Arte e sociedade. Crédito: Ryoji Iwata/Unsplash

Fronteiras do Pensamento: “a arte humaniza”, afirma Vik Muniz

Em debate sobre um mundo em desacordo e uma sociedade dividida, Vik Muniz e Fernanda Torres falam a respeito da posição e da função da arte neste contexto

Na primeira edição de 2018 em São Paulo do ciclo de debates e palestras do Fronteiras do Pensamento, Fernanda Torres e Vik Muniz, mediados pelo filósofo Eduardo Wolf, conversaram sobre a sociedade contemporânea dividida, um mundo globalizado em desacordo e a posição da arte neste contexto como uma possível emancipadora dos indivíduos e dos povos. “Precisamos da arte. A arte humaniza. Ela amplia a imagem de mundo e faz perceber a importância e a riqueza da vida”, resumiu o artista plástico.

O curador do Fronteiras do Pensamento, Fernando Schüler, abriu o evento apresentando o tema que permearia o bate-papo entre Fernanda e Vik: a busca pelo consenso em uma guerra cultural. “Como podemos enfrentar o mal-estar da democracia contemporânea e o renascimento de fenômenos como a xenofobia, o fundamentalismo e o totalitarismo? A sociedade não deve ser homogênea, é saudável que haja múltiplas vozes, mas como agir neste contexto marcado pela divergência?”, provocou Fernando.

Qual o lugar da arte no mundo contemporâneo?

Primeira a assumir o microfone, Fernanda Torres centrou sua fala na crise entre as expectativas de sua geração para o futuro e a realidade que se impôs, sobretudo após a popularização da internet. “Vivi o fim da Guerra Fria e tive um delírio de um futuro conectado, sem fronteiras. A internet, que David Bowie chamou de ‘forma alienígena’, mudou tudo e destruiu estruturas, inclusive nas artes, no mercado fonográfico, no cinema e na TV”, disse.

Para a atriz e escritora, esta nova ordem dos tempos concentra ainda mais a riqueza em poucas mãos e coloca tudo em xeque, mas afeta principalmente a arte e o jornalismo – uma vez que, acostumados pela abundância de conteúdo grátis, as novas gerações não veem valor em sua produção. “Há uma sensação generalizada de insegurança e, por isso, nos fechamos em nichos, dentro de nossas fronteiras”, analisou. “Como artista, é difícil viver nesse mundo. O que faço deve ocupar o meu nicho, de mulher branca de elite, ou é para todos? Acredito que arte é o lugar entre fronteiras, que não é conciliadora, mas, sim, a dúvida e a contradição humana”, disse.

Fernanda acredita que a emergência de questões identitárias não é um problema em si, mas um fator de atenção. “O Brasil tem uma carga da escravidão que nunca foi resolvida e é chocante sua representação na teledramaturgia. Só pude notar isso com esses novos movimentos”, relatou. “Há uma ideia crescente de que a arte deve educar pessoas. Só não sei se vai dar em algo pior ou melhor”.

Em seguida, Vik Muniz questionou: “o que é o mundo?”. “Minha filha me perguntou isso um dia e percebi que a resposta que ela queria não era sobre o planeta, mas sobre este mundo que é um fluxo de acontecimentos, das sensações, de coisas. E a melhor resposta a que pensei é que se trata de uma imagem coletiva, uma imagem de mundo”, disse.

Vik recordou o surgimento da imagem para a humanidade, que data de 60 mil anos atrás, de acordo com as descobertas arqueológicas.

Para o artista plástico, é a imagem que faz as memórias surgirem e dá sentido a elas, e faz com que todos que a vejam sintam as mesmas coisas. “A invenção da representação é, junto com o controle do fogo, uma das descobertas mais importantes da humanidade. E quanto mais perto chegarmos do simulacro absoluto, mais iremos querer melhorar, e a arte tem a ver com essa corrida entre a desilusão e a tecnologia”, afirmou. “O artista trabalha entre o interno e o externo, entre a mente e o ambiente. É a interface entre a consciência e o fenômeno, assim como a ciência e a religião”.

Esses três itens, explicou Vik, fazem parte do desenvolvimento histórico e individual do ser humano e marcam sua trajetória nos aspectos mental e material. Ele acredita que chegamos a um estágio do mundo no qual a tecnologia faz parecer extremamente fina a membrana entre a realidade e a sua representação, e o resultado é “aterrorizante”. “Assim, ideias toscas tomam conta de pessoas perdidas e com medo dessa complexidade. E a única medida possível para trabalhar nessa imagem de mundo é através da educação e da arte”, concluiu.