Caio Túlio Costa. Crédito: Divulgação

Caio Túlio Costa: “mesmo com fake news, internet ajuda a democracia”

Em entrevista ao bluevision, o jornalista e filósofo que foi o primeiro ombudsman da imprensa brasileira falou sobre ética, democracia, jornalismo e fake news

Uma notícia falsa tem 70% mais chance de ser retuitada do que uma notícia verdadeira. Esta é a conclusão de um dos maiores estudos já produzidos sobre o tema, publicado em 2018, na revista Science. Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) analisaram 126 mil notícias que circularam no Twitter entre 2006 e 2017 e concluíram também que conteúdos falsos sobre política, em especial, se espalham até três vezes mais do que fake news de outros assuntos.

A poucos meses de uma eleição presidencial cujas pesquisas mostram alto índice de indecisão dos eleitores brasileiros, as notícias falsas compartilhadas em redes sociais podem se tornar um perigo para o futuro do país.

O 3º Relatório da Segurança Digital no Brasil, publicado pelo dfndr lab, laboratório de segurança da PSafe, mostrou que, apenas entre janeiro e março de 2018, as fake news foram acessadas mais de 2,9 milhões de vezes no Brasil. O documento afirma, ainda, que pelo menos 8,8 milhões de brasileiros foram impactados por essas notícias falsas e que o maior disseminador desses conteúdos foi o WhatsApp, com 95,7% do fluxo total.

Autor do livro “Ética, jornalismo e nova mídia – uma moral provisória” (Editora Zahar, 2009), Caio Túlio Costa é um dos maiores nomes da internet e do jornalismo brasileiros. Doutor em comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), ele trabalhou durante 21 anos no Grupo Folha, onde foi o primeiro ombudsman da imprensa brasileira. Túlio Costa também foi fundador e diretor geral do UOL, o Universo Online, o primeiro provedor de internet e portal de conteúdo de grande porte da América Latina.

Hoje, é professor de Ética em cursos de pós-graduação em jornalismo, também foi o coordenador da área digital das campanhas de Marina Silva (REDE-AC) à presidência do Brasil em 2010 e 2014 e é sócio-fundador da plataforma de monitoramento digital Torabit. Em entrevista ao bluevision, Caio Túlio Costa falou sobre ética, democracia, jornalismo e fake news.

Veja a entrevista a seguir.

Para muita gente que estuda comunicação e política, quando a internet começou a se popularizar, parecia nascer um meio de comunicação verdadeiramente democrático. Duas ou três décadas depois, aquilo que veio a ser chamado de “bolhas” nas redes sociais vêm ajudando a formar grupos cada vez mais fechados, cujas opiniões de seus indivíduos são reforçadas entre si. Hoje, você entende que a internet, sobretudo quando falamos de redes sociais, é um fator que mais colabora ou mais prejudica a democracia?

Caio Túlio Costa: De forma sucinta: colabora com a democracia. A internet deu poder de mídia a qualquer cidadão, qualquer instituição, qualquer empresa. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que acabou o monopólio do poder econômico na mídia, concentrou-se ainda mais este mercado com empresas que vieram correndo por fora, como Google e Facebook. Mas o cidadão ganhou um canal de mídia que nunca teve igual.

Obviamente, isto funciona tanto para o bem quanto para o mal - e este bem ou mal vai depender de qual lado qualquer um está. As redes sociais funcionam como megafones para as opiniões individuais, que antes ficavam restritas aos limites físicos de cada um e ao poder econômico necessário para ser mídia. A humanidade convive com fake news desde antes de Gutenberg. A internet permite que elas sejam distribuídas em larga escala - esta é a diferença.

Do ponto de vista político e de direitos humanos, compreensões de mundo menos inclusivas e menos tolerantes crescem - isso se exemplifica em discursos de ódio e no crescimento de figuras de inclinação fascista em muitos países ocidentais. O ambiente supostamente livre da internet, seja na produção e divulgação de conteúdos-propagandas dessas ideias, seja na formação de comunidades colaborativas, tem papel neste processo? Como e quanto você enxerga a participação de redes sociais neste movimento?

Claro que [as redes sociais têm] um papel importante. A liberdade de falar em rede funciona para qualquer lado, qualquer tendência, qualquer situação. Quem deve regular isto, e está tentando regular, é a sociedade, por meio de suas leis, pela definição do que é crime. As redes estão aí para serem usadas por todas as correntes, todos os indivíduos, não importa sua coloração.

Elas não estão aí para praticar crimes, obviamente. Veja bem: a sociedade sempre conviveu com injúrias, calúnias e difamações, no entanto, tem leis para processar, julgar e punir os excessos. O que deve ser preservado, acima de tudo, é a liberdade de expressão, a sua manutenção irrestrita.

Uma impressão forte que temos é de que a participação do conteúdo produzido pelo jornalismo tradicional tem menos relevância neste ambiente digital. A descentralização da produção de informação, para você, é boa ou ruim - ou, de certo modo, ambos - para o estabelecimento de uma democracia saudável?

Pegue os principais resultados de uma busca sobre uma notícia qualquer no Google e você vai ver que as notícias de fontes tradicionais de comunicação aparecem nos primeiros resultados. Isto mostra que a notícia produzida pelos meios tradicionais têm mais relevância. O que mudou?

Mudou o fato de que agora o jornalista tradicional não é mais o ator principal do noticiário, é apenas mais um ator. Ele compete com outras fontes de informação. Isso só faz bem para o noticiário. A multiplicação de fontes é saudável, mesmo que esta multiplicação traga consigo a produção de material incorreto, distorcido, errado.

O grande trunfo dos veículos tradicionais é o de carregar a aura de credibilidade. Triste é que não estejam preparados para enfrentar esta disrupção que exige grandes investimentos tecnológicos porque mudou completamente o seu modelo de negócio. Mas uma hora ou outra eles vão acertar - ou não sobreviverão.

No Brasil, durante décadas, houve críticas sobre a concentração dos grandes meios de comunicação em poucas empresas. Hoje, grande parte do fluxo de informações é consumido por meio de plataformas de apenas duas empresas: Facebook e Google. O fenômeno não é apenas brasileiro. Qual o perigo desta hiperconcentração midiática?

Enorme. A Europa se adiantou na regulação deste mercado. No entanto, teremos ainda muitas batalhas pela frente. Os veículos regionais, ou nacionais, precisam se unir para competir em escala contra Google e Facebook na publicidade.

Isto é possível de acontecer caso se unifique a plataforma de publicidade de todos os veículos brasileiros, por exemplo. Eles estão unificados no Google e no Facebook, mas não se unificam eles mesmos, o que mostra uma enorme incompreensão da realidade do mercado e das mudanças radicais ocorridas com a emergência da internet.

Fake news é um dos assuntos mais preocupantes dos últimos anos, principalmente quando relacionado à política. Como teremos eleições em 2018, gostaríamos de ouvi-lo a respeito. Acredita que as fake news serão relevantes durante a corrida eleitoral? Em que grau? Acha que podem até definir um/a próximo/a presidente?

Não diria que possam definir o/a futuro/a presidente/a, mas que terão relevância, terão. Assim como tiveram nas eleições passadas - seja nas redes sociais seja na TV, com vídeos absolutamente repletos de mensagens fakes, com uso de mentiras e distorções, produzidos por campanhas eleitorais como, por exemplo, a de Dilma Rousseff, encabeçada pelo marqueteiro João Santana (em 2014).

Ou seja: embora absolutamente antiético, faz parte do jogo eleitoral e político, em última instância, a distorção, a desinformação, a mentira. Não foram as redes sociais que inauguraram este procedimento que [o historiador e filósofo italiano Nicolau] Maquiavel percebeu e definiu lá em 1532 [data da primeira publicação da obra “O Príncipe”].

Já havia fake news no jornalismo tradicional? E, hoje, é possível mensurar a porcentagem de conteúdo fake news que roda, por exemplo, em uma plataforma como o Facebook?

Sempre existiram notícias falsas. A internet facilitou a possibilidade de distribuí-las em larga escala. Quanto à sua mensuração acurada, acredito que nem o Facebook teria condições de realizar este levantamento em sua integridade. Começa pela dificuldade de definir o que é fake news.

Há muitas linhas cinzentas, muitas possibilidades de interpretação. Entretanto, é possível medir, por exemplo, quantas noticiais foram consideradas fake news pelo usuários do Facebook. Isso pega as fake news em sua totalidade? Provavelmente não.

Para você, combater as fake news é função de quais agentes da sociedade: do Estado e da Justiça; da iniciativa privada e das empresas de mídia; do cidadão comum e das militâncias?

É função de todos os que você nomeou, cada um com suas possibilidades e suas responsabilidades; com uma única ressalva da maior gravidade: sem ferir a liberdade de expressão. Cabe ao Estado e à Justiça a regulação, caso não exista, de como proceder criminalmente, julgar e condenar (no caso da Justiça) produtores de notícias falsas, que acarretem prejuízos morais ou materiais. Tudo isso sem ferir a liberdade de expressão.

Cabem às iniciativas privadas, e, especialmente, às empresas de mídia, criarem códigos de conduta capazes de impedi-las de veicular material falso. Elas podem também criar agências de checagem de fatos - tudo isso sem prejuízo à liberdade de expressão. Cabem ao cidadão comum e às militâncias a pesquisa constante e as denúncias das notícias falsas.

Em épocas de fake news e forte polarização de opiniões, o que você recomenda para um cidadão se informar corretamente e informar sua rede de forma responsável?

Recomendo a leitura constante dos veículos tradicionais, aqueles que tratam a notícia de forma técnica, que trazem sempre os distintos lados de uma questão qualquer. Mesmo estes veículos ainda erram muito, mas são os mais confiáveis.