Caminhabilidade. Crédito: Tobias Zils/Unsplash

Para que serve andar a pé?

Caminhabilidade reflete na qualidade de vida e no acesso a produtos e serviços básicos, permitindo ao pedestre alcançar diferentes partes do território, garantindo amplo acesso à mobilidade

Avance uma casa e pule um buraco. Avance mais uma casa e desvie do poste. Avance uma casa e vá para a via dos carros, porque a calçada está obstruída. A jornalista Mariana Della Barba nota que a dificuldade dos pedestres são tantas que lembram um jogo de tabuleiro. Mesmo para quem pode caminhar com facilidade, as ruas das grandes cidades muitas vezes oferecem trajetos difíceis, com sinalização escassa, quarteirões imensos, pontes distantes e calçadas tão estreitas que inviabilizariam o tráfego de cadeiras de rodas ou carrinhos de bebê.

Cobrir trechos a pé pela cidade significa menos poluição, menos estresse, mais economia e muito mais saúde, já que a atividade física ajuda a combater o sobrepeso e a obesidade, além de problemas decorrentes, como diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares e nas articulações. Já a redução na emissão de gás carbônico influencia na queda da incidência de doenças respiratórias.

De acordo com o INRIX 2017 Traffic Scorecard, o aumento da população, o crescimento econômico e a urbanização continuada são as principais causas de congestionamento. Em 2050 serão 9,7 bilhões de pessoas no mundo, 70% delas habitando as cidades. No mesmo período, a economia global deve triplicar de tamanho, dobrando a demanda por transporte rodoviário e ferroviário e triplicando a necessidade de estradas para a distribuição de serviços e mercadorias.

Em primeiro lugar no ranking do estudo aparece a cidade de Los Angeles como a mais atormentada por engarrafamentos. Seus motoristas gastaram em média 102 horas de pico em congestionamento em 2017, seguido por Moscou (91 horas), Nova York (91 horas) e, então, São Paulo (86 horas). Segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), 36% da população brasileira caminha até o trabalho. Outros 31% usam carro e 29%, o transporte público. Mas em São Paulo, por exemplo, 25% dos deslocamentos usando automóvel são feitos em trajetos curtos, num perímetro de 3 quilômetros.

Paul Hawken, ambientalista e pesquisador dos EUA, escreveu o audacioso Drawdown: The Most Comprehensive Plan Ever Proposed to Reverse Global Warming (Penguin Books, 2017), ou “Drawdown: o mais abrangente plano já proposto para reverter o aquecimento global”, em tradução livre. A publicação enumera 100 soluções para lidar com as mudanças climáticas e enfatiza: se houver mais investimento na caminhabilidade das cidades até 2050, cerca de 5% dos trajetos atualmente feitos com carro passarão a ser realizados a pé. Essa mudança evitaria que 2,9 bilhões de toneladas de gás carbônico fossem lançadas na natureza.

O que é caminhabilidade?

Ruas mais iluminadas, menos tempo de espera para a travessia de pedestres, calçadas seguras, amplas e protegidas, acessibilidade para crianças, idosos e deficientes, bancos para descanso, arborização, transportes coletivos eficientes, áreas de sombra, praças para descanso, comércios no nível do piso. Todos esses elementos ajudam na hora de escolher entre caminhar e ir de carro, mas boa parte das medidas acontecem no plano municipal e nas decisões da gestão pública.

Bairros mistos, com zoneamento equilibrado entre áreas residenciais e serviços básicos, como escolas, hospitais e mercados, ajudam a diminuir a demanda por deslocamento e, consequentemente, o uso de transporte particular. Lara Freitas, co-fundadora do projeto Ecobairro, destaca que a globalização tem entre seus efeitos a desconexão entre as pessoas e seu local de moradia ou de trabalho, fazendo com que deixem de perceber e se apropriar dos espaços cotidianos, já que amplia a visão e faz com que o ser humano adote medidas muito alargadas.

“A gente faz esse convite para que o indivíduo tome decisões, faça novos caminhos e se dê conta do trabalho que acontece na vizinhança, a consciência da rua, do condomínio, da vila, do bairro, já que a nossa qualidade de vida depende da qualidade presente nessas escalas.” O projeto, que começou em São Paulo, já chegou a Bahia e iniciou diálogos em Manaus e Brasília para expandir suas atividades como Instituto Ecobairro, que recebe apoio da organização internacional Municipalidades em Transição (MiT).