Roberta Barros

Roberta Barros: “a arte pode convidar à reflexão sobre a desigualdade"

Pós-doutora no estudo de arte e gênero, Roberta Barros fala sobre posição das mulheres na arte, manifestações feministas, combate ao assédio e mercado cultural

Historicamente, a produção cultural e artística teve como sua maior referência os trabalhos desenvolvidos   pelos homens. O século 20, porém, registrou um intenso - e necessário - aumento da visibilidade das mulheres nas artes. Agora, parte importante da sociedade exige, com razão, equidade de gênero em todas as esferas: social, econômica, de direitos e, também, na arte e cultura.

A equiparação de gênero é fundamental para o desenvolvimento sustentável e é a motivação central do objetivo 5 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela ONU (Organização das Nações Unidas). A busca  pela equidade está relacionada, também, à busca por reconhecimento em todas as esferas da sociedade.

Mas ainda estamos longe do ideal. De acordo com o projeto A História da Arte, de um total de 2.443 artistas catalogados em 11 livros utilizados em cursos de graduação de artes visuais no Brasil, apenas 215 (8,8%) são mulheres.

Roberta Barros conhece o tema como poucas. Pós-doutora no Departamento de Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF), é também diretora de arte, professora e produtora cultural, além de autora do livro Elogio ao toque: ou como falar de arte feminista à brasileira.

Em entrevista ao bluevision, Roberta explica diferenças conceituais entre a arte produzida pelo feminino, o impacto das obras feministas e o espaço de ação que as mulheres encontram para gerarem cultura.

Leia a entrevista a seguir.

Existe uma arte feita, essencialmente, por mulheres?

Uma ideia principal é entender o plural: não há um tipo de mulher artista, há uma diversidade de mulheres artistas. É preciso ficar atento às diferenças, sejam elas geográficas ou geracionais, e entender que não há uma essência universal do feminino.

Como disse [a filósofa francesa] Simone de Beauvoir: não, a gente não nasce mulher, nos tornamos mulher diante de condições sociais, econômicas e culturais. Portanto, quando se busca um universalismo da essência feminina, isso não se pode cumprir. Nem na arte.

[A historiadora da arte norte-americana] Linda Nochlin, no artigo “Por que não houve grandes mulheres artistas?”, deixa claras as armadilhas de pensar uma essência feminina: as mulheres artistas de cada época se assemelhavam mais aos homens artistas destas respectivas épocas do que às mulheres de outra geração.

Hoje, quando a mulher produz arte, logo sua obra é transformada em obra feminista. Então, é importante desconstruir o essencialismo e o universalismo do que é a mulher artista - e descolar esse adjetivo “feminista” da obra.

Mas existe, de fato, uma arte explicitamente feminista?

Há, sim, uma arte feminista e engajada. E não é de hoje. Esse é um tema que sempre existiu e a luta por igualdade de gênero é contínua. Mas, na década de 1970, a segunda onda do feminismo foi a mais explícita em relação às manifestações políticas e artísticas nas obras das artistas.

Foram produzidos trabalhos muito críticos e agudos que foram rejeitados como discursos militantes e ativistas. A crítica artística construiu um discurso para desmerecer esse trabalho e essa construção contribuiu para desqualificar e invalidar o trabalho feito por muitas mulheres cuja obra nem era feminista. Às vezes, só o fato de ter uma vagina na peça já era encarado como feminismo.

Até a [artista brasileira] Lygia Pape, em uma exposição no MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo), trabalhou com signos que conotam a objetificação e sexualização da mulher, e escondeu até textos feministas nas obras, mas não podia dizer que era uma crítica à sociedade patriarcal.

E você, acredita que a arte deva ser engajada - no caso, feminista - ou livre politicamente?

Existem posicionamentos críticos conceituais sobre qual o papel da arte na sociedade.  O âmago da crítica modernista é destacar o que a obra tem de único em si mesma. e que valoriza sua própria essência. Nesta visão, cada arte deve ser concebida fora do tempo e espaço e descolada do mundo - uma espécie de separação entre arte e vida de viés apolítico.

Mas recusar a política é um ato muito político!

Somos corpos encarnados, não podemos separar a construção de quem somos de nossa produção. E aquilo que somos tem gênero, raça, lugar, história e mais elementos que estão impregnados na nossa arte.

Por outro lado, não acho que, necessariamente, o artista precise manifestar verbal, pública e explicitamente sua postura política. Vejo algumas mulheres artistas com uma grande fobia do termo “feminismo” na arte e entendo seus motivos, porque a arte e a instituição de arte no Brasil é refratária ao tema.

Entendo que é preciso fazer alguma negociação com o mercado e que cabe a cada um entender a sua margem de abertura. Mas é importante lembrar que uma postura apolítica é uma postura política e que é perversa essa necessidade de se abster.

E como o mercado e a instituição de arte recebem artistas mulheres e artistas feministas?

Com a abertura democrática na década de 1980, muitas mulheres artistas se formaram, tiveram inserção mais rápida no mercado e não assumiram pautas feministas. Isso, talvez, não deixou claro o quanto este mercado é misógino e machista.

A pauta do feminismo e igualdade de gênero não é apenas a inserção no mercado de trabalho, até porque já temos muitos exemplos de sucesso no Brasil como Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Lygia Pape, entre outras. Acho interessante quando mulheres artistas negociam com o mercado, mas não acredito que isso, necessariamente, resolva o problema.

Há duas formas de ver. Algumas artistas não assumem o feminismo para não ficar de fora da instituição da arte e outras acreditam que, quanto mais se falar, mais espaço se constrói. Eu sempre optei por tratar do tema sem negociar com mercado e vejo uma nova geração que não tem mais medo do enfrentamento e tem sede para falar de feminismo.

Como o machismo interfere na produção artística das mulheres?

Já vi e ouvi casos com problemas cotidianos até os mais extremos de assédio, mas vou falar com base apenas em um caso meu. Quando fiz entrevista para o doutorado, fui entrevistada em uma banca com quatro homens e uma mulher. O procedimento durou 2h30, enquanto a entrevista de um colega homem acabou em 30 minutos.

Deste tempo, cerca de 2 horas foram com perguntas sobre como eu lidaria com a gravidez e a maternidade, pois estava grávida. O resto do tempo, os entrevistadores explicaram que não havia problema nenhum ser mulher, mas que poderia ser incômodo falar sobre arte feminista no Brasil.

A condição da maternidade é um tema tabu, muitas mulheres feministas até evitam entrar neste papel, pois é uma camada a mais de dificuldade para a sua carreira. A sociedade não entende que a maternagem não é exclusivamente da mulher, assim como o trabalho doméstico.

De forma geral, a priori, não há uma barreira para mulheres artistas, mas se a gente pensar na proporção de gênero, vemos que há uma distorção drástica. De forma geral, os trabalhos de arte feitos por mulheres bem avaliados são os formalistas, e os trabalhos de identidade de gênero são rejeitados.

Como você vê movimentos feministas de grande repercussão, como o #MeToo?

São movimentos importantes para a recodificação de eventos. Muitas vezes, as mulheres sofrem violências no cotidiano e em situações que nós não conseguimos entender como violência - em atos camuflados na carapaça de brincadeira ou de algo comum, natural.

É uma conduta e atitude dos homens com mulheres e até de mulheres com mulheres - a violência não é necessariamente de homem para mulher. As mulheres se culpam da violência que sofrem, há uma situação de até as criticarem pela roupa, afirmando que convida à violência.

O mais importante é que essas situações estão com novos códigos. Sabemos que quem tem culpa é o agressor e, agora, mulheres podem levantar a voz e falar que a piada é ruim e que humor pode ser violento também, por exemplo. É um momento importante de mais abertura de temas difíceis e que atingem mais pessoas.

E do ponto de vista do público, o consumo de arte tem diferença entre os gêneros?

Há uma construção; a visão de que há arte melhor do que outra por parte do mercado. Isso é construído por um discurso de poder. Depende da formação do olhar do observador o que é belo ou não - ou mesmo se a arte precisa ou não ser bela. Nesse sentido, a instituição de arte é mais uma linha de poder estruturada pela lógica patriarcal.

Todas as teorias feministas afirmam isso: [a arte] é mais um local de exclusão da voz das mulheres, e também dos negros e de populações tradicionalmente excluídas. Nas produções ativistas, nas vanguardas críticas, existem movimentos de resistência nas linhas estruturais da cultura patriarcal. Dentro dessas fronteiras ou fora há pessoas buscando brechas para furar essas perversões e violências.

A arte pode ser o canal de diálogo para questões como violência de gênero?

O artista ou a artista produz um discurso, e esse discurso pode convidar à reflexão. Nesse sentido, pode apresentar ou propor espaço de debates mais plurais, complexos e respeitosos - como, por exemplo mais espaço para posicionar questões de direitos humanos.

Há várias linhas de saber para construir a visão de mundo de um sujeito, e a arte é uma dessas dimensões. É complexo dizer que arte pode fazer isso, mas dentro desse campo epistêmico o artista pode propor debates mais complexos. Eu, pessoalmente, não vejo diferença entre minha posição no mundo e minha posição como artista: em ambos faço um discurso comprometido com direitos humanos e o feminismo.

Podemos discutir a função da arte, mas ela, como outras dimensões de cultura, tem esse lugar de poder chamar atenção para desigualdades estruturais.