Ai Weiwei. Crédito: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento

Fronteiras: “compaixão e compreensão são importantes”, diz Ai Weiwei

Artista chinês esteve no Fronteiras do Pensamento falando sobre sua história familiar, trajetória como artista e o que pensa em apresentar para o público do Brasil na exposição que abriu sexta-feira (19) na Oca

Em outubro, o ciclo de palestras e debates Fronteiras do Pensamento recebeu, em São Paulo, o artista plástico, designer e cineasta chinês Ai Weiwei. Ele conversou com Marcello Dantas, diretor artístico e curador das exibições de Weiwei no Brasil, que abriu o evento destacando as origens orientais e o contexto político do nascimento do artista.

Nem todos sabem, mas o pai de Ai WeiWei, Ai Qing, era poeta e foi preso pelo regime chinês, que o deteve em um campo de trabalhos forçados por 20 anos. Em 1958, Qing foi acusado de ser contra o governo comunista e obrigado a limpar banheiros coletivos até 1979. Ai Weiwei nasceu em um campo de trabalho forçado, onde cresceu e viveu até os 19 anos. Artista tardio, ele começou sua jornada artística aos 36 anos de idade como arquiteto.

“Ele é um dos poucos artistas que consegue transitar entre a cultura ocidental e oriental”, disse Dantas. “Seu trabalho faz referência a grandes brasileiros, resgatando algumas ideias fundamentais sobre a força da linguagem e a força da percepção. A linguagem nunca é neutra.”

Segundo Dantas, a razão de produzir peças em território brasileiro e envolver 150 artesãos locais para a realização das obras deve-se à vontade do artista de interpretar o Brasil e a exuberância de sua natureza, bem como a imagem que faz parte de seu imaginário desde a infância, quando soube que seu pai teve contato com Jorge Amado.

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Corpo como arte

Além de trabalhar com artes plásticas, Ai Weiwei usa o corpo - dele e dos outros - para chamar atenção para circunstâncias que ferem os direitos humanos. Em 2016, Weiwei reproduziu, usando seu corpo, a imagem do pequeno Aylan Kurdi, um menino sírio de apenas 3 anos encontrado morto na costa turca depois de o barco de refugiados onde ele estava com sua família afundar. A imagem correu o mundo e a discussão sobre a crise dos refugiados ganhou ainda mais notoriedade.

Weiwei foi criticado, na ocasião, mas seguiu usando sua visibilidade para a arte e o ativismo. No Brasil, ele fez uso de um barco com bonecos representando refugiados que ficou à deriva no lago do parque Ibirapuera na sexta-feira (12/out). A escultura inflável de 16 metros de comprimento com 56 bonecos foi concebida pelo artista e anunciou a maior exposição dele já feita no mundo, inaugurada no dia 20, sábado, na Oca, espaço expositivo também dentro do parque Ibirapuera. São 8 mil metros quadrados com instalações de Weiwei.

“Há tanto ódio, uns culpando os outros. Enquanto permanecerem essas ideias de fronteiras, raças ou religiões diferentes, enquanto as separações existirem, a exclusão será usada pelos políticos. A única coisa que poderá melhorar nossas condições é falar de humanidade. Compaixão e compreensão são muito importantes e as duas protegem os direitos humanos básicos e a liberdade de expressão.”

Um chinês à brasileira

Weiwei contou à plateia do Fronteiras do Pensamento que 30% das obras em exposição na Oca foram feitas no Brasil, com raízes, árvores, coro, porcelana ou esculturas de madeira feitas com a colaboração de artesãos nacionais. Uma das peças é uma escultura do próprio artista deitado, ao lado mas a uma certa distância, de uma jovem brasileira. Segundo Weiwei, a concepção é fruto da percepção do erotismo presente na cultura brasileira.

“Talvez seja a temperatura, o sentimento, a umidade, um bicho que me mordeu. Eu sou uma pessoa idosa, fazia tempo que não tinha esses sonhos, mas tive aqui no Brasil.” Ele conta que decidiu colocar o sentimento em uma escultura e chamou uma modelo brasileira para posar ao seu lado, num processo de moldagem que levou 8 horas.

A mistura de cores de pele, cabelos, costumes e a quantidade de imigrantes nas grandes cidades do país são notadas por Weiwei, que interpreta a diversidade como tolerância. “Vocês deixam outras pessoas desafiarem o estilo de vida de vocês e procuram entender os outros, porque vocês coexistem no mesmo ambiente. As pessoas que estão aqui vêm de toda a parte. Não são todas as cidades que são assim.”

Novos cheiros e frutas, além das culturas locais, têm sido uma descoberta prazerosa que se converte em inspiração para trabalhos de Weiwei, que, segundo ele, nascem da necessidade de representar o que lhe toca. Foi assim com uma árvore de pequi vinagreiro, morta, mas de pé, no sul da Bahia. Ao conhecê-la, Weiwei resolveu fazer uma réplica da árvore com precisão milimétrica, recriada com silicone de platina. A obra pesa 250 toneladas e, para moldá-la e medi-la, foi preciso erguer um andaime de 35 metros de altura, o equivalente a um prédio de 14 andares.

“O que eu quero fazer é dar uma mordida, sentir o que é o Brasil. Eu acho a sociedade aqui muito misteriosa, a cultura, o sentido do tempo, a velocidade, os odores. É tudo muito diferente, isso está causando um efeito muito grande em mim. Estou tentando entender esse ambiente e acho que já aprendi muito no Brasil.”

Linhas e fronteiras borradas

Ao transitar e usar ferramentas artísticas para representar e questionar os costumes de seu país de origem, mas também dos lugares por onde passa, Weiwei diz perder um pouco a referência de localidade. Depois de ele próprio ser preso na China, o que incluiu períodos em celas solitárias, Weiwei adquiriu seu passaporte e foi a 150 países diferentes. “Quando acordo, preciso pensar por alguns segundos para me lembrar onde estou. Às vezes eu tenho a chave do quarto, mas preciso descobrir qual é mesmo o meu apartamento. Eu viajo demais.”

O artista confessa usar muito a internet para falar com pessoas que estão em países diferentes e até mesmo para descobrir mais sobre o lugar onde se encontra. Ele diz ter dificuldade com os conceitos de ocidente e oriente já que parecem falar de ideias antigas sobre regiões que, na realidade, compartilham de um único planeta.

“Essa ideia de leste e oeste está se diluindo, na minha opinião.” Quando perguntado se quer ser lembrado como um artista chinês ou ocidental, ele responde: “Acho que no futuro ninguém vai se lembrar de mim. Eu não tenho essa fantasia. Meu filho, se ele se divertir bastante, talvez lembre. Mas ser ou não lembrado não é uma questão pra mim.”