Bispo Catador na Virada Sustentável

Pessoas da Virada: como Bispo Catador transforma sua vida com o lixo

Nascido em um aterro na Bahia, Sérgio da Silva Bispo fundou uma cooperativa e hoje coordena o coletivo de catadores Kombosa Seletiva, que promove gestão de resíduos sob o lema “Lixo não existe”

“Eu já nasci catando alguma coisa desde dentro da barriga da minha mãe e levei 80 dias para deixar a Bahia e chegar em São Paulo, a pé e de carona. Na cidade grande morei na rua e catava todo tipo de material para sobreviver, mas percebi que quando trabalhamos juntos, trabalhamos melhor e ajudei a criar uma cooperativa para reciclagem, com a ideia de que lixo não existe e de que todo mundo tem que ter seu trabalho valorizado - e ninguém ganha mais que ninguém. Meu trabalho é para que as pessoas tenham mais consciência ambiental, principalmente no quesito reciclagem e separação de resíduos.

 

Há 60 anos, o Aterro de Canabrava, localizado na região periférica de Salvador, na Bahia, era o lar de aproximadamente 3 mil catadores e catadoras de lixo. Entre eles, estava um bebê recém-nascido que ganhou o nome de Sérgio da Silva Bispo. “Desde o ventre de minha querida mãe, eu já estava catando alguma coisa”, diz Bispo. Sua mãe e seu pai, aliás, ele nem sequer conheceu.

Cresceu aprendendo a mexer no lixo para conseguir comida, além de contar com a ajuda dos demais companheiros que viviam e trabalhavam por lá. Foi assim até completar seis anos, quando o aterro fechou e ele foi enviado para um orfanato. “Eu era um jovem garoto, não entendia as regras do orfanato. Preferia ficar mais livre, mesmo com toda a dificuldade”, afirma. Assim, um ano depois de chegar lá, conseguiu fugir e viveu por anos nas ruas da capital baiana catando materiais, exposto à toda sorte de perigos.

Na adolescência, Bispo foi pego pela dependência do álcool. Todos os dias que conseguia um dinheiro, ia até o Bar do seu Batista “tomar um negócio”. “Lá vi um negócio que nunca tinha visto”, diz ele, lembrando de um episódio que viveu aos 16 anos e que mudaria sua vida para sempre. “Era uma televisão! Era uma Philco branca porque quando vi aquele monte de coisa na tela, fui correndo atrás dela para ver se conseguia catar o material que eu via”, conta, aos risos.

Pouco a pouco, a televisão apresentava um mundo novo a Bispo. O catador de lixo que só conhecia a realidade do aterro, onde comia com a mão, percebeu que poderia mais. “Na TV eu via famílias sentadas na mesa, pai, mãe e filhos, todo mundo tomando café, todo mundo com uma alimentação legal. Eu pensei: é isso, quero sentar na mesa também”, recorda. “Aquilo me chamou atenção e conheci a cidade de São Paulo, onde se ganha dinheiro e onde existe família. Que coisa louca isso, né? Era dinheiro e família, e eu queria isso também”, conta.

Foram quase dez anos até decidir ir a São Paulo. Ele foi. Mas precisou vencer 80 dias de viagem, intercalando trechos de longas caminhadas com caronas de, principalmente, caminhoneiros. Mais do que o cansaço descomunal e as bolhas nos pés, encontrou na estrada a pior sensação que conhecera: o ódio. “Na estrada eu comecei a sentir a discriminação que o pessoal tem com catadores e catadoras”, diz Bispo. “Às vezes eu não tinha nada para comer e ia mexer no lixo para conseguir comida. As pessoas me xingavam por isso! No aterro, tinha a disputa pelo material, mas ninguém me xingava. Comecei a pensar nessas questões”, conclui.

A nova vida em São Paulo: vencendo com o lixo


Sérgio da Silva Bispo pisou em São Paulo pela primeira vez em 1989, sem ideia de onde ficar - e assim foi durante muito tempo. Por anos, sua casa foi as ruas do centro da cidade. Dormia na 7 de Abril e procurava resíduos de valor comercial pela região até levá-los ao Glicério, onde conseguia um pouco de dinheiro para se alimentar e para manter o vício em álcool.

“Em São Paulo, continuei meu trabalho como catador de material reciclável. Mas comecei a entender a importância de me organizar”, afirma. Bispo notou que quando ele ia sozinho vender um material no ferro-velho, conseguia um valor. Mas quando se juntava com mais companheiros, conseguia melhores condições. Assim nasceu a ideia que daria vida à Cooperativa de Trabalho e da Coleta Seletiva dos Catadores da Baixada do Glicério (Cooperglicério).

“Comecei a organizar com outros catadores e esta foi a primeira cooperativa que ajudei a montar, e está lá até hoje”, orgulha-se. A organização da Cooperglicério chamou a atenção de entidades do terceiro setor e Bispo foi convidado a ajudar na montagem de novas cooperativas pelo Brasil. Seu trabalho lhe rendeu até o convite para palestrar no Fórum Social Mundial, em 2005. “Viajei até de avião para Porto Alegre, falei em apresentação lá. Antes nem sabia montar isso, não sabia nem o que significava layout ou logística”, conta, rindo. Aí, virou de vez Bispo Catador.

“Nunca fui para escola ou estudei. Aprendi a ler com os jornais que catava. Depois aprendi a escrever com meus filhos”, revela Bispo. “Um amigo meu que é da universidade me disse que eu sou uma coisa que gostei muito… se chama autodidata. Palavra boa!”, conta. Esta habilidade foi fundamental para dar um passo adiante em seu trabalho com coleta seletiva e gestão de resíduos.

Bispo é casado, pai de oito filhos e avô de um neto, Pedro. Dez anos atrás, quando Pedro era uma criança de 5 anos, perguntou ao avô: “vovô, você chega todo dia em casa cansado de puxar seu carrinho; por que você não compra uma kombi?”. A ideia era boa, mas ele não tinha sequer habilitação. Usou sua “autodidata”: pediu ajuda a amigos, estudou para a prova do Detran, mesmo sem saber ler e escrever bem. E passou.

Com a ajuda de amigos, conseguiu comprar uma Kombi, devidamente grafitada por artistas parceiros. Deu nome ao projeto: Kombosa Seletiva, cujo objetivo era promover a coleta seletiva pelas ruas de São Paulo. “A ideia ganhou corpo e virou um coletivo com sete catadores e catadoras”, conta. Hoje, além da Kombi, trabalham também com uma Sprinter e uma Ducato, todas coloridas e com a inscrição “Lixo não existe”.

A Kombosa Seletiva abriu um CNPJ e atualmente atende 45 parceiros, como condomínios, colégios, restaurantes. Mas, afirma Bispo, sem abrir mão da ideia de igualdade. “Não tem patrão e subordinados. Decidimos tudo juntos e dividimos os rendimentos igualmente, considerando as horas trabalhadas”, explica. “Queremos organizar e profissionalizar mais catadores. Falaram que eu posso ser uma… startup! Posso ser uma startup, é uma coisa nova que preciso aprender”, se anima.

Para o futuro, Bispo espera a conclusão da obra de um prédio que está sendo erguido na rua Brigadeiro Tobias. A construção será a casa de sua família e de mais 99 catadores e catadoras. “Conseguimos um financiamento da Caixa [Econômica Federal] para cooperativas e fizemos a obra. Tivemos que aprender do zero”, relata. “Mas o legal é que nesta rua, a gente dormia na calçada e, agora, teremos nossos próprios apartamentos”, sorri.