Incêndio no Museu Nacional. Crédito: Tânia Rego/Agência Brasil

Incêndio no Museu Nacional: 5 destaques do acervo que pegou fogo

Construção tinha 200 anos e foi residência da família real no Brasil. O museu, maior da América Latina, perdeu 90% de suas peças de paleontologia natural e arqueologia egípcia, clássica e ameríndia

Um incêndio que começou por volta das 19h30 de domingo (2) destruiu cerca de 90% do acervo do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio de Janeiro. As seis horas de fogo ininterruptos também danificaram a estrutura do prédio histórico, o Palácio de São Cristóvão, inaugurado por D. João VI em 6 de agosto de 1818 e que serviu de residência para a família real e imperial brasileira.

O Museu Nacional guardava um tesouro natural e cultural com mais de 20 milhões de itens catalogados - o Museu Britânico, de Londres, e o Museu Metropolitano de Arte, de Nova York, têm, respectivamente, 8 milhões e 2 milhões de peças em seus acervos. Tratava-se do maior museu de história natural e antropologia da América Latina.

A imponente arquitetura de aspecto colonial do prédio teve prejuízos em sua estrutura, mas não corre mais risco de desabamento. A construção se tornou sede do museu em 1892 e sua administração passou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1946 - sua mantenedora até o momento.

Vista aérea do Museu Nacional. Crédito: Divulgação/Museu Nacional

Ainda não se sabe o tamanho da tragédia, pois algumas peças estavam guardadas em cofres e podem ter resistido ao fogo. Selecionamos aqui cinco itens e coleções significativos do ponto de vista do valor histórico e cultural.

Fóssil de Luzia

Trata-se do fóssil humano mais antigo já encontrado no Brasil, recebeu o nome de Luzia - uma referência a Lucy, fóssil primata (australopithecus) parcialmente completo já descoberto, na África. Luzia foi encontrada em 1975 na cidade de Lagoa Santa, Minas Gerais, pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire e foi batizada pelo biólogo, antropólogo e arqueólogo brasileiro Walter Neves.

Luzia era uma mulher de 1,5 metro de altura e traços negroides que morreu aos cerca de 20 anos de idade. Estima-se que ela tenha habitado a região há 11 mil anos, o que reforçou a tese de que nossa espécie, os homo sapiens, chegou à América pelo Estreito de Bering - que hoje separa o Alaska da Rússia - há aproximadamente 14 mil anos. A partir daí, aos poucos, a espécie avançou rumo ao sul.

Há a expectativa de que o fóssil esteja dentro do cofre do museu e tenha sido, ao menos parcialmente, preservado.

Fóssil de Luzia. Crédito: Wikimedia Commons

Meteorito Bendegó

A pedra de Bendegó é o maior meteorito já encontrado em solo brasileiro e o 16º do mundo - quando foi encontrado, em 1784, ocupava o segundo lugar no ranking global. Naquele ano, o menino Domingos da Motta Botelho pastoreava uma fazenda na cidade de Monte Santo, Bahia, quando viu a peça de 5,36 toneladas.

O meteorito é uma rocha oriunda de uma faixa do sistema solar entre os planetas Marte e Júpiter. Estima-se que tenha mais de 4 bilhões de anos e que tenha caído na Terra há alguns milênios, mas não há uma data exata. O que se sabe é que, na primeira vez que foi transportado ao Rio de Janeiro, o carro-de-boi que o levava não suportou seu peso e a pedra se depositou sobre o leito seco do rio Bendegó, onde permaneceu por um século.

Em 1986, D. Pedro II ordenou que fosse trazido ao Museu Nacional, onde está desde 1888. O meteorito é, até o momento, a única peça que se tem certeza que sobreviveu ao incêndio já que ele é capaz de suportar temperaturas superiores a 10 mil graus Celsius.

Meteorito Bendegó. Crédito: Creative Commons

Acervo de paleontologia natural

A coleção de peças de paleontologia do Museu Nacional era das mais importantes e extensas do continente. Havia 56 mil exemplares e 19 mil registros de elementos como fósseis, reconstituições e réplicas de plantas e animais brasileiros e de diversos lugares do mundo.

Havia, entre o acervo, elementos únicos da fauna e flora do que hoje compõem o território brasileiro. Algumas das perdas mais sentidas são o fóssil de um crocodilo pré-histórico de 70 milhões de anos atrás, considerado um dos mais completos já encontrado, a mandíbula de um Titanossauro, o único descoberto no Brasil, e o esqueleto quase completo de Maxakalisaurus topai, o primeiro dinossauro de grande porte montado no país.

Maxakalisaurus topai. Crédito: Wikimedia Commons

Arqueologia egípcia e clássica

A coleção de arqueologia do Museu Nacional era a maior e mais antiga de toda América Latina. O acervo oriundo do Egito Antigo contava com mais de 700 peças como múmias e sarcófagos e o acervo das civilizações grega e romana tinha 750 peças.

Com o incêndio, suspeita-se que tenha se perdido o Sarcófago de Hori, peça do Terceiro Período Intermediário da civilização egípcia (1049-1026 a.C.), e a Estatueta de Koré, elemento do Período Arcaico da Grécia Antiga (século V a.C.) que foi incorporado posteriormente pela cultura romana. Outra peça de enorme valor era o esquife Sha-Amun-En-Su, datado de 750 a.C., adquirido por Dom Pedro II em sua segunda visita ao Egito.

Sha-Amun-En-Su. Crédito: Wikimedia Commons

Itens de civilizações ameríndias

O acervo de etnologia do Museu Nacional era único. A coleção de itens abrigava artefatos, objetos e registros exclusivos de culturas de povos indígenas de toda a América (desde civilizações postas à margem do oceano Atlântico como à margem do Pacífico) e de povos afro-brasileiros.

No total, contabilizava-se mais de 1.800 peças de civilizações ameríndias da era pré-colombiana. Além disso, havia gravações em áudio, registradas a partir de 1958, de línguas indígenas sem falantes vivos, o mapa étnico-histórico-linguístico original com a localização de todas as etnias brasileiras e todo o arquivo do etnólogo de origem alemã Curt Nimuendajú (nome de registro Curt Unckel) que percorreu etnias indígenas brasileiras por 40 anos.

Acervo do Museu Nacional. Crédito: Wikimedia Commons