Siddhartha Mukherjee. Crédito: Greg Salibian

Fronteiras: “prevenir é prioridade para tratar câncer”, diz Siddhartha

Médico oncologista e escritor premiado, Siddhartha Mukherjee explica a história do câncer, como ele opera no organismo e de que maneira tratar: “não existem dois cânceres iguais, cada um é único”, afirma

Na mais recente edição do ciclo de palestras e debates Fronteiras do Pensamento, em São Paulo, o médico e escritor Siddhartha Mukherjee apresentou uma palestra sobre a história, as causas e os possíveis tratamentos do câncer.  A médica geriatra e especialista em cuidados paliativos e suporte ao luto Ana Claudia Quintana Arantes mediou o evento. Neste ano, os eventos promovidos pelo Fronteiras do Pensamento têm como tema central: “mundo em desacordo, democracia e guerras culturais”. A palestra de Siddhartha tinha como objetivo traduzir em linguagem compreensível as muitas variáveis da doença.

Nascido em Nova Delhi, capital da Índia, Siddhartha estudou biologia na Universidade Stanford, imunologia na Universidade Oxford e se formou em medicina na Universidade Harvard. Especialista em oncologia, é médico e professor assistente no centro médico da Universidade Columbia. Seu livro O imperador de todos os males: uma biografia do câncer (Companhia das Letras, 2012) foi um sucesso de vendas e vencedor do Prêmio Pulitzer de 2011. Escreveu também The Laws of Medicine (TED Books, 2015) e O gene: uma história íntima (Companhia das Letras, 2016).

“Muita gente conhece alguém que passou por uma quimioterapia. Vocês que já viveram isso, sabem que todos fazem a mesma pergunta: por que eu? Ou por que minha mãe ou por que o meu filho?”, disse Siddhartha ao abrir sua palestra. “Nós estamos começando a entender esta resposta em um nível mais detalhado, celular e molecular. O que já temos compreensão é que há uma enorme diversidade de cânceres possíveis: não há dois iguais no mundo, todo tipo de câncer é único”, explica.

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O medo do câncer e a proliferação dos pré-viventes

“Em 1986, estive em uma audiência onde foi perguntado quais eram as palavras que mais davam medo nas pessoas. Venceram tubarão e câncer”, relembra Siddhartha. Para ele, o medo do câncer e todos os sentimentos que o envolvem correm o risco de serem normatizados em nossa cultura. E o efeito desse fenômeno é ambíguo.

Siddhartha sugere que em um futuro próximo, todos nós poderemos ser pré-viventes do câncer. Na linguagem médica, trata-se de uma palavra associada ao vocabulário do câncer para o sobrevivente de uma doença que ainda não aconteceu. Este termo geralmente se refere a pacientes que sobreviveram a um primeiro câncer e estão, portanto, em situação de risco para o surgimento de uma segunda versão da doença.

Uma eventual atenção excessiva aos riscos do câncer pode representar sobrecarga emocional, mas ela é uma grande aliada no combate à doença. Siddhartha explica que o modelo ideal de enfrentamento ao câncer deve ser pensado como uma pirâmide, na qual a base é composta pela prevenção, ou seja, pela identificação de estados cancerígenos, como obesidade e tabagismo. No centro e no topo desta pirâmide estão, respectivamente, a detecção precoce (possível cada vez mais pessoas com o uso de novas tecnologias) e o tratamento de precisão (que combina o uso de conhecimentos da genética e na fisiologia para criar novos paradigmas de ação). “O problema do tratamento é que algumas sociedades não têm como arcar com seus custos. Nos EUA, o valor pode chegar a US$ 400 mil”, informa o médico. “Por isso, o foco deve ser a base da pirâmide”.

A origem da doença – no corpo e na história

“Muita gente pensa que o câncer é uma doença nova, moderna, mas ela é uma das mais antigas conhecidas da humanidade”, afirma o indiano. Ele argumenta que, hoje, há mais incidência de câncer porque nossa espécie vive mais tempo e, portanto, aprendemos a eliminar outras formas de morte.

O autor do livro O imperador de todos os males: uma biografia do câncer apontou que há registros históricos que demonstram a existência de uma doença com características similares 2,5 mil anos antes de Cristo e que a moléstia recebeu o nome de câncer do filósofo grego Hipócrates (460 a.C. a 370 a.C.), que associou a imagem dos tumores à imagem de caranguejos sob a pele.

Durante séculos, afirma Siddhartha, médicos trabalharam com a hipótese de que a causa do câncer estava ligada exclusivamente a fatores externos. Apenas no século 19, os médicos perceberam que se tratava de um crescimento anormal das células. “Ficou claro que o tumor parte de uma célula normal que, de repente, não sabe mais quando parar de crescer e vira cancerígena”, explica o médico.

“A quais sinais a célula observa para parar de crescer? E por que a célula cancerígena não nota esse sinal? Não sabemos o porquê ainda, mas é algo fundamental para o estudo da fisiologia celular, que está em crescimento”, relata.

As teses contemporâneas que explicam, ao menos em parte, o câncer tiveram entre seus expoentes o médico oftalmologista brasileiro Hilário Gouveia. Hilário observou que em determinadas famílias o câncer era uma doença que atravessava gerações e alegou que um de seus fatores seria a hereditariedade.

Outros elementos foram somados à questão hereditária. Primeiro, notou-se que elementos externos contribuem para o surgimento da doença – um médico inglês observou a reincidência do câncer entre crianças que limpavam chaminés em Londres. Depois, somaram-se a isso o fator aleatoriedade e até a correlação com alguns tipos de vírus.

“Hoje, há forte evidência de que o fator mais determinante é o genético, mas todos os demais fatores interferem: o acaso age para criar mutações genéticas, vírus podem penetrar a célula e mudar a descrição genética - e comportamentos como tabagismo também colaboram”, elenca Siddhartha.

O que a ciência aponta para o tratamento do câncer?

Siddhartha acredita que a medicina deve pensar o tratamento de forma mais holística, que tenha atenção dedicada à prevenção e à detecção precoce dos pacientes. “Hoje, há supercomputadores que podem ler nossos genomas e, apenas com informações genéticas, prever a nossa altura. Podemos imaginar que seja possível fazer perguntas mais sofisticadas a esses computadores, como risco de doenças”, afirma.

Perguntado sobre o impacto dos pensamentos positivos e da religiosidade no tratamento, o médico foi cauteloso. “Com base na minha experiência, afirmo que sim, faz diferença na qualidade de vida do paciente enfrentar a doença de forma otimista. Mas não é justo, nem correto, dizer que isso seja capaz de aumentar seu tempo de vida. Afirmar isso é afirmar que a culpa do sofrimento é do paciente. Isso é errado”, conclui.