Carro autônomo Waymo. Crédito: Divulgação/Waymo

O carro do futuro será autônomo, elétrico e reciclável

Sem motorista, movido a bateria e feito de materiais ecologicamente corretos, os automóveis serão mais seguros e menos poluentes

O carro ainda pode ser visto por muitos como um vilão num mundo em busca de sustentabilidade, mas não há quem negue as vantagens que ele trouxe: deslocamentos rápidos, maior mobilidade e autonomia. É por isso que, ainda que sejam notáveis os avanços no transporte público e do retorno das bicicletas, ainda há fichas a apostar no transporte individual motorizado. Não por acaso todas elas buscam tornar mais segura e menos poluente a máquina do alemão Karl Benz, o primeiro a produzir automóveis comercialmente ainda no século 19, antes mesmo de o americano Henry Ford inaugurar a produção em série do Modelo T, em 1908.

Quando se trata da propulsão, a grande aposta são os motores movidos a baterias de lítio, que dão os primeiros passos firmes após inúmeras iniciativas sem sucesso no passado. Para outros investidores, nem os motoristas serão mais necessários com a ascensão dos carros autônomos. E mesmo aquilo que os automóveis atuais têm como trunfo – serem feitos em grande parte de materiais recicláveis como plástico e metais – pode se tornar ainda mais amigável ao ambiente.

Baterias carregadas para um futuro elétrico

Desde que o visionário sul-africano Elon Musk lançou o primeiro Tesla Roadster em 2006, os carros elétricos parecem finalmente ter vindo para ficar. Desde o primeiro modelo criado pelo escocês Robert Anderson nos anos 1830, passando pelos projetos abandonados pelas grandes montadoras, como o EV1 da GM, no começo do século 21, a nova geração de elétricos ganhou com o avanço das baterias e a demanda por veículos menos poluentes em tempos de mudanças climáticas.

O protagonista no setor é a China. Graças aos altos níveis de poluição do país, os chineses já são os maiores consumidores de carros elétricos do mundo, tendo produzido 680 mil em 2017, mais do que o resto do mundo junto. O governo estuda inclusive começar a aplicar, em breve, penalidades às montadoras que não produzirem cotas mínimas de elétricos e mesmo proibir a venda de veículos a gasolina. Quem quiser comprar um carro movido a bateria hoje, na China, tem um subsídio estatal de até US$ 10 mil.

De olho nesse mercado, atualmente há mais de 300 empresas trabalhando no desenvolvimento dos elétricos no país, “mas poucas realmente desenvolvendo tecnologia”, disse à Bloomberg Brian Gu, presidente da XPeng Motors. Segundo ele, apenas 10% dessas companhias estão pensando em inovação, enquanto a grande maioria é de velhos atores da indústria automobilística tradicional. A própria Tesla de Elon Musk, sediada nos Estados Unidos, enfrenta dificuldades. Só no fim de março, perdeu US$ 5 bilhões em valor de mercado e sofreu várias baixas em seus mais altos cargos executivos. Pelo menos dois desses profissionais migraram para empresas potencialmente competidoras como a Intel e a Waymo – do mesmo grupo do Google –, que agora entram para o ramo automobilístico.

Musk se beneficiou dos subsídios nos Estados Unidos, que preveem um crédito de US$ 7,5 mil para cada um dos primeiros 200 mil veículos elétricos vendidos por cada fabricante nos país. Seis meses depois de alcançada essa marca, os incentivos começam a diminuir, até desaparecerem por completo após um ano. Com cerca de 140 mil Tesla rodando pelas cidades americanas, em breve os carros de Musk deixarão de ser competitivos. Analistas temem que o incentivo temporário pode deixar de existir com a nova política climática do presidente Donald Trump.

Mais alinhado com a luta contra o aquecimento global, o Reino Unido estabeleceu o fim da venda de carros a combustão depois de 2040 e destinou £ 1 bilhão em subsídios para motoristas que queiram comprar carros elétricos ou híbridos. Atualmente, quase toda grande montadora tem pelo menos um modelo elétrico em seu portifólio. Um ranking da revista inglesa Auto Express elegeu os melhores à venda em 2018: Nissan Leaf e e-NV200 Combi, Volkswagen e-Golf e e-up!, BMW i3, Renault ZOE, Tesla Model S e Model X, Hyundai Ioniq e Smart ForTwo ED.

Motoristas em carros sem volante

A grande revolução por vir, no entanto, é tirar o próprio motorista da equação. A mais recente a entrar na corrida pelo carro autônomo foi a Intel, até então uma bem-sucedida fabricante de processadores. No ano passado, a empresa pagou US$ 15 bilhões pela Mobileye, uma startup israelense que produz um sistema que prevê quando o motorista está prestes a bater em algo e, se necessário, aciona os freios.

O Google foi um dos primeiros a largar na frente, tanto que a empresa que criou especificamente para os carros autônomos, a Waymo, pode ser a primeira a pôr seus automóveis nas ruas sem ninguém ao volante. Os executivos da empresa esperam para esse ano um carro totalmente seguro para andar sem nenhuma intervenção humana. No entanto, nenhuma empresa alcançou o nível mais alto da autonomia, quando o carro não tem sequer volante e pedais e pode andar sem a intervenção de um motorista.

GM Chevrolet Bolt EV. Crédito: Jeffrey Sauger/General Motors

Analistas mais cautelosos acreditam que em 10 anos poderemos descer do carro em frente a um restaurante ou teatro enquanto o carro procura sozinho por uma vaga para estacionar. A GM, porém, é mais otimista. Ela prevê para o fim do ano que vem um serviço, semelhante a Uber ou Cabify, em que se pode chamar um veículo pelo celular – um Chevrolet Bolt – que leva o passageiro ao destino, mas sem motorista.

A Uber testava há algum tempo o serviço. No entanto, os testes foram interrompidos em março, depois que uma mulher foi atropelada por um dos carros autônomos da empresa, no Arizona, causando o primeiro acidente fatal do tipo na curta história desses veículos. O interesse da Uber não é casual. Serviços como o da empresa devem ser os primeiros a utilizar os autônomos, já que o ganho com a prestação de serviços compensaria o alto custo desses veículos num primeiro momento, ainda pouco acessíveis ao consumidor comum.

De volta à natureza

Embora grande parte dos materiais que compõem os carros sejam recicláveis, do aço da lataria ao plástico do painel, há apostas de que muito ainda vai mudar. No ano passado, a BMW surpreendeu os visitantes do CES, maior evento de tecnologia do mundo, ao apresentar um carro conceito que tinha musgo e outras plantas compondo o piso. Ter plantas como parte do carro ainda parece pouco prático, mas nos últimos anos materiais como fibra de carbono, acrílico e cobre tem ganhado espaço no interior de marcas de luxo como a Bentley. Além disso, substitutos veganos para o couro, madeiras de crescimento rápido como o bambu ou mesmo folha de bananeira têm aumentado o apelo sustentável desses veículos.

Para os observadores do setor, novidades desse tipo servem como guias para motoristas que estão lidando com a iminência de carros elétricos e autônomos. “O interior dos veículos vai girar em torno de telas, então será importante ter prazeres analógicos”, disse à Wired Gorden Wagener, diretor global de design da Mercedez Benz. “As pessoas gostam de joias, de coisas táteis, algo que se possa sentir, algo durável”. Apesar de acompanharem a evolução, os carros ainda carregarão as idiossincrasias dos humanos.