minas e Energia, o óleo diesel, combustível fóssil responsável por emissão de particulados e gases de efeito estufa (GEE), foi o energético mais consumido pelo setor agropecuário em 2017. Além disso, em seus processos produtivos, o custo da energia está entre os três principais itens que mais oneram o orçamento, por causa da necessidade de energia elétrica, combustível e, dependendo do setor, energia térmica.

Entre 1970 e 2016, as emissões brasileiras do setor agropecuário aumentaram 165%. Hoje, o setor agropecuário brasileiro é o terceiro maior emissor global, atrás apenas dos mesmos setores na China e Índia. Se considerarmos os últimos dez anos, as emissões aumentaram cerca de 40%, enquanto a produção agrícola aumentou cerca de 130% e a produção de carne bovina 180%. Em relação às emissões de GEEs, o Observatório do Clima informa que, em 2016, a agropecuária brasileira foi responsável por aproximadamente 22% das emissões brutas e 30% das emissões líquidas de GEE no país.

O principal componente emissor de GEE é o consumo direto e indireto de combustíveis fósseis, como nos processos de geração de eletricidade, de calor ou no setor de transporte. No setor agrícola, entretanto, as emissões decorrem prioritariamente do uso e manejo do solo, fisiologia de animais de rebanho (gases bovinos, principalmente) e também do tratamento e disposição de resíduos vegetais e animais, além do manejo de áreas nativas para sua transformação em agroecossistemas.

No longo prazo, mudanças climáticas podem comprometer de forma expressiva a atividade agrícola. A EPE aponta que, além da insegurança hídrica, a agricultura deve sofrer com o aumento das temperaturas atmosféricas, o que poderá colocar em risco a segurança alimentar da população brasileira e gerar resultados negativos na balança de pagamentos com a redução de produtos destinados à exportação.

Uma das alternativas para contornar os efeitos negativos do aquecimento global é a adoção do processo de biodigestão para a produção e refinamento do biogás para geração de biometano e energia. Neste sentido, o Brasil já leva vantagem em relação ao resto do mundo. A proporção da bioenergia (inclui etanol de cana) na matriz energética brasileira já é de 30%, enquanto nos países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) esse número é de apenas 5%. Nos países não-membros da OCDE, o percentual é de 12%. A alta participação da bioenergia no Brasil se deve, sobretudo, ao uso de etanol.

A Associação Brasileira de Biogás e Biometano (ABiogás) informa que a disponibilidade de terras e a experiência acumulada no setor sucroalcooleiro permitem que a biomassa já contribua para a renovação da matriz elétrica brasileira, principalmente em função do aproveitamento do bagaço de cana.

Mas boa parte dos resíduos agropecuários ainda não é plenamente aproveitado, o que acarreta desperdício considerável em termos energéticos. O Brasil possui grande potencial para utilização do biogás como fonte energética pela ampla disponibilidade de biomassa e resíduos orgânicos, principalmente a partir de resíduos agrosilvopastoris (resultados da atividade agrícola, de manejo florestal e pasto numa mesma unidade rural). Além disso, há condições climáticas ideais para o processo de biodigestão, contexto muito superior ao de países de clima frio que se adiantam no aproveitamento energético da fonte.

Alternativas renováveis em desenvolvimento

O biogás gerado a partir da biodigestão de resíduos do setor agropecuário poderia se transformar em eletricidade ou combustível renovável, ambos itens de alto consumo do setor e que ainda tem o diesel como o energético predominante. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a partir de 2030, com a difusão e consolidação dos projetos pioneiros e estabelecimento da cadeia de serviços do biogás, o mercado encontrará condições para o seu desenvolvimento. A pesquisa indica que a eletricidade gerada será contratada, majoritariamente, por meio da compensação de energia e deve ser consumida principalmente pelos setores público e rural.

A estimativa é que a produção descentralizada de biometano será mais tímida nos próximos anos, mas deve se intensificar após 2030. O líquido é competitivo em relação a outros mais poluentes, como diesel e gasolina, mantendo vantagens até mesmo frente ao gás natural. O aumento das preocupações ambientais, novas legislações e a necessidade crescente de mitigação de impactos locais aumentam a demanda por soluções limpas e renováveis, fazendo com que o biometano seja uma opção mais atraente em muitos aspectos.

Outra peculiaridade do processo de produção do biogás por meio de biodigestores é a geração de um subproduto: o digestato. O líquido quase pastoso é um rico biofertilizante, além de ser uma substância rica em nutrientes. O digestato consiste das sobras do processo de digestão anaeróbica, representando materiais não digeridos e microorganismos que não sobreviveram ao processo. Ao utilizar o digestato em lugar de fertilizantes sintéticos, que utilizam gás natural em seus processos produtivos, pode-se economizar energia e diminuir a utilização de combustíveis fósseis, reduzindo também as emissões de GEE.

O governo brasileiro instituiu, em 2010, o Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, também intitulado de Plano ABC.  Trata-se de uma política pública que apresenta o detalhamento das ações de mitigação e adaptação às mudanças do clima para o setor agropecuário, e aponta de que forma o Brasil pretende cumprir os compromissos assumidos de redução de emissão de GEE neste setor. Ele foi fruto de trabalho coordenado pela Casa Civil da Presidência da República, pelo Ministério da Agricultura, Abastecimento e Pecuária (Mapa) e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), com participação e representatividade da sociedade civil, foi aprovado em maio de 2011.

Seu objetivo geral é promover a redução das emissões de GEE na agricultura, conforme preconizado na Política Nacional sobre Mudanças do Clima (PNMC), melhorando a eficiência no uso de recursos naturais e aumentando a resiliência de sistemas produtivos e de comunidades rurais, possibilitando assim a adaptação do setor agropecuário às mudanças climáticas. No que se refere especificamente ao tratamento de dejetos animais para geração de biogás, o plano instituiu a ampliação do uso de tecnologias para tratamento de dejetos animais e explicita a utilização do biogás como tecnologia a ser utilizada para esse propósito.

O plano defende que a correta destinação dos dejetos e efluentes originados a partir da criação de animais estabulados. O Plano propõe disponibilizar a agricultores, cooperativas e associações que trabalham nas cadeias da suinocultura, bovinocultura e avicultura os investimentos e as infraestruturas adequadas e necessárias para a adoção de tecnologias de tratamento de dejetos e efluentes de animais.

Já a energia fotovoltaica gerada a partir de painéis solares é outra alternativa interessante em termos ambientais, ajudando a diminuir o consumo de diesel no setor agropecuário. Produtores rurais podem ter vantagens relacionadas aos custos, aumento de produção, selos de qualidade e imagem institucional, por ter adotado uma fonte renovável e não poluidora em sua operação.

Tanto o uso do biogás para geração de eletricidade, quanto a energia fotovoltaica pode ser operacionalizada dentro do sistema de compensação de energia elétrica estabelecido pela Agência Nacional de Energia Elétrica, que permite que a energia ativa injetada por unidade consumidora com microgeração distribuída ou minigeração distribuída seja cedida à rede e compensada na conta de luz da unidade geradora.

Biocombustíveis: acordos para a Agenda 2030

A Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) determina 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o Brasil e o mundo. Entre as prioridades estão a observância da saúde e do bem-estar, projetos de agricultura sustentável, energia acessível e limpa, cidades e comunidades sustentáveis, ações contra as mudanças climáticas, preservação da vida marinha e da vida terrestre. Mas tudo isso passa pela matriz energética utilizada em larga escala, a infraestrutura de um país, o investimento em tecnologia, inovação e educação. Um dos pontos cruciais é encontrar maneiras de substituir os combustíveis destinados ao setor de transportes, o que mais utiliza combustíveis fósseis.

O relatório OECD‑FAO Agricultural Outlook 2018‑2027 diagnostica que a evolução dos mercados de biocombustíveis na última década tem sido fortemente relacionada à política ambiental. Esta perspectiva destaca que os países em desenvolvimento provavelmente terão um papel mais importante no setor durante os próximos anos. A procura por combustíveis continuará a crescer nessas regiões, ao passo que deve estagnar ou diminuir em países desenvolvidos. Preços globais de biodiesel e etanol devem diminuir, respectivamente, 14% e 8% em termos reais na próxima década, mas a demanda por ambos no setor de transporte gera incertezas.

A produção global de etanol deverá aumentar em 14% até 2027. De cerca de 120 bilhões de litros em 2017 para quase 131 bilhões de litros. 50% do volume virá das plantações brasileiras para atender especificamente à demanda doméstica pelo combustível. A Tailândia, China Índia devem contribuir com a expansão mundial do etanol com um incremento de 12%, 10% e 9% respectivamente.

Grãos grosseiros e cana de açúcar continuarão a ser a principal matéria-prima do etanol. A produção do combustível deverá usar entre 15% e 18% da produção mundial de milho e cana de açúcar respectivamente até 2027. Prevê-se que o etanol à base de biomassa represente cerca de 0,3% da produção mundial de etanol até aquele ano.

No médio prazo, portanto, a agricultura deve ampliar sua participação na produção de energia para consumo tanto dela quanto de outros setores. Seu papel no futuro da energia continuará sendo duplo - como consumidora e produtora. E a eficiência, tanto no consumo de energia pelo setor quanto na sua produção, depende de um fluxo de inovações contínuo. A promessa de uma agricultura que tanto gaste menos, quanto produza mais energia está no horizonte.