Pondé e Lilla. Crédito: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian

Fronteiras: Lilla e Pondé debatem sobre os caminhos da democracia

Os professores se encontraram na noite de encerramento da temporada 2018 do Fronteiras do Pensamento para falar sobre cidadania, solidariedade, política e os rumos que estamos desenhando para o futuro

O projeto cultural Fronteiras do Pensamento, que este ano se encerra em novembro, recebeu, para a última palestra da edição 2018, o cientista político e jornalista Mark Lilla, professor da Universidade Columbia, em Nova York. Com ele estava também o filósofo, professor e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé. Ambos debateram sobre o futuro da democracia sob a mediação de Fernando Schuler, pós-doutor pela Universidade Columbia e professor do Insper, no Brasil.

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Lilla abriu a noite expondo os principais argumentos de seus livros recentes que remontam a história e analisam o progresso crescente não só do neo-liberalismo, como também de tendências antidemocráticas em diversos países do mundo. “Dentro da esquerda americana, na ala mais liberal, desenvolveu-se uma nova ideologia ainda mais focada nas identidades individuais de grupos. Esse processo foi na verdade bastante paradoxal.”

Lilla destaca que os movimentos que agitaram os EUA na década de 1950 agiram tendo como mote a solidariedade de grupos que desejavam direitos civis igualitários, incluindo afro-americanos, mulheres e gays. “Considero que as lutas por esses direitos foram um dos momentos mais gloriosos da história do meu país.”

Ele ressalta que a linguagem desses movimentos dava ênfase à igualdade, não às diferenças individuais. E que foi necessário um grande esforço para convencer a população conservadora a se juntar às reivindicações, cujas conquistas se preservam ainda com luta. “Mesmo na era de Donald Trump, ainda é uma sociedade infinitamente mais aberta e tolerante do que foi há 50 anos e essa é uma excelente notícia.”

Indivíduos como partículas solitárias

Lilla segue acompanhando as principais movimentações políticas de peso na história dos cidadãos norte-americanos e analisa como a ideia de grandes grupos de identificação coletiva e a linguagem de solidariedade entre cidadãos foi lentamente sendo substituída por uma identidade cada vez mais singular e desconectada de contexto social ou grupos de apoio e reivindicação.

“Durante a era Reagan (Ronald Reagan, republicano, presidente dos EUA entre 1981 e 1989), alguma coisa mudou na esquerda americana, que trocou a linguagem sobre igualdade para cidadãos para uma linguagem sobre identidade pessoal e reconhecimento das diferenças sociais. Em outras palavras, uma troca do princípio da solidariedade para o princípio de auto-definição.” Na opinião do professor, a repercussão dessa nova postura trouxe como consequência a viabilidade da união formal entre pessoas do mesmo gênero, por exemplo. Mas o contínuo avanço da fragmentação leva jovens a questionarem seu gênero isoladamente, descrevendo-o de maneiras que podem os levar a um isolamento cada vez maior.

“Eles pensam em si mesmos primeiramente como indivíduos possuindo identidades únicas que as diferenciam de pessoas com outras identidades. Essa é a razão pelas quais eles são tão facilmente ofendidos”, diz Lilla. Além disso, a consequência do excesso de individuação acarretaria, segundo o professor, em sofrimento por solidão. “Jovens estão protelando o casamento mais e mais ou simplesmente escolhendo viver sozinhos. Taxas de depressão e suicídio continuam subindo no mundo ocidental, mais alarmantemente entre os mais jovens.”

Para Lilla, isso não acontece porque falta dinheiro, oportunidades ou porque esses jovens estão muito estressados. “É porque eles são como todos nós, que estamos vivendo vidas cada vez mais solitárias. Isolados da família e uns dos outros. Nós estamos nos tornando o que o escritor francês Michel Houellebecq chamou em seu terrível romance de “Elementary Particles” (partículas elementares, em tradução livre).

Virtudes da democracia

Em suas colocações, Luiz Felipe Pondé ponderou sobre a maneira com que o sistema democrático tramita entre inverdades e mitos que, por sua vez, fragilizam a percepção de que é preciso fazer muito esforço para garantir nossos direitos democráticos - esforço que alguns de nós talvez não estejamos dispostos a fazer. A liberdade de expressão é um desses direitos democráticos. “Grande parte da população, apesar de dizer que se preocupa com a liberdade de expressão, na verdade não o faz. As pessoas vivem muito bem sem liberdade de expressão.”

Segundo Pondé, embora a boa vontade esteja presente, prioridades individuais concorrem pela nossa atenção cotidiana. “Uma das características de pensar de forma ideal a democracia é que você vai pra casa, deita e dorme feliz com você mesmo, achando que é uma pessoa super envolvida com as ditas virtudes da democracia, quando talvez a principal preocupação seja antes de tudo o jantar e não a tal da liberdade de expressão. Por isso, de repente, você se vê apoiando determinadas posições que não seriam tão democráticas.”

Outro mito comumente aceito, para o professor, seria a ideia de que pessoas mais preparadas culturalmente, com repertório mais amplo ou que tiveram mais acesso à educação formal, supostamente estariam aptas a tomarem melhores decisões políticas. “Simplesmente não parece verdade. Você pode ser uma pessoa razoavelmente informada e com enorme viés ideológico.”

Além disso, a democracia como sistema agregador que permite a flexão entre direitos individuais e coletivos estaria fracassando em sua função de manter o diálogo e a abertura política. “Pelo menos em grande parte, quanto mais as pessoas discutem política, mais elas se odeiam, a não ser que estejam discutindo entre conversos. Você fala com pessoas que pensam igual a você e são elas que você convida pra jantar, certo?”

Destino convergente

Ambos destacam as fragilidades da democracia e como a falência da cidadania nos levará a desgastantes conflitos. Ao compartilharmos os mesmos territórios, interesses maiores e laços sociais, não existe a possibilidade de não colhermos os frutos por escolhas equivocadas de nossos compatriotas que, por exemplo, votaram em quem nós não votamos.

“A única coisa que realmente nos mantêm juntos são os laços da cidadania. Às vezes os laços são mal feitos ou mal apertados - se forem frouxos, as coisas começam a ruir muito rapidamente”, diz Lilla. Ele alerta que a construção desses laços leva muitas gerações, mas podem entrar em declínio facilmente pela força dos radicalismos.

“Democracia sem direitos democráticos não dura. Ela encaminha a oligarquia, teocracia, nacionalismo, tribalismo, autoritarismo. Eu não estou exagerando quando digo que existe cada uma dessas patologias na vida democrática americana dos dias atuais. E é triste pensar que o Brasil pode logo começar a sofrer das mesmas doenças que nós sofremos.”

Para Luiz Felipe Pondé, a solução pode estar além dos votos e talvez passe pela formação de um novo sistema menos representativo que possa avaliar questões técnicas com celeridade. A forte atuação do Supremo Tribunal Federal no Brasil seria um sinal de que a democracia estaria se adaptando a um modo de diminuir um pouco a pressão popular, sobretudo em temas técnicos de gestão, ao julgar o que é constitucional e o que não é. Assumiríamos, então, que o voto teria um papel menos influente. “Em vez de decidir sobre a economia, podemos apenas decidir sobre um economista que pode decidir sobre o nosso país.”

 

Conteúdo publicado em 11/12/2018