Amanda Lemos e Fernanda Frazão. Crédito: Divulgação

Conheça a história do documentário “Chega de Fiu Fiu”

Filme lançado em 2018 foi exibido durante a edição deste ano da Virada Sustentável em São Paulo; conheça as origens do projeto, que começou como uma campanha online contra o assédio e arrecadou mais que o triplo da meta

Tereza, Rosa, Raquel: as três mulheres retratadas por Amanda Lemos e Fernanda Frazão que, pela diversidade, têm o poder de representar as mulheres de um país inteiro. As duas diretoras, hoje com 32 anos, tiveram a ideia de fazer um documentário quando viram o mapa da violência da campanha Chega de Fiu Fiu, lançada em julho de 2013 por Juliana de Faria, criadora da ONG feminista Think Olga. O filme foi pensado como uma nova forma de discutir o assédio e a relação entre gêneros na ocupação de lugares públicos.

A pesquisa conduzida pela campanha Chega de Fiu Fiu mostra que 98% das mulheres já sofreram assédio. “Esse é o dado. Mas a gente sabe que todas sofrem. E esse era um tema que me inquietava muito. Eu me lembro de sofrer muitos assédios, principalmente a caminho do trabalho, enfim, no meu dia a dia... dois, três por dia, de várias formas. E isso me incomodava, me deixava muito insegura. Ao mesmo tempo eu sempre gostei de caminhar pela cidade, de voltar a pé pra casa. Passei por várias situações de assédio do metrô, de me sentir intimidada, caras falando coisas, ser perseguida na rua...”, conta Amanda. “Então eu não precisei de empatia para entender o que era. Eu vivi aquilo na minha pele.”

Tanto Amanda quanto Fernanda conversaram com o bluevision durante a Virada Sustentável em São Paulo, que teve uma sessão para a exibição do documentário. No começo, a ideia era que a Amanda, jornalista que trabalhou por dois anos na ONU Mulheres, cuidasse mais da direção de conteúdo, e Fernanda, que já trabalhava com fotografia e vídeos para revistas femininas, cuidasse da direção artística. Durante o processo, no entanto, a direção foi completamente compartilhada e elas não sabem mais definir quem fez o quê. Leituras, pesquisas, metodologias, insights e experiências pessoais foram se cruzando durante os 4 anos de preparação, filmagens e montagem do longa-metragem, o primeiro da carreira de ambas. A campanha lançada no Catarse em 2014 para a realização do projeto arrecadou a meta em 24 horas. Ao final do período estipulado elas atingiram 322% do valor inicial proposto. Isso dá uma ideia da demanda reprimida sobre formas de debater o tema.

“Quando a gente vê os dados da pesquisa, a sensação é de que você não tá sozinha, de que não é só com você. Eu, que sou do interior, tenho uma relação muito diferente com a cidade. Sou de São José do Rio Preto. Conheci a Amanda quando me mudei para São Paulo, em 2011. Minha vivência com o espaço público é muito distinta. Não tem metrô, as linhas de ônibus funcionam de maneira diferente, a maior parte das pessoas têm carro. Em São Paulo as pessoas andam muito nas ruas. Mas com dez anos, quando surgiu o primeiro assédio, eu senti a mesma coisa que a Amanda. Um homem mostrou o pinto pra mim na rua. Com a maioria das mulheres acontece assim, né?”, conta Fernanda.

Individualidades coletivas

As experiências íntimas, pessoais e públicas despertaram ambas para o estudo que deu origem ao filme. Preocupadas com a representação territorial, social, étnica e de gênero, a escolha das personagens foi particularmente abrangente. Tereza Chaves é uma paulistana de classe média alta, professora de história, que circula pela cidade de bicicleta. Rosa Luz, uma ativista trans e negra de Gama, Brasília, é artista visual, rapper e YouTuber, dona do canal Barraco da Rosa TV. Raquel Carvalho é uma mulher negra de Salvador, Bahia, que trabalha como manicure e vive um relacionamento homossexual estável. Assim, a sobreposição de temas ligados às identidades é garantida pelo documentário, que também coloca os homens para discutirem entre si o que é assédio e como ele acontece.

Fernanda explica que, durante as filmagens, também usou óculos com câmera para flagrar comportamentos abusivos. Mas teve dificuldades porque, como ficava muito nervosa, balançava excessivamente a cabeça, fazendo com que as imagens fossem prejudicadas. “Na hora você é tomada por vários sentimentos. Eu ficava muito irritada, eu queria gritar. Eu sou diferente da Amanda, eu grito com o cara. Mas aprendi muita coisa. Principalmente que dialogar é muito difícil na hora que você está com raiva. Acho que isso é uma das coisas que mais me emocionam no filme. Que a gente foi capaz de travar um diálogo. As pessoas saem da sessão e conversam.”

“O limite de como eu posso agir tem muito a ver com o que eu tenho de ferramenta pessoal", reflete Amanda. "Tipo, um cara fala comigo na rua, será que eu vou xingar ou vou falar ‘ô, vou te denunciar’? Ou não vou falar nada, porque naquele dia eu não tive capacidade pra falar? Eu acho que pra mim o grande ganho foi a assertividade e a segurança de que eu não sou culpada. Esse foi o meu maior aprendizado. Da mesma forma que as pessoas estão vendo hoje e falando ‘ah, tá, eu entendi, eu aprendi o que é o assédio’, eu também tive essa reação quando vi a campanha. E eu queria que mais pessoas pudessem sentir isso.”

O produto dessa vontade de dialogar já foi exibido no México, Canadá, na França e Inglaterra e pode ser visto em sessões públicas pelo Brasil, mas também pode ser acessado por meio das plataformas dos canais Philos e GNT. Para Fernanda, “aí tem um poder. Meu pai finalmente entendeu o que aconteceu. Eu podia falar mil vezes. Quando ele assistiu, entendeu o que a gente estava falando. Realmente toca. A linguagem audiovisual é capaz de fazer isso. Nesse sentido eu me sinto muito satisfeita. Particularmente não acho que eu sozinha vou conseguir mudar o mundo, pegar na mão de um homem, de outro e outro pra ensinar. Não vou fazer isso. Eu nem concordo que a gente deveria fazer, porque eu também tô de saco cheio.”

Teoria da Mudança

Amanda explica que mudanças sociais exigem um processo profundo de revisão e transformação de crenças, hábitos e comportamentos. Pensamentos e atitudes têm diferentes graus de profundidade e precisam ser compreendidos no seu contexto para serem impactados. A Teoria da Mudança é uma metodologia especialmente utilizada por organizações para criar ações, planejar e acompanhar a evolução ao longo do desenvolvimento de uma campanha de impacto social, por exemplo. A origem da metodologia é imprecisa, mas calcula-se que essa corrente de trabalho teve início em 1959, com o "Modelo de Avaliação de Quatro Níveis de Aprendizagem", do educador Donald Kirkpatrick.

“Eles são ensinados a tratar e a olhar para a mulher como seres vulneráveis, frágeis, objeto sexual. Quando você entende as causas, sabe que não vai ser fácil modificar, porque o homem aprendeu a vida inteira, desde os primeiros anos de vida. Eu sei que só uma conversa dificilmente vai ter um impacto. É preciso campanhas, causas, indicadores para acompanhar, metas. São anos de formação e conteúdos até aquela pessoa entender do que você está falando. E o filme acelera esse processo, porque condensa experiências. É um atalho.”

Fernanda completa: “quando você usa os óculos com câmera e está olho no olho com uma pessoa que te assedia, o expectador se põe nesse lugar. Eu sei que é pouco, mas tem uma função. Física mesmo. Que te transporta para outro lugar. E isso é muito potente.” As duas diretoras concordam com soluções integradas e que invistam sobretudo na educação formal de meninos e meninas na fase escolar. Iniciativas separatistas, como um vagão só para mulheres, devem ser encaradas, segundo elas, como ações pontuais e de curta duração, já que a violência de gênero é relacional. Nas ruas, escolas, universidades e ambientes profissionais não é possível manter homens e mulheres em seções apartadas.

Embora estejam satisfeitas, o primeiro filme está longe de esgotar o debate. Ao contrário, a experiência abre a exploração a vários outros temas que se relacionam ao assédio e à ocupação de lugares públicos. “Os homens que não viram o filme falam ‘ah, mas então vocês não querem mais flertar? E não é nada disso que a gente está falando”, diz Amanda. Além de debater a sexualidade em um próximo longa-metragem, aprofundar as questões suscitadas pelo corpo feminino está entre os assuntos de interesse da dupla. “Mas de entrar um pouco mais no tema do corpo da mulher e como a gente é engavetada em tantos padrões, como isso é nocivo e ferra muito a nossa cabeça. E como a gente precisa se libertar, inclusive para explorar a sexualidade em toda a sua potência. Ter autonomia e ver o corpo como um instrumento de vida plena”, conclui Fernanda.