Desigualdade no Brasil. Crédito: Hermes Rivera/Unsplash

Mais pobres levarão até 9 gerações para atingir renda média no Brasil

Relatórios mostra que país é um dos mais desiguais do mundo: 60% da população vive com menos de um salário mínimo e cinco bilionários têm patrimônio equivalente aos 50% mais pobres

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Essa é a conclusão do relatório publicado recentemente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), sediada em Paris, França. Entre as descobertas, destaca-se a de que uma família do estrato de mais baixa renda do país precisa, em média, de nove gerações para deixar essa faixa e chegar à faixa de renda média da população brasileira.

Outro relatório, intitulado ”A distância que nos une - um retrato das desigualdades brasileiras”, produzido pela organização internacional Oxfam, sediada em Londres, Reino Unido, informa que a renda média per capita da grande maioria dos brasileiros é inferior a um salário mínimo. Considerando os valores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015, o documento afirma que seis em cada dez pessoas no Brasil têm renda domiciliar per capita média de até R$ 792,00 por mês. E mais: 80% de toda população brasileira vive com renda per capita inferior a dois salários mínimos mensais.

No ranking de países mais desiguais do mundo, elaborado pela OCDE, o Brasil fica atrás apenas da Colômbia (onde são necessárias 11 gerações para que uma família alcance a renda média nacional) e empata com a África do Sul. Mesmo países desenvolvidos, como Alemanha (seis gerações) e Estados Unidos (cinco gerações), ficam abaixo da média global registrada, de quatro gerações.

O levantamento informa, também, que entre as famílias cuja renda está enquadrada nos 20% mais pobres, 35% dos filhos não conseguem ascensão social - e apenas 7% chegarão aos 20% mais ricos. Do outro lado da pirâmide, a situação é distinta: somente 7% dos filhos das famílias 20% mais ricas passam por piora de suas condições de vida.

Este índice é semelhante ao publicado no documento produzido pela Oxfam. Para a organização britânica, a cada dez brasileiros nascidos em condições mais pobres, apenas um tem chance de chegar ao estrato econômico mais alto. No Brasil, estima-se que mais de 16 milhões de pessoas vivam abaixo da linha da pobreza - a definição de “linha da pobreza”, para o governo federal, significa renda mensal menor de R$ 70 reais por pessoa; para o Banco Mundial, significa US$ 1,90 por dia, ou cerca de R$ 215 mensais.

Cinco bilionários têm mesma riqueza que metade mais pobre do país

O relatório da Oxfam aponta, ainda, um dado interessante: no Brasil, cinco bilionários têm patrimônio equivalente ao da metade mais pobre de toda a população brasileira - cerca de 103,5 milhões de pessoas. Até 2017, o patrimônio somado destes bilionários atingiu R$ 549 bilhões, registrando um crescimento de 13% em relação ao ano anterior, enquanto os 50% mais pobres reduziram sua participação do total da renda nacional para 2%.

O mesmo levantamento aponta que entre 2001 e 2015, os 10% mais ricos usufruíram de 61% do crescimento econômico do país; já os 50% mais pobres se apropriaram apenas de 18%. Durante todo o período, a concentração de renda no 1% mais rico se manteve estável entre 22% e 25% da riqueza do Brasil.

Em relação à renda mensal, os 5% mais ricos recebem o equivalente à soma dos 95% mais pobres juntos. De acordo com o documento, os 10% mais ricos têm rendimentos per capita mensal de R$ 4,5 mil e o 1% mais rico, superior a R$ 40 mil mensais. Quem vive a base de um salário mínimo precisa trabalhar 19 anos para equiparar o que ganha, em média, o 0,1% mais rico da população brasileira.

Situação não é uma exclusividade brasileira

Em 2017, surgiu um novo milionário no mundo a cada dois dias. Até o fechamento do documento, havia 2.043 bilionários no mundo, sendo nove em cada dez deles, homens. A metade mais pobre da população mundial tem renda de US$ 2 a US$ 10 por dia.

"O que vemos é um aumento absurdo da concentração de renda e riqueza no mundo, provocando mais pobreza e o aumento das desigualdades. Isso mostra que a economia segue sendo muito boa para quem já tem muito e péssima para quem tem pouco”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil. “Entre os fatores que contribuem para esse quadro está a redução de custos trabalhistas, como salários e direitos”.

Desigualdade custa caro

A OCDE alerta para os custos sociais, econômicos e políticos da desigualdade. Para a organização, além de comprometer a qualidade de vida dos cidadãos, a ela influi na produtividade econômica e repercute na consciência política. Ela também mina a coesão social e a sensação das pessoas de que sua voz conta, além de reduzir a confiança no sistema sociopolítico, com potenciais consequências negativas na participação democrática, cuja consequência é reforçar “os extremismos políticos ou o populismo”.

A solução para o Brasil ou para outros países com alto nível de desigualdade, afirma a OCDE, é melhorar o gasto público na saúde (com foco nos tratamentos mais importantes e nas pessoas que mais precisam) e na educação (com mais investimento concentrado no ensino básico).