Horta comunitária

Calçada em más condições vira horta comunitária premiada pela ONU

Em Curitiba, moradores do bairro Cristo Rei tomam conta do espaço e cultivam plantas alimentícias no local: ação foi chancelada pelo projeto UN Food Garden

De uma calçada abandonada nasceu uma ideia que chamou a atenção até da Organização das Nações Unidas. O trecho do passeio público em questão estava em péssimas condições de conservação quando os moradores da rua Roberto Cichon, localizada no bairro de Cristo Rei, em Curitiba, decidiram ocupar o lugar para plantar mudas. Hoje, a Horta Comunitária de Calçada Cristo Rei é especializada em plantas alimentícias não convencionais e foi premiada pela UN Food Gardens, da ONU.

A ação da comunidade começou de forma despretensiosa. Um morador do prédio localizado em frente à calçada notou que o espaço estava abandonado e resolveu agir, plantando algumas sementes por lá. O exemplo foi seguido por mais moradores da rua, que passaram a colaborar com novas sementes e mudas. Rapidamente, a horta se tornou coletiva.

Da primeira semente, depositada no solo em novembro de 2016, até a chancela do projeto pela UN Food Gardens, passou-se pouco mais de um ano. No certificado emitido pela organização, em dezembro de 2017, afirma-se que a homenagem “é o reconhecimento dos esforços notáveis ​​dos membros da Horta Comunitária de Calçada Cristo Rei para promover a agricultura urbana sustentável e contribuir para a segurança alimentar e o bem-estar de sua comunidade”.

Como funciona a horta comunitária?

De acordo com os moradores, a organização é extremamente democrática e comunitária: quem quiser cultivar só precisa levar uma muda e plantar, e qualquer pessoa é livre para colher tudo o que desejar. “É uma ação direta, horizontal e autogestionada, onde todos têm voz e participam ativamente das decisões. A horta não se limita apenas aos moradores do bairro, todos são bem vindo para colher, plantar, cuidar”, conta Jorge Koch, porta-voz do projeto.

A natureza popular e ativa da iniciativa foi fundamental para permitir que ela se mantivesse em atividade, principalmente após a ação da Prefeitura de Curitiba. A administração municipal recebeu uma denúncia de falta de limpeza e enviou um fiscal ao local, que decidiu aplicar uma multa e notificar oficialmente o proprietário do terreno para a retirada da horta - a responsabilidade legal da manutenção da calçada é do dono do terreno ou imóvel da qual ela está em frente.

A reação da comunidade conseguiu reverter a decisão e a iniciativa seguiu de pé, com o apoio do proprietário e de ainda mais gente. “A horta ganhou uma visibilidade muito grande, além de estar inserida num coletivo mais geral de agricultura urbana da cidade, com capacidade de mobilização para convocar mutirões”, relata Koch. Hoje, são quase 50 pessoas envolvidas diretamente na horta e cerca de mil apoiadores. A horta, em breve, deverá ser batizada com o nome de uma de suas participantes mais ativas: após o falecimento de Su Tamae, os moradores estão prestes a oficializar a mudança de nome para homenageá-la.

Na organização do dia a dia, as tarefas são divididas de maneira informal, mas grupos se formaram para realizar determinadas funções: um deles se responsabiliza pelas sementes, outro cuida da jardinagem da horta e um terceiro colhe as mudas. Assim, afirmam os moradores, todos se beneficiam igualmente.

O que se planta na horta comunitária?

“O objetivo da horta é cultivar alimentos e potencializar o ocupação positiva dos espaços públicos, com base comunitária”, explica Koch. Por isso, todo tipo de alimento é bem recebido por lá: atualmente, a calçada dá vida a exemplares de boldo, couve, alecrim, inhame, gengibre, batata-doce e morango.

No entanto, cada vez mais os moradores vêm se especializando no cultivo das chamadas PANCs (plantas alimentícias não convencionais). A lista atual de PANCs apresenta ora-pró-nobis, nabo forrageiro, almeirão roxo, bertalha-coração, dente-de-leão, peixinho da horta, tomate japonês, guasca, moringa, melão-croá, araruta, azedinha, mitsuba, tanchagem e capuchinha.

“As PANCs nascem de forma espontânea, sem que haja a necessidade de plantá-las. Por falta de conhecimento das pessoas, são geralmente eliminadas da horta, mas possuem grande valor nutritivo”, explica Koch.

Atualmente, os membros mais ativos da horta comunitária estão conversando com moradores de outros bairros de Curitiba para ajudar a replicar o modelo.