Fronteiras do pensamento Alejandro Zambra e Javier Cercas. Crédito: Greg Salibian

Fronteiras: Cercas e Zambra debatem literatura e seu impacto político

No palco do Fronteiras do Pensamento, os escritores Alejandro Zambra e Javier Cercas palestram sobre fundamentos da literatura e debatem sobre a relação dos livros com o contexto social e político

O palco do ciclo de palestras e debates Fronteiras do Pensamento, em São Paulo, recebeu em sua edição mais recente dois dos maiores nomes da literatura contemporânea de língua espanhola. O chileno Alejandro Zambra e o espanhol Javier Cercas palestraram e debateram sobre o espaço da literatura na construção do indivíduo e na construção da sociedade, mediados pelo jornalista Cassiano Elek Machado, editor da revista Planeta Brasil.

Neste ano, os eventos promovidos pelo Fronteiras do Pensamento têm como tema central: “mundo em desacordo, democracia e guerras culturais”.

Alejandro Zambra é romancista, poeta e ensaísta e foi eleito pela revista britânica Granta como um dos 22 melhores jovens escritores hispano-americanos. Nascido em Santiago, capital do Chile, Zambra tem em sua cidade natal e em seus conterrâneos grande parte da inspiração de suas obras. Seu primeiro romance, “Bonsai” (Ed. Cosac Naify, 2006), foi amplamente premiado e adaptado para o cinema. Seu livro mais recente se chama “Múltipla Escolha” (Ed. Tusquets, 2017) e trata sobre política, desigualdade, educação e a memória chilena.

Professor licenciado das universidades de Girona, na Catalunha, e de Illinois, nos Estados Unidos, Javier Cercas já teve sua obra traduzida para mais de 30 idiomas. Seu romance de maior sucesso, “Soldados de Salamina” (Ed. Biblioteca Azul, 2012), trata sobre a relação de Rafael Sánchez Mazas, escritor e ideólogo do partido conservador espanhol Falange, com a guerra civil espanhola – o livro vendeu mais de 1 milhão de cópias. Seu romance mais recente, “El monarca de las sombras” (Ed. Random House, 2017), também trata da guerra civil espanhola e as tensões do autoritarismo.

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Zambra: “escreve-se para ler aquilo que gostaríamos de ler”

Alejandro Zambra. Crédito: Greg Salibian

Zambra abriu sua conferência lendo um texto de sua autoria a respeito do que significa o ato de escrever. “Escreve-se para ler aquilo que gostaríamos de ler”, afirmou Zambra. Ele fez referência à obra “Descoberta do Mundo” (Ed. Rocco, 2008), de Clarice Lispector, escritora que classifica como “formidável” e a quem homenageou em sua fala.

Durante seu discurso, Zambra recordou sua infância e narrou sua formação intelectual, na qual fora apresentado apenas a dois tipos de literatura: a chilena e a universal. “Não havia uma coleção de literatura nativa latino-americana. Minha geração cresceu sob a ditadura, mas com a abertura dos anos 1990, conhecemos muita coisa boa nova”, contou.

Em sua reflexão sobre a literatura, Zambra novamente se referiu à Lispector para concluir que se deve desconfiar de toda escrita fácil. “São desejos de desdobrar imagens”, disse. “Os livros que eu escrevi, imaginava diferente. Nunca soube bem o que quis representar, hoje penso que talvez fosse nada”, concluiu.

Cercas: “um livro não deve responder a nada, a resposta é a própria busca”

Javier Cercas. Crédito: Greg Salibian

Acadêmico de vasto currículo na Espanha, Cercas analisou a estrutura do romance moderno. Para ele, os melhores romances são aqueles onde há um “ponto cego”, ou seja, uma pergunta que jamais é respondida na lógica interna da própria obra. “Onde não se enxerga nada, a literatura vê. É o silêncio que torna o romance eloquente, é essa escuridão que ilumina o leitor”, afirmou.

Para Cercas, a função de um bom romance não é oferecer respostas, mas formular as dúvidas da forma mais completa o possível. “A resposta é a própria busca”, afirmou. Por isso, explica, um livro jamais pode existir por si mesmo e seu valor só se dá na medida em que o leitor o lê. “É um monte de letras mortas que renascem ao serem lidas. É como uma partitura que cada um interpreta à sua maneira; e quanto mais interpretações, melhor”, concluiu.

Em sua fala, Cercas citou os romances “Dom Quixote de la Mancha” (1605), escrito por Miguel de Cervantes, “O processo” (1925), de Franz Kafka, e “Mody Dick” (1851), de Herman Melville, como exemplos bem-sucedidos do emprego do ponto cego. “Dom Quixote, por exemplo, está ou não está louco? Ele está e não está, ao mesmo tempo. É um mundo sem verdades monolíticas, é uma verdade irônica e contraditória”, analisou.

Literatura como combate ao totalitarismo

No Chile, Alejandro Zambra cresceu sob o governo ditatorial do general Augusto Pinochet e, afirmou, a literatura foi fundamental para escapar à repressão. “Acredito que as pessoas que compartilharam aquela infância na ditadura chilena têm um sentimento comum de escassez de viver o mundo. Sentíamos que não éramos protagonistas, mas que era importante narrar as nossas versões dos fatos e de contar as nossas histórias”, disse.

“Meu livro “Múltipla Escolha” surgiu de um desejo grande de refazer tudo. Pensava: ‘o que a ditadura fez, como ela ocupou seu cérebro?’ Consegui fugir disso graças à literatura, colocando tudo em dúvida. Nos textos, cito Pinochet e acho terrível que esse debate, que parecia encerrado, tenha voltado à tona em países como o Brasil”, concluiu o chileno.

Javier Cercas também viveu parte de sua vida sob o regime totalitário da ditadura do General Francisco Franco, na Espanha. “O combate de hoje é o mesmo de sempre: a busca da verdade, mas não aquela factual, jornalística, mas a verdade moral e humana”, disse. “Nós, escritores, temos responsabilidade grande porque as palavras criam a realidade, e a literatura é complexa a ponto de combater a mentira”, afirmou.

O escritor e pesquisador disse, ainda, que o populismo é fruto das mentiras e que nossa sociedade global está mergulhada nelas – sobretudo nos Estados Unidos e no Brasil. Para ele, o rescaldo da grande crise econômica de 2008 vem provocando a emersão desse totalitarismo do mesmo modo como a crise de 1929 instigou o surgimento do fascismo, nazismo e da Segunda Guerra Mundial. “A história não se repete exatamente igual, mas temos que ter cuidado e não repetir os mesmos erros e acreditar em soluções mágicas e simples”, concluiu.